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Disco: “The Haunted Man”, Bat For Lashes

Bat For Lashes
Indie/Female Vocalists/Alternative
http://www.batforlashes.com/

Por: Cleber Facchi

Genial ou superestimada? Desde os primórdios como compositora Natasha Khan parece transitar de maneira constante por estes dois extremos. Percepções que se contrastam em virtude da obra capaz de atrair uma parcela muito específica do público, ao mesmo tempo em que parte integral da imprensa se desmancha em elogios – resultado da multiplicidade de referências que acompanham cada novo lançamento da britânica. Única responsável pelo Bat For Lashes, a cantora, produtora e multi-instrumentista autodidata faz do presente disco, The Haunted Man (2012, Parlophone) o trabalho que deve estabelecer de fato se temos a nossa frente uma das grandes artistas da atual geração, ou apenas uma hábil usurpadora de tudo que fora construído há mais de duas décadas por grandes representantes do cenário musical feminino.

Perceptivelmente hermético e menos comercial em relação ao aclamado Two Suns (2009), com o novo disco Khan transmite ao longo de 11 faixas (mesmo número de composições dos trabalhos passados) um constante sentimento de melancolia, sensação que cresce e se converte em amargura quando se encontra com a instrumentação de forte aproximação erudita. A medida permite que a cantora dê um passo além do que propunha há três anos, firmando a execução de um disco que mesmo menor (do ponto de vista dos hits) se expande de maneira imoderada em relação ao delineamento honesto e as confissões que parecem preencher cada espaço do disco. Logo, não é preciso ir muito além do eixo inicial do álbum para entender que Natasha está longe de ser uma artista superestimada, fornecendo durante toda a execução do trabalho toques de incontestável beleza.

Tradicionalmente apresentada como seguidora e propagadora fiel dos ensinamentos de Kate Bush, Björk e PJ Harvey, Khan utiliza do presente disco para lentamente se afastar dessa percepção, demonstrando forte apego ao trabalho de compositores homens. Utilizando de uma poesia que muito se assemelha ao que fora testado por Lou Reed (no jogo assertivo das palavras), por vezes absorvendo o mesmo esforço sorumbático de Robert Smith (The Cure) e até flertando com as metáforas e significados ocultos que sustentam a obra de Thom Yorke, a britânica talvez mantenha a relação feminina de sua obra apenas na maneira como a instrumentação é resolvida pelas faixas. É dentro desse jogo de contrastes de gêneros e conceitos que Khan estabelece grande parte da estrutura do álbum, um disco que mesmo linear, brinca com pequenas instabilidades.

Construído quase inteiramente aos comandos de pianos, teclados e massas volumosas de cordas que se acomodam ao fundo de cada música, em The Haunted Man Khan parece pela primeira vez confortável em sua própria casa. Não estranho que os vocais se estabeleçam uma relação coesa com a tonalidade de sons flutuantes que se estendem até o fim da obra, um encontro que cresce de forma significativa em faixas como Laura e Oh Yeah – esta segundo o ponto mais björkiano do trabalho. Além da soma de elementos atmosféricos e da instrumentação sombria instalada em todo o registro, a leve tapeçaria eletrônica de algumas canções traz novo destino aos caminhos do Bat For Lashes, ampliando o que parecia tímido no trabalho passado e evitando que o projeto caia em redundâncias típicas de um álbum do gênero.

Em diversos momentos pensado como um registro de grandeza épica – delineamento visível na pop Winter Fields e na quase marcha da faixa-título -, com o novo disco Natasha expande o que já estava bem arquitetado durante boa parte do trabalho passado, principalmente em músicas como Glass. A diferença em relação ao disco de 2009 está na forma como a instrumentação abordada em The Haunted Man evita o contraste entre as formas, resultando na criação de densas massas sonoras e encaixes precisos. Um aspecto logo abordado na faixa de abertura Lilies, em que teclados, batidas eletrônicas e violinos se acomodam em uma massa instrumental de finalizações uniformes, proposta que amplia de forma inevitável (e bela) cada mínima fração dos vocais expostos no decorrer do disco.

Por vezes lembrando uma versão menos crua do que Fiona Apple desenvolve durante a extensão do recente The Idler Wheel…, ao lançar o terceiro disco Natasha Khan parece cada vez mais inclinada a se distanciar de velhas experiências (e possíveis comparações) para estabelecer um resultado de finalizações particulares, proposta bem empregada durante todo novo álbum. Experimental na maneira como tenta se sustentar em cima de uma variedade de novas formas, pop na forma como os vocais grudam nos ouvidos, The Haunted Man a exemplo do que os conterrâneos do Wild Beasts desenvolveram no último ano (com o álbum Smother) é um trabalho que absorve o passado, brinca com o presente e arquiteta planos sólidos para o futuro em seus conceitos individuais. Bat For Lashes talvez ainda seja um projeto superestimado, mas de genialidade incontestável.

The Haunted Man (2012, Parlophone)

Nota: 8.8
Para quem gosta de: Björk, Jessie Ware e Lykke Li
Ouça: Laura, All Your Gold e The Haunted Man

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Recomendo a leitura do texto de Fernando Galassi Bat For Lashes: Supervalorizada ou Obra-Prima?

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