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Disco: “The Man Who Died In His Boat”, Grouper

Grouper
Experimental/Drone/Ambient

Por: Cleber Facchi

Grouper

As capas em tons acinzentados que ilustram cada novo trabalho do Grouper têm um objetivo bastante simples dentro da proposta assinada por Liz Harris: Separar a nossa realidade da dela. Desde que deu formas aos primeiros lançamentos relacionados ao projeto em meados da década passada, Harris tem se aventurado de forma solitária na execução de longos e inventivos tratados experimentais, registro em que a sobreposição de texturas denses servem de engrenagem para ambientar o espectador. Um cenário que parece representar de forma intimista a mente soturna de sua realizadora, mas que pouco à pouco se abre para a passagem ou quem sabe a morada de qualquer ouvinte ambientado ao mesmo tipo de experimento.

Dando continuidade àquela que é a maior obra (em todos os sentidos) de sua carreira, o duplo A I A : Alien Observer / Dream Loss de 2011, Harris abandona as prováveis redundâncias ou sustento em cima de uma fórmula pronta para novamente confundir a mente do ouvinte. Embalado pelo encaixe climático de vozes, ruídos e bases instrumentais que jamais se aproximam do exagero, The Man Who Died In His Boat (2013, Kranky) é um registro que rompe com a formatação conceitual de outrora, sendo ao mesmo tempo uma revitalização na obra recente da artista e um passeio pelas iniciais composições do Grouper.

Pela primeira vez em mais de meia década de experimentos inusitados, a invasão de referências externas contribuem para aproximar e trazer novidade ao que por vezes é deixado de lado na sempre padronizada obra da compositora. Trata-se de uma maior relação com o uso de elementos acústicos, resposta natural ao que a artista desenvolveu ao longo de 2012 durante a parceria com Jesy Fortino (Tiny Vipers). Imersa no panorama atmosférico de Foreign Body, primeiro e talvez único registro do projeto Mirroring, Harris utiliza do registro como influência fundamental para o que circula nas massas de sons que movimentam o recente lançamento.

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Ainda que uma primeira audição (e principalmente o bloco inicial de composições) reforce as tendências climáticas que outrora direcionavam o trabalho da norte-americana, do meio para o fim de The Man Who Died In His Boat Harris parte em busca de renovação. Em faixas como Cover the Long Way, por exemplo, a sobreposição das texturas sintetizadas e cinzas que sinalizam os demais trabalhos da artista dão lugar a uma linha caseira de violões, instrumento que transita livremente enquanto os vocais são diluídos de forma etérea. Por mais comum que pareça a estratégia para quem acompanha as transições paralelas de Liz, dentro do Grouper e em relação ao que foi construído no duplo A I A, tal proposta é absorvida como renovação.

Por conta da grandiosidade que orienta a produção do último trabalho da norte-americana, uma audição rápida do presente disco talvez oculte parte fundamental do que só é revelado quando nos habituamos aos planos instrumentais do disco – resultado que só deve se estabelecer lá pela terceira ou quarta audição. É o caso de Living Room, provavelmente a composição mais simples já construída por Harris em uma passagem descompromissada pelo álbum, e o ponto de maior evolução da compositora (principalmente como letrista) quando mergulhamos no cenário recluso por ela esculpido.

Provavelmente o que mais satisfaz na execução do álbum está em perceber que mesmo dentro de um universo imaginado e definido por conceitos próprios, a busca pela transformação constante se faz presente durante a construção de cada nova música – mesmo íntimas, nenhuma das composições soam repetitivas. Ainda que impossível de prever o que deve orientar os rumos da artista em um futuro próximo (novas colaborações seriam um bom começo), partindo do que já foi conquistado com o Grouper, Harris deve manter constante a formação de registros cada vez mais experimentais e que revelam novos cenários dentro do que parece ser uma realidade tão íntima, porém cada vez mais compartilhada.

 

Grouper

The Man Who Died In His Boat (2013, Kranky)

Nota: 7.5
Para quem gosta de: Mirroring, Juliana Barwick e Julia Holter
Ouça: Living Room e Vital

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