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Disco: “The Chronicles of Marnia”, Marnie Stern

Marnie Stern
Indie Rock/Experimental/Female Vocalists
https://www.facebook.com/marniestern

 

Por: Cleber Facchi

Marnie Stern

Fisicamente, pela forma como se veste e talvez até por conta dos sons açucarados, Marnie Stern sempre pareceu como uma versão alternativa (ou estranha) de Elle Woods, a estrela do filme Legalmente Loira. Entretanto, enquanto a cômica personagem interpretada por Reese Whiterspoon se acomoda em um mundo acolchoado pelo rosa, compras e histórias de amor, a cantora e compositora nova-iorquina rompe com esse mesmo universo, sobrecarregando guitarras distorcidas como uma versão recente de Liz Phair (na fase Exile in Guyville) ou quem sabe uma Yoko Ono menos excêntrica. Stern parece sempre próxima de mergulhar na música pop, mas as guitarras mais uma vez a trazem de volta.

Com uma proposta que mantém as mesmas diretrizes firmadas no disco In Advance of the Broken Arm, de 2007, The Chronicles of Marnia (2013, Kill Rock Stars) parece aproximar Battles e Katy Perry em um mesmo universo. Enquanto as guitarras assinadas pela norte-americana parecem atravessar décadas de referências variadas até estacionar nos experimentos que construíram o Math Rock ao longo da década de 1990, os vocais açucarados puxam o disco para um novo fluxo. Uma dicotomia curiosa, não mais inédita se levarmos em conta os discos passados, porém seguramente assertiva na execução de todo o quarto registro da artista.

Primeiro trabalho assinado dos versos à produção por Stern – Zach Hill, produtor dos últimos discos, parceiro de longa data e também baterista da cantora tem se dedicado integralmente ao trabalho com o Death Grips -, o álbum não decepciona, porém peca em se tratando de novidade. Mesmo que o lançamento do autointitulado disco de 2010 tenha surpreendido, desde o ápice com This Is It and I Am It and You Are It… (o título original é imenso) em 2008, a obra da nova-iorquina se mantém dentro de um mesmo propósito. Um conjunto sempre bem resolvido de letras melódicas, guitarras tratadas de forma não óbvia e os vocais “instrumentais” da cantora.

 

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Talvez como forma de “combater” a ausência de ineditismo que orienta a obra, Marnie acaba por rechear o álbum com uma carga extra de guitarras. Enquanto o bloco inicial de composições – que incluem Year Of The Glad, Noonan e Nothing Is Easy – possibilitam o crescimento do lado mais alegre da artista (um meio termo entre Tune-Yards e Dirty Projectors), a segunda metade e, principalmente, o bloco final de canções trazem o oposto. Com uma proposta mais climática em alguns pontos e naturalmente experimental, Proof Of Life e Hell Yes, por exemplo, driblam o clima festivo para embarcar em um tom sério, como se as cores do começo do disco fossem aos poucos ficando acinzentadas.

Muito embora essa pequena divisão não consiga acrescentar nenhuma marca de significativa transformação ao recente trabalho, não há como contestar o quanto ela garante maior movimentação (e algumas boas composições) ao disco. É como se lentamente as guitarras festivas de Marnie fossem incorporando uma temática mais sóbria, um toque leve de amargura e um possível rumo que, se melhor estruturado, traria algo de verdadeiramente novo à carreira da musicista. A divisão talvez sirva para marcar a nova fase da cantora, afinal, enquanto a primeira metade de músicas trata de uma sonoridade muito próxima da trabalhada nos primeiros discos, a partir da faixa-título um toque de “futuro” parece surgir.

Se por um lado a ausência de Zach Hill deixa Marnie desnorteada em algumas composições, por outro lado o registro possibilita que a verdadeira figura da artista apareça para o público. The Chronicles of Marnia (o título é um dos melhores de 2013) com todos seus erros e acertos é a mais pura representação instrumental e lírica da nova-iorquina. Estão lá todos os elementos que a apresentaram há alguns anos, em um formato um pouco mais cru, claro, porém tão honestos e bem direcionados que não se encantar pelo álbum parece simplesmente um erro.

Marnie Stern

The Chronicles of Marnia (2013, Kill Rock Stars)

 

Nota: 7.5
Para quem gosta de: Battles, Tune-Yards e Hella
Ouça: Year of the Glad e Nothing Is Easy