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Disco: “The Future’s Void”, EMA

EMA
Experimental/Indie/Female Vocalists
http://www.thefuturesvoid.net/

Por: Cleber Facchi

EMA

A música assinada por Erika M. Anderson está longe de ser absorvida de forma imediata. Na contramão de grande parte das cantoras que definem a presente cena norte-americana, o projeto defendido por EMA encontra no enclausuramento um efeito de grandeza, preferência que pode causar desconforto em uma primeira audição, mas continua a martelar a cabeça do ouvinte mesmo meses após uma rápida prova desse som. Em um sentido de continuidade natural ao debut Past Life Martyed Saints (2011), The Future’s Void (2014, Matador) entende o pop de forma particular, transportando a obra da cantora para um ambiente ainda mais denso e perturbador.

Em um esforço explícito de transformação, EMA deixa as histórias construídas em frente a tela de um computador – marca do álbum passado – para desvendar um novo universo. Como o próprio título logo entrega, The Future’s Void é uma obra que olha para frente, manipulando experiências futurísticas dentro do exagero particular da cantora. Não por acaso parte das composições carregam esse efeito conceitual nos versos e até arranjos, algo que Neuromancer – faixa inspirada no livro clássico de William Gibson, de 1984 – revela de maneira curiosa e ao mesmo tempo referencial.

Em se tratando dos versos, EMA lentamente apaga o cenário urbano e descritivo percorrido no trabalho de 2011, tudo para transformar o novo disco em um conjunto de experiências quase universais. O que antes era encarado por meio do lirismo particular da cantora, agora desemboca em uma série de conceitos literários e propositalmente sentimentais, o que faz do disco um imenso bloco de melancolia – experiência sempre próxima do ouvinte. Ainda que o esforço da cantora seja o de favorecer um ambiente de desordem logo nos primeiros acordes, a precisão de músicas como 3Jane e When She Comes logo rompe com esse efeito.

Musicalmente, o bloco de dez criações inéditas que recheiam o disco é uma evolução em se tratando do trabalho passado. Ao apostar em uma sonoridade menos caseira e próximas de melodias convencionais, EMA brinca com a mente do espectador de forma atrativa, sobriedade que faz crescer tanto as guitarras e vozes da faixa de abertura, Satellites, como as interferências eletrônicas das batidas aos moldes de Neuromancer. Mais do que uma continuação dos engenhos lançados há três anos, com o novo disco a cantora encara um típico exemplar de recomeço.

Manipulado pela densidade dos arranjos, The Future’s Void é um disco que se esforça a parecer épico. Basta uma rápida passagem pela triste 3Jane, faixa que mais parece um encontro entre Patti Smith e Cat Power, para perceber esse intenso direcionamento. Mesmo quando busca por uma tonalidade mais “pop”, caso de So Blonde, EMA não se esquiva do mesmo resultado. São composições crescentes de vozes e arranjos que apenas estimulam a delicadeza orquestral da obra. Uma espécie de complemento ao esqueleto cru que deu vida ao disco passado.

Curioso, mas nem por isso movido pelo ineditismo, The Future’s Void é um disco de reposicionamento. Como já alertou em entrevistas recentes, EMA está longe de repetir a construção de um trabalho similar ao lançamento de 2011 – obra só foi apresentada em contornos artesanais por ter sido produzido e custeado integralmente pela cantora. Em busca de uma sonoridade cada vez mais abrangente – para ela e para os ouvintes -, a artista fixa na limpidez uma espécie de princípio, uma matéria em pleno crescimento, mas que já revela formas musicalmente bem definidas.

 

Ema

The Future’s Void (2014, Matador)

Nota: 7.5
Para quem gosta de: St. Vincent, Torres e Cat Power
Ouça: Satellites, 3Jane e Cthulu

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