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Disco: “Terceira Terra”, Supercordas

Supercordas
Nacional/Psychedelic/Rock
https://supercordas.bandcamp.com/

Lentamente o cenário colorido e bucólico apresentado pelo Supercordas em Seres Verdes Ao Redor começa a desmoronar. No lugar de “samambaias, animais rastejantes e anfíbios marcianos”, como aponta o subtítulo do disco entregue em 2006, um cenário dominado por prédios, grandes corporações e máquinas tomam conta do futuro – ou presente seria o presente? – distópico reforçado pela banda carioca no terceiro álbum de inéditas: Terceira Terra (2015, Balaclava Records).

Conciso e dinâmico em relação ao som experimental testado no antecessor A Mágica Deriva Dos Elefantes, de 2012, Terceira Terra é o álbum em que o discurso político de Pedro Bonifrate, vocalista e principal compositor do grupo, ganha destaque. Logo na abertura do disco, Fundação Roberto Marinho Blues & Co., uma análise crítica das últimas cinco décadas da Rede Globo de televisão, manipulação de conteúdo e estreito diálogo da emissora com os militares durante o período da ditadura – “E a nossa prensa faz da pólis, família / Da vida, televisão / Da história, alquimia / Do golpe, revolução“.

A mesma proposta raivosa que orienta os versos se manifesta também nos arranjos de boa parte das canções. Melhor exemplo disso está na construção de Itinerarium Extaticum In Temporalibus. Quinta faixa do disco, a composição inicialmente dominada pelo minimalismo e notas sutis de glockenspiel aos poucos explode em uma avalanche de ruídos sujos de guitarras. Difícil não pensar no clássico Loveless (1991) da banda irlandesa My Bloody Valentine quando a voz de Bonifrate é parcialmente coberta pelos efeitos e distorções que crescem ao fundo da música.

Sobre o Amor e Pedras é outra que confirma o completo domínio das guitarras ao longo do registro. Entregue ao público no final de 2014, a faixa de versos carregados de metáforas, referências literárias e locais aos poucos conforta o ouvinte em uma cama de sintetizadores e ruídos, crescendo como uma reinterpretação urbana do mesmo som psicodélico e “rural” testado pela banda desde os primeiros trabalhos de estúdio, no começo dos anos 2000.

Espécie de fuga desse universo de canções aceleradas, por vezes violentas, Maria³ funciona como uma ponte, aproximando a presente fase do coletivo carioca do mesmo catálogo de canções apresentados nos últimos dez anos. Enquanto as guitarras mergulham em um mundo de cores, texturas e distorções, abrindo espaço para a assertiva interferência do convidado Benke Ferraz, guitarrista do Boogarins, nos versos, a personagem central – Maria – passeia por elementos típicos das antigas canções da banda – “Talvez dar no pé daqui mundo afora / Largar sombras por aí, mas agora / Deixa, que é bom sangrar de novo“.

Em uma constante divisão entre passado, presente e futuro, Terceira Terra soa como uma extensão natural do último registro solo de Bonifrate, Museu de Arte Moderna (2013). Parte de um mesmo conceito e sonoridade, o que diferencia os dois registros são os versos “pessimistas” encaixados ao longo do presente álbum da banda carioca. Um desconforto permanente, como se mesmo nos instantes mais radiantes do disco, uma sombra ocultasse os versos, cores e temas psicodélicos originalmente lançados pelo grupo. 

Terceira Terra (2015, Balaclava Records)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Bonifrate, Boogarins e Cérebro Eletrônico
Ouça: Maria³, Itinerarium Extaticum In Temporalibus e Terceira Terra

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