Disco: “The Ship”, Brian Eno

Categories Resenhas

Artista: Brian Eno
Gênero: Ambient, Experimental, Electronic
Acesse: http://www.brian-eno.net/

 

Perto de completar 70 anos de vida – dos quais 40 foram dedicados ao trabalho como músico, produtor e pesquisador musical –, Brian Eno continua tão ativo quanto no início dos anos 1970, quando foi oficialmente apresentado ao público. Em The Ship (2016, Warp), primeiro registro solo do compositor inglês desde o premiado Lux, de 2012, Eno reinventa aspectos curiosos da própria discografia, detalhando uma coleção de vozes e texturas atmosféricas que se espalham até o último instante da obra.

Em um imenso plano de detalhes, sussurros, captações de voz, pianos e bases etéreas, Eno se movimenta com tranquilidade, esmiuçando com atenção a extensa obra que se fragmenta em duas canções – The Ship e os três atos de Fickle Sun. Trata-se de uma completa desconstrução do trabalho apresentado há quatro anos pelo artista, proposta explícita na continua utilização de ruídos e ambientações soturnas que lentamente transportam o ouvinte para um cenário de agitações pouco morosas.

Enquanto Lux parecia dialogar com a mesma composição sublime de clássicos como Ambient 1: Music for Airports (1978), vide a manipulação controlada dos pianos e efeitos ambientais, em The Ship, Eno ruma em direção ao mesmo terreno sombrio de obras como Ambient 4: On Land (1982) e Apollo: Atmospheres and Soundtracks (1983). Composições que distorcem o pano de fundo criado pelo músico para reproduzir um cenário que parece interagir diretamente com o ouvinte, arremessado de um canto a outro do trabalho.

Basta um passeio pela faixa de abertura do disco, com seus mais de 20 minutos de duração, para perceber o universo de referências, colagens e inúmeras fórmulas instrumentais testadas pelo veterano. Sintetizadores inicialmente serenos, mas que acabam alcançando um detalhamento cósmico, passagem para a precisa utilização de vocais semi-robóticos na segunda metade da faixa – elemento “abandonado” pelo músico desde o álbum Another Day on Earth, de 2005.

Em Fickle Sun, cada fragmento aponta para uma direção diferente. Na primeira porção, a mais extensa, pouco mais de 18 minutos em que Eno caminha pelo mesmo terreno de David Bowie em Blackstar (2016). De fato, a semelhança com o trabalho do falecido camaleão do rock é enorme, percepção que se reforça na voz grave e arranjos sombreados da canção. No ato seguinte, um trabalho em conjunto entre os pianos de Eno e os versos declamados pelo ator britânico Peter Serafinowicz, ponte para o ato final do trabalho com Fickle Sun (III) I’m Set Free, faixa que resgata trechos de I’m Set Free do grupo nova-iorquino The Velvet Underground.

Pleno exercício da versatilidade de Eno, The Ship flutua entre o pop e o isolamento experimental do compositor sem necessariamente fazer disso a passagem para uma obra instável. Da abertura ao fechamento, uma completa fuga do som produzido há dois anos em High Life e Someday World, sequência de obras lançadas em parceria com o produtor inglês Karl Hyde, como se Eno navegasse em um oceano de melodias, vozes e regras próprias.

 

rp_Brian-Eno-The-Ship-1024x1024.jpg

The Ship (2016, Warp)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Tim Hecker, Fennesz e Aphex Twin
Ouça: The Ship e Fickle Sun (III) I’m Set Free

Veja também:

Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *