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Disco: “Todo Calor”, Isaar

Isaar
Mangue Beat/Pop/Female Vocalists
http://www.isaar.com.br/

Por: Cleber Facchi

Isaar

Passadas duas décadas desde que Da Lama ao Caos, de Chico Science e Nação Zumbi, e Samba Esquema Noise, do Mundo Livre S/A, abriram oficialmente as portas da música pernambucana, a herança do Mangue Beat ainda reverbera em um estágio de invento e plena imposição cultural. Íntima da própria essência, porém, cada vez mais próxima do pop – em um sentido de diálogo atento com o público médio -, a recifense Isaar (ex-Comadre Fulozinha) traça com a chegada do segundo álbum solo um cenário de profunda transformação, mas que em momento algum se esquiva das canções de fácil apelo.

Valendo o título de Todo Calor (2014, Independente), o sucessor do doce Copo de Espuma (2009) é mais do que um simples exercício de criação, mas uma obra quente, que impõem as próprias preferências da artista. Orquestrado com segurança pela voz flexível da cantora, o álbum se acomoda em uma sequência de canções de amor, versos de fluxo cotidiano e faixas que absorvem a cultura de Recife. Uma natural extensão do exercício proposto há cinco anos, mas uma obra que, acima de tudo, se comunica de forma estável com o ouvinte.

Tendo na inaugural Nunca mais Desapareça, canção de abertura da obra, um fio condutor para o restante do trabalho, Isaar se acomoda em uma coleção de versos cíclicos, feitos para estabelecer morada rápida na mente do espectador. São instantes como “Nunca mais diga que me esqueça” e “Além daquela estrada de sementes” que imediatamente se apoderam das percepções do ouvinte. Como um mantra pop e plástico, Isaar cria um cenário confortável, um habitat natural para que as batidas tropicais e referências típicas da música pernambucana possam se anunciar.

Versátil, a artista passeia por um universo de possibilidades tão distintas quanto as anunciadas em seus antigos projetos – seja ao lado do Comadre Fulozinha ou em parceria com DJ Dolores. Enquanto músicas como Tudo em Volta de Mim Vira Um Vão revelam ao público as ambientações da MPB, típicas de Gal Costa e demais veteranas, outras como Coisas Por Escrito mergulham Isaar em uma proposta íntima do rock. Utilizando dos efeitos percussivos como um mecanismo de união para estes dois extremos, a cantora não apenas firma um desafio em cada nova música, como finaliza um trabalho homogêneo, marcado pela segurança dos arranjos.

Mais do que ambientar referências opostas em um cenário de forte comunicação, Isaar utiliza do presente álbum como um reforço da estética recifense. A julgar pelo frevo que comanda as experiências de Estação Ligeira ou mesmo o clima suingado que abre a faixa-título, todos os instantes do trabalho se manifestam como uma ativa interpretação das pessoas, expressões e ritmos originais de pernambuco. Uma obra ambientada de forma confessa em um cenário particular, mas que em nenhum instante exclui a chegada do ouvinte “estrangeiro”.

Enquadrado como uma obra simples – pop -, Todo Calor esconde nas melodias compactas e letras de fácil assimilação um tratamento típico do Comadre Fulozinha: a durabilidade. Mais do que uma obra entregue ao ouvinte para poucas e rápidas audições, o segundo álbum da cantora pernambucana fragmenta na proposta acessível as confissões e versos intimistas da artista, personagem da própria obra, mas que lentamente tece um limite autoral, raro. Ainda que implore na abertura do trabalho, “Nunca mais desapareça/ Nunca mais diga que me esqueça”, Isaar encontra no segundo álbum um registro que está longe de ser descartado, pelo contrário, tem tudo para ser lembrado.

Isaar

Todo Calor (2014, Independente)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Karina Buhr, Comadre Fulozinha e Bárbara Eugênia
Ouça: Todo Calor, Casa Vazia e Nunca mais Desapareça


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