Disco: “The Errant Charm”, Vetiver

Vetiver
Folk/Indie/Alternative
http://www.myspace.com/vetiverse

Por: Fernanda Blammer

 

Passados mais de 40 anos do mitológico “Verão do Amor” – grande marco do movimento hippie, realizado durante o verão de 1967 na cidade californiana de São Francisco – as reverberações do evento ainda tomam conta de boa parte do cenário musical que se concentra na região de Haight-Ashbury, onde tudo aconteceu. Mesmo que em quatro décadas muito dos ideais propostos naquela época tenham sido sumariamente esquecidos, alguns artistas locais como Vetiver buscam (na medida do possível) restransmitir os ideais de paz e amor que tanto caracterizaram a produção cultural do período. Em seu quinto álbum, a banda se afasta perceptivelmente da levada freak-folk de outrora, dando vida a um som muito mais suave e ainda assim viajado.

Imaginava-se que ao se afastarem dos experimentalismos da estreia (quando o bicho-grilo Devendra Banhart participava ativamente ao lado do quinteto californiano), que a sonoridade do Vetiver pudesse rumar para um patamar menos criativo e próxima de algo enfadonho, algo que de fato aconteceu durante os discos To Find Me Gone (2006) e Thing of the Past (um penoso álbum de covers). Entretanto, desde que a banda lançou seu último trabalho, Tight Knit em 2009, que tudo parecia melhor organizado, algo que se intensifica com pacato The Errant Charm (2011).

O novo LP é exatamente como a banda o define“um álbum feito caminhar”. Em suas dez faixas o quinteto – Andy Cabic, Otto Hauser, Sarah Versprille, Daniel Hindman e Bob Parins – constrói um apanhado de canções ensolaradas, levemente preguiçosas e que parecem a trilha sonora de um passeio no parque. Embora vindo das hippies terras californianas, este é o registro menos viajado do grupo, mesmo que pequenos toques de uma psicodelia reverberada ainda se façam visíveis, dando certo charme ao álbum.

Existe algo de místico dentro de The Errant Charm. Mesmo que a banda traga pouca inovação, soando bem básica em seu aspecto instrumental, conforme o disco se desenvolve, mais ele nos absorve para dentro de suas composições suaves, sempre conduzidos pelos vocais pacatos de Cabic. Por incrível que pareça é possível perceber alguns toques de bossa nova dentro do álbum (influência de Banhart?), com o grupo se convertendo em uma espécie de Kings Of Convenience hippie, substituindo as crônicas urbanas de Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe por algo mais rural.

Porém, isso não quer dizer que o uso de guitarras seja algo proibido no decorrer do disco, pelo contrário, a partir da segunda metade do álbum o quinteto se apega de vez ao instrumento, trazendo ao registro uma sonoridade levemente próxima de seus primeiros álbuns. A forma com que a banda expõe seus sons a partir de Right Way dão ao trabalho uma distinção de seus anteriores lançamentos, aproximando o Vetiver de algo totalmente pop, fácil e radiofônico. Não seria estranho encontrar Wonder Why ou Ride Ride Ride na programação de alguma rádio comercial em plena luz do dia, afinal, as letras e (principalmente) a sonoridade pegajosa das canções tendem à isso.

Há quase dez anos, quando a banda se formou nos subúrbios de São Francisco era possível compreender o Vetiver como algo totalmente oposto do que é hoje, muito mais conceitual e repleta de aspirações excêntricas. Ver o grupo destilando sons fáceis e compactos pode até parecer uma afronta aos ideológicos seguidores da banda, porém, afronta maior seria ver que a banda pouco mudou em sua quase década de existência. Embora incertos é bom perceber que o grupo continua em mutação, repetindo apenas uma única coisa de quando teve início: a boa música.

The Errant Charm (2011)

Nota: 7.4
Para quem gosta de: Devendra Banhart, Megapuss e Akron/Family
Ouça: Wonder Why

Veja também:


0 thoughts on “Disco: “The Errant Charm”, Vetiver

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend