"The Inheritors "

James Holden

Ano: 2013
Selo: Border Community
Gênero: Experimental, Eletrônica
Para quem gosta de: Four Tet e Aphex Twin
Ouça: A Circle Inside A Circle Inside e Rannoch Dawn
Nota: 8.0

Disco: “The Inheritors”, James Holden

James Holden caminha com propriedade pelas brechas da música eletrônica. Longe de qualquer aproximação específica com gêneros ou tendências fixas em tramas específicas do estilo, o produtor britânico ocupou a última década em meio a travessias efêmeras, indo de colaborações com nomes de peso da cena inglesa – como Steve Reid e Kieran Hebden -, até remixes curiosos para Madonna e Britney Spears. Tão instável quanto o percurso assumido pelo artista é a composições de The Inheritors (2013, Border Community), segundo registro solo de Holden e, mais uma vez, uma transformação plena nos rumos impostos pelo produtor.

Se em uma primeira audição o disco parece aprimorar a relação com a IDM e a música Techno já estabelecida no debut The Idiots Are Winning (2006), quanto mais o álbum se desenvolve, mais Holden foge às próprias regras. Alimentando cada faixa de maneira particular, o produtor assume com o novo disco uma espécie de coletânea, finalizando parte de tudo o que foi acumulado ao longo dos últimos anos. Entre passagens pelo ambient music (Delabole), distúrbios jazzísticos (The Caterpillar’s Intervention) e até instantes de aproximação com “óbvio” (Rannoch Dawn), o produtor muda de rumo sem qualquer princípio de linearidade, estrutura que converte o álbum em um labirinto instintivo.

Por mais instável que seja o rumo imposto ao disco, a julgar pela aproximação com a obra de veteranos da década de 1990 e o próprio título da obra – em português, “Os Herdeiros” -, The Inheritors nada mais é do que uma homenagem confessa ao trabalho de gigantes surgidos há duas décadas. Seja pelo percurso torto que remete à obra de Aphex Twin, ambientações serenas que brincam com a obra do Boards Of Canada ou mesmo detalhes mínimos que pontuam a carreira do Autechre, cada música lançada pelo disco surge como uma herança assumida. Holden brinca pelo passado, porém, diferente de tantos outros produtores, sem qualquer sintoma de nostalgia.

Tendo com base o uso de um ambiente sombrio que preenche toda a composição do disco, o produtor assume a cada nova faixa um completo oposto do que o Boards Of Canada tratou de apresentar recentemente em Tomorrow’s Harvest (2013). Enquanto a dupla escocesa se concentra na formação de temas curtos e inclinados ao ambiente matutino, Holden encontra na tomada obscura de sons extensos uma oposição criativa, recorrendo vez ou outra ao trabalho de Richard D. James e da própria dupla vizinha para transformar músicas como Gone Feral e Circle of Fifths em inventos recheadas pelo detalhe. Herança transmitida em uma linguagem própria.

Longe de apenas reviver essências construídas há duas décadas, Holden usa do disco como uma base para os próprios inventos. A própria metade inicial do disco representa justamente isso. Enquanto A Circle Inside A Circle Inside quebra batidas eletrônicas e sintetizadores em um Loop psicodélico de natureza intimista, Sky Burial captura no acumulo de ruídos uma completa quebra no rumo possivelmente dançante da obra. Mesmo quando se aproxima do trabalho de produtores veteranos, como em Inter-City 125, o uso abafado dos sons e o alinhamento incerto das batidas reproduzem um efeito particular.

Como se resolvesse parte da timidez que desaba na formação do álbum anterior, o britânico traz na grandeza dos sons um impulso natural para as faixas. Pisando vez ou outra no terreno da Acid House e em conceitos do Krautrock – lembrando uma versão futurística do Neu! em 1972 -, com The Inheritors Holden mostra que pode até emular com perfeição o trabalho dos artistas que tanto o inspiram, mas parece longe de se ater apenas à isso.