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Disco: “Toda a Casa Crua”, Lemoskine

Lemoskine
Brazilian/Indie/Alternative
http://soundcloud.com/lemoskine

Por: Cleber Facchi

Rodrigo Lemos é um personagem peculiar dentro do cenário independente nacional. Desde que surgiu como vocalista e compositor da extinta banda Poléxia na segunda metade da década passada que o músico tem se revelado como uma das figuras mais curiosas do celeiro musical curitibano. Dono de uma poesia romântica, rara e esquizofrênica na mesma intensidade, o artista deixou profundas marcas nos mais variados cantos do panorama que o circunda, particularidades que se encontram tanto nos versos suavizados do projeto Naked Girls And Aeroplanes (em parceria com os membros do Sabonetes), no pop épico e vanguardista d’A Banda Mais Bonita da Cidade ou mesmo no projeto solo que assume de maneira particular, o Lemoskine.

Agora em posse definitiva do primeiro registro em carreira solo, Toda a Casa Crua (2012, Independente), Lemos estabelece ao longo de dez composições uma espécie de síntese de tudo que acumulou em mais de uma década de produções ininterruptas. Afundado de maneira acolhedora nos ensinamentos experimentais do Radiohead (pré-Kid A) e na suavidade poética do Los Hermanos (do Bloco do Eu Sozinho), o músico encontra um caminho distinto e próprio em relação ao que tantas outras bandas insistem em reciclar, convertendo sentimentos honestos e uma sonoridade não óbvia na força que pontua o disco do princípio ao fim.

Ainda que seja capaz de estabelecer uma forte conexão com todos os projetos anteriores, Lemos faz do presente registro um tratado de completa distinção em relação aos discos passados ou compostos prévios por ele elaborados. Transitando pelo mesmo campo macambúzio que se apodera da obra de estreia do carioca Cícero, Canções de Apartamento (2011), o músico usa da poesia intimista e de referências particulares para firmar a construção de um projeto hermético, maduro e intensamente consumido por um toque de amargura. Dentro dessa proposta, o cantor transforma as dores e melancolias em um mecanismo de compartilhamento, convertendo referências pessoais em um material poético de grandeza múltipla que se conecta diretamente com o ouvinte.

Ao mesmo tempo em que fornece subsídios para a produção de um disco obscuro e delimitado pelos versos tristes, não há como passear pela mansão instrumental construída pelo cantor sem observar de maneira atenta a sutileza que bem preenche algumas das músicas. Belo exemplo desse cuidado sonoro está impresso na delicadeza de Música de Novela, canção que brinca durante toda a extensão com os mesmos realces sutis que definem o indie pop apaixonado de grupos como Belle and Sebastian e I’m From Barcelona. Em Cabeça de Disco a mesma tonalidade se faz presente, com Lemos expandindo seus limites e flutuando de maneira sóbria pelos vocais harmônicos dos Beach Boys e a instrumentação que caracteriza a obra da banda Pato Fu.

Por falar no trabalho do grupo mineiro, quem acompanha Lemos em grande parte da produção do disco é John Ulhoa. Um dos vocalistas do Pato Fu (ao lado da esposa Fernanda Takai) e principal instrumentista do quinteto, o músico garante ao registro um acabamento coeso, impedindo que o curitibano caia em desajustes ou experimentos excessivos que possam prejudicar sua obra. Contudo, mesmo que seja capaz de finalizar um trabalho de grandeza e produção impecável, falta ao registro composições que assumam a mesma natureza pop dos antigos trabalhos de Rodrigo, resultado que por vezes impede o disco de alcançar um resultado maior e ainda mais próximo do grande público.

Toda a Casa Crua assim como o disco de estreia d’A Banda Mais Bonita da Cidade ou o primeiro álbum ao lado dos companheiros do Poléxia é um registro de preparação e descoberta. Lemos como grande entusiasta da música pop (em suas inúmeras formas) proporciona a realização de um trabalho complexo e atrativo na mesma medida – mesmo que em alguns momentos essa primeira característica fale mais alto. Ora atento aos realces experimentais, ora confesso apaixonado por composições mais simples e voláteis, o músico transforma o registro de estreia em carreira solo em um projeto que a cada nova audição cresce e revela novas percepções, solidificando alguns sérios apontamentos do que podemos encontrar em um futuro próximo.

Toda a Casa Crua (2012, Independente)

Nota: 7.5
Para quem gosta de: Cícero, A Banda Mais Bonita da Cidade e Pélico
Ouça: Música de Novela, Computadores Românticos e Toda Bonita

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4 thoughts on “Disco: “Toda a Casa Crua”, Lemoskine

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