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Disco: “The 20/20 Experience”, Justin Timberlake

Justin Timberlake
R&B/Pop/Dance
http://twentytwenty.justintimberlake.com/

 

Por: Cleber Facchi

Justin Timberlake

Existe um senso de urgência em que todo registro voltado para a música pop deve ter efeito imediato e consequente efemeridade. Músicas capazes de simplificar toda complexidade lírico-instrumental em dois ou três minutos – tempo mais do que suficiente para que ela se transforme em clipe e circule com sucesso pelos mais variados campos midiáticos. Uma lógica até funcional para o trabalho de artistas recentes que lidam com a descartabilidade dos sons, como One Direction, Taylor Swift ou mesmo o Justin Timberlake da fase Justified (2002), porém, uma proposta que não se aplica para aqueles que atravessam o imenso (e criativo) cenário construído pelo cantor em The 20/20 Experience (2013, RCA).

Sucessor do aclamado Futuresex/Lovesound (2006), o terceiro registro solo do ex-N’Sync parece continuar exatamente de onde o músico parou em What Goes Around… Comes Around: Um R&B de proporções épicas, orquestrações capazes de brincar com o pop e todo um jogo de vozes que esbanjam involuntariamente sensualidade. A diferença entre o novo disco e o trabalho anterior está na busca de Timberlake (e do produtor Timbaland) por um álbum de caráter “anti-comercial”. Com exceção de Suit & Tie e That Girl, todas as outras faixas que recheiam o disco ultrapassam com facilidade os sete minutos de duração. Praticamente um suicídio “em tempos da rapidez da internet”, afinal, como alguns ex-fãs justificaram pelas redes sociais nos últimos dias: “quem tem tempo para ouvir uma música de oito minutos ou um álbum com mais de uma hora de duração?”.

Você já parou para pensar no significado do título “The 20/20 Experience”? Para os oftalmologistas, um ser humano normal tem visão funcional quando consegue enxergar objetos a uma distância de 6 metros, medida aqui estabelecida como 6/6 ou 20/20 nos padrões dos Estados Unidos. Logo, o novo álbum de Timberlake não é um trabalho para ouvir, mas música “para ver”, como o próprio já afirmou em outras entrevistas. E basta a memorável apresentação do cantor no Saturday Night Live ou mesmo em outros programas da televisão norte-americana para perceber que o terceiro disco do artista é inteiramente pensado para o espetáculo. Das apresentações ao vivo aos programas de TV, The 20/20 Experience é um álbum que vai além dos fones de ouvido, é algo que você precisa ver.

O pop, entretanto, carece de imediatismos, e quem se deixar barrar pela extensão das músicas ou pela proposta “anti-comercial” do disco vai provar de um prato inevitavelmente frio. Timberlake ainda está longe de se ausentar do mesmo som vendável que o acompanha desde o começo da carreira – quando tinha cabelo de miojo e brincava com o pop do N’Sync. Contrariando a maioria dos artistas que vem resgatando o R&B, Justin investe em um trabalho que parece calcular não apenas as dimensões de uma composição de estúdio, mas de cada limite dos palcos. O músico nada mais é do que um fino produto da industria pop (seja ela o cinema ou a música), e sabe como ninguém como se autopromover. Há quem possa afirmar que o trabalho do cantor é “oco” ou “vazio” por apostar nessa temática, mas estes – corrompidos pelo saudosismo e a incapacidade de aceitar o novo – esqueçam que Prince e Michael Jackson só acertaram e hoje são idolatrados pois souberam como vender a própria música.


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Barrando qualquer crítica, The 20/20 Experience é sim um fino exemplar da música pop, talvez não do nosso tempo, mas do que foi construído há duas ou três décadas. Logo de cara as orquestrações jazzísticas deixam claro que se trata de uma obra nostálgica, quase uma ode aos grandes discos de R&B que abasteceram boa parte do cenário musical fundamentado a partir da segunda metade da década de 1970. Estão lá os realces eróticos no melhor estilo Prince (Pusher Love Girl), o pop épico que alimentou a carreira de Michael Jackson pós-Bad (Suit & Tie) e até um pouco do que definiu o trabalho de veteranos como D’Angelo no começo dos anos 2000 (vide os solos exóticos e batidas que compõem Mirrors). Longas introduções, composições imoderadas, versos cíclicos e todo um conjunto de marcas talvez “desgastantes’ em uma primeira audição, porém irretocáveis quanto mais nos acostumamos com elas.

Ao mesmo tempo em que estreita a relação com diversos registros importantes do passado e do presente, não há como negar a visível adaptação de Timberlake aos sons que marcam a música recente. Caso mais específico disso está na dolorosa composição de Blue Ocean Floor, faixa que se “fosse lançada há três anos poderia ser chamada de Chillwave”, como bem definiu o jornalista Jon Caramanica em seu extenso artigo para o The New York Times. De fato, muito do que alimenta a melancolia no interior da música parece ter saído daquilo que Tom Krell desenvolve com o How To Dress Well ou mesmo outros artistas norte-americanos vêm incorporando no “novo R&B”. Vozes sempre dolorosas marcadas pelo falsete, instrumentação ambiental e um jogo seguro de sobreposições sonoras totalmente imprevisíveis se observarmos a agressividade erótica que flui de Future Sex/Love Sounds.

Quando resolve se entregar ao pop e até mesmo percorrer o que há de mais comercial no Hip-Hop, Justin inevitavelmente soa como Kanye West. Dos samples volumosos à forma grandiosa como as composições chegam aos ouvidos, Tunnel Vision, Spaceship Coupe e principalmente Mirrors parecem se manifestar como uma extensão melódica dos mesmos exageros assinados pelo rapper a partir de Graduation (2007). A diferença está na capacidade do cantor em se desligar da esquizofrenia natural do conterrâneo, virando um pouco antes na curva que poderia resultar em um novo (e possivelmente falho) My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Timberlake quer ser dono de um pop épico e nada convencional, porém, ainda está longe de perder a sanidade, permanecendo em um universo próximo de 808’s And Heartbreaks (2008).

Ao lado do álbum 4 de Beyoncé, da já mencionada obra-prima de West ou mesmos outros registros importantes do pop atual, The 20/20 Experience comprova o que talvez já fosse óbvio: a revolução e a “salvação” da música não está nas mãos de artistas focados na produção alternativa, mas contraditoriamente posicionada nas mãos de gigantes do meio. Mais do que um tratado relevante para o cenário em que está inserido, o terceiro registro do cantor parece se estender para além dos próprios limites, não apenas resgatando tendências esquecidas pelo grande público, mas antecipando marcas que devem influenciar a cena alternativa ou mesmo a música comercial pelos próximos anos. Timberlake poderia sim ter lançado um bom disco de música pop como os dois trabalhos que o precedem. Felizmente ele resolveu ir além.

 

Justin Timberlake

The 20/20 Experience (2013, RCA)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Michael Jackson, D’Angelo e The Weeknd
Ouça: Mirrors, Suit & Tie e Blue Ocean Floor

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17 thoughts on “Disco: “The 20/20 Experience”, Justin Timberlake

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