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Disco: “The Satanist”, Behemoth

Behemoth
Death Metal/Metal/Black Metal
http://behemoth.pl/

Por: Cleber Facchi

Behemoth

Envelhecer trouxe apenas benefícios ao trabalho do grupo polonês Behemoth. Outrora entusiasta das ambientações climáticas e versos cênicos, típicos do Black Metal – preferência que acompanhou o grupo até a segunda metade dos anos 1990 -, a banda de Gdańsk fez da atenta transição para o Death Metal um ponto de equilíbrio entre a sobriedade densa dos versos e a crueza (quase) imediata dos sons. Em um processo de natural crescimento, ao alcançar o 10º trabalho em estúdio, The Satanist (2014, Nuclear Blast), o grupo não apenas amplia as próprias preferências, como regressa pontualmente ao começo de carreira.

Quebrando a furtividade explícita em The Apostasy (2007) e Evangelion (2009), dois últimos trabalhos em estúdio da banda, o presente álbum usa da textura lenta das guitarra como princípio de ambientação para o cenário particular do disco. Vocalista, guitarrista e grande mente aos comandos da banda, Adam Darski, ou melhor, Nergel, usa do álbum como um imenso ensaio lírico, um espaço em que as guitarras contam histórias sobre anjos caídos, bestas demoníacas e apocalipse em um sentido místico – ordem natural dos projetos do grupo e alicerce básico de todo o novo disco.

Parte dessa natural densidade – propositalmente arrastada em determinados momentos – nasce do passado recente de seu criador. Diagnosticado com leucemia em 2010, Nergel passou os últimos cercado pela morte e a desesperança durante o período de tratamento, tempero mais do que necessário para o material profano que (mais uma vez) esculpe cada instante sujo do registro. De cara com o demônio, o músico alimenta uma coleção de faixas que mais parecem uma coletânea de temas aleatórios sobre o gênero, mas, na verdade, servem como um retrato de suas próprias experiências. Nergel é o próprio satanista que garante título ao álbum.

A necessidade de sobreviver e o desafio do músico em enfrentar a fúria divina parece ditar boa parte das regras do álbum. Do ataque instalado nas guitarras e batidas de Blow Your Trumpets Gabriel, na abertura do disco, ao fôlego de In The Absence Ov Light, próximo do fim do trabalho, cada música revela avanço e crueza em perder o que doce da blasfêmia. Em um sentido de busca por reforço, a devoção do músico pelo demônio orquestra cada minuto de ruído e profana exaltação lírica do disco. Uma fé sombria que aparece explícita na espécie de “oração” que é Furor Divinus. Mais uma vez, Nergel olha sem medo nos olhos de Deus e diz: “FODA-SE!”.

Movido por uma carga dramática que iguala as experiências dos primeiros álbuns, The Satanist se esquiva de guitarras dedilhadas e brandas para fluir como uma obra tomada pelo detalhe em relação aos outros instrumentos. Por vezes instaladas em um segundo plano, as guitarras abrem passagem para que o baterista Zbigniew Promiński assuma um espaço apenas dele no decorrer do disco. Instantes de pura versatilidade (Ora Pro Nobis Lucifer) e calmaria proposital (O Father O Satan O Sun!) que alimentam os acordes ascendentes de Nergel durante todo o percurso. Somam arranjos de cordas esporádicos, metais que contribuem para o toque cênico do trabalho e uma explícita sensação de controle que beira o orquestral.

De forte acabamento particular, ainda que as letras abracem o ocultismo em um flerte poético, The Satanist cresce como uma obra em que Nergel se apresenta como o deus de si próprio. Ao esbarrar na morte, o músico polonês trouxe para o trabalho uma série de conceitos há tempos esquecidos ou timidamente explorados nos outros discos. Um efeito que ultrapassa a sensibilidade lírica e encontra no manuseio atento dos arranjos um novo cenário de possibilidades para o grupo. Mais do que uma extensão dos primeiros álbuns, The Satanist involuntariamente cresce como um disco de recomeço. Uma imensa sátira torta sobre a ressurreição, mas que define bem o estado de espírito de seu criador.

Behemoth

The Satanist (2014, Nuclear Blast)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Vesania, Carcass e Gojira
Ouça: Blow Your Trumpets Gabriel, In The Absence Ov Light e Messe Noire