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Disco: “The Number Ones”, The #1s

The #1s
Indie Rock/Power Pop/Garage Rock
https://www.facebook.com/thenumberonesdublin

Por: Cleber Facchi

De todos os aspectos que marcaram a primeira leva de artistas no começo dos anos 2000, o toque descompromissado dos arranjos e versos ainda permanece como o mais atrativo. Seja na crueza do rock norte-americano ou nos excessos lisérgicos da cena britânica, acertou quem investiu em um som rápido, simples e essencialmente divertido. É dentro dessa mesma atmosfera que o quarteto irlandês The #1s encontra refúgio e inspiração para o mais novo trabalho em estúdio, o enérgico The Number Ones (2014, Ones Deranged / Static Shock).

Assim como Is This It (2000) do Strokes ou Up The Bracket (2002) do Libertines, nada do que a banda de Dublin apresenta ao longo do trabalho pode ser encarado como “original”. Do esforço coletivo de Eddie Kenrick, Seán Goucher, Conor Lumsden e Cian Nugent traços musicais da década de 1970 – Buzzcocks, The Stooges – e 1980 – The Replacements – se acomodam dentro de um acervo de reciclagens autorais. Um cenário onde versos alcoólicos, confissões e berros que proclamam apenas um único sentimento: diversão.

De fato, “diversão” parece ser a palavra que imediatamente salta na cabeça do ouvinte tão logo os primeiros acordes de I Wish I Was Lonely têm início. São composições aos moldes de Favorite Game e Anything – de até dois minutos – em que o imediatismo dos elementos arrastam o ouvinte para o contexto do disco. Nada de produção atenta, horas em estúdio ou elementos ordenados de forma a provocar o espectador. Tão cru e efêmero quanto o cassete que apresentou a banda – Italia ’90 (2011) -, o material do presente disco parece feito para explodir em segundos.

Mesmo nutrido pelo espírito punk – natureza confessa nas influências e entrevistas do grupo -, The Number Ones é um trabalho que jamais parece “fugir do controle”. Como as guitarras recheadas de I Wish I Was Lonely ou mesmo os atos sutis de Sharon Shouldn’t reforçam, há sempre planejamento por trás de cada criação. Não por acaso comparações ao álbum Guitar Romantic (2003) da (falecida banda) The Exploding Hearts surgem eventualmente – efeito natural do contraste entre boas melodias (de voz) e cargas expressivas de acordes sujos.

Dividindo o mesmo território musical de bandas como Black Lips, King Tuff e, em menor escala (psicodélica), Ty Segall, a estreia do grupo irlandês logo assume uma curva particular dentro desse ambiente típico do Garage Rock. Como a própria efemeridade das canções bem resume, nada em The Number Ones tende ao excesso, conduzindo o ouvinte por entre vozes e ruídos honestos. Logo, é difícil não se apegar ao uso de cantos melódicos ou tristes histórias de amor que surgem e desaparecem momentaneamente – como na “vida real”.

Dentro desse fluxo acelerado, mais de quatro décadas de referências, sons e traços tão autorais acabam comprimidos em menos de 20 minutos de duração. Isso sem contar na carga de sentimentos expostos, histórias e personagens que cada membro do grupo dissolve pelas próprias criações. Amplo e ainda assim econômico, The Number Ones é o caso raro de obra que precisa ser observada em suas porções e, ao mesmo tempo, merece ser apreciada de forma rápida, entre goles de cerveja.

The Number Ones (2014, Ones Deranged / Static Shock)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Black Lips, King Tuff e The Exploding Hearts
Ouça: I Wish I Was Lonely, Boy e Sixteen


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