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Disco: “Tracer”, Teengirl Fantasy

Teengirl Fantasy
Electronic/Experimental/Indie
http://teengirlfantasy.angelfire.com/

Por: Cleber Facchi

Logan Takahashi e Nick Weiss parecem entender a música eletrônica de uma única forma: como objeto de experimentação. Assumindo essa proposta, a dupla expande todos os prováveis limites dentro do projeto Teengirl Fantasy, convertendo a então reduzida interpretação do gênero em algo amplo, complexo e que ainda pode soar pop na mesma medida. É justamente dentro dessa necessidade de experimentar e atrair o “grande público” que o duo norte-americano faz de Tracer (2012, R&S/True Panther) um registro inteiro pensado nessas pequenas divisões. Ora esquizofrênico, ora comercial, o álbum – a exemplo do que tantos outros tratados recentes incorporam -, faz da necessidade de transitar por distintos campos uma ferramenta para o crescimento próprio dos produtores.

Partidários dos mesmos experimentos festivos que definem a ainda curta trajetória do Pictureplane, a dupla expande essa tendência para esbarrar intencionalmente naquilo que o aclamado Daniel Lopatin expõe em sua obra. Todavia quem espera encontrar em Tracer a mesma proporção ambiental e ruidosa do que o músico desenvolve dentro do grandioso Oneohtrix Point Never, talvez se decepcione com o resultado imposto no decorrer do disco, afinal, grande parte dele se relaciona quase que diretamente com o que norte-americano desenvolve em outro projeto, o pop e nostálgico Ford & Lopatin. Dos encaixes Lo-Fi aos clima atrativo que remete à década de 1980, cada porção do álbum se aproxima do que fora testado previamente em Channel Pressure (2011).

Além da clara relação com os sons vindos dos anos 80, diferente do primeiro disco da dupla – 7AM (2010) –, o novo álbum explode em referências que estimulam um interessante diálogo com o R&B. Exemplo mais latente disse está na colaboração com a novata Kelela em EFX, composição mais marcante do trabalho e também um elo com a produção eletrônica que ecoa em solo britânico. Dos beats a forma como os samples são explorados, tudo remete aos momentos mais “suaves” do produtor Rustie ou ainda aos primeiros compostos de James Blake antes deste dar formas ao composto mais melancólico de sua obra. A preferência acaba por definir a primeira metade do álbum, que funde psicodelia e eletrônica em Pyjama (em parceria com Panda Bear) e regressa novamente ao R&B em Mist of Time, dessa vez aproveitando os vocais da ótima Laurel Halo.

Já a partir da sexta faixa a dupla volta a apostar no lado experimental da obra, proposta que se mantém na sequência construída por End, Vector Spray e Inca, três dos momentos mais difíceis e por vezes climáticos da obra. Entretanto, quando tudo parece contribuir para a formação de um álbum essencialmente experimental e que brinca com o instável, eis que a dupla reverte essa ordem e volta com um grandioso achado da eletrônica-pop: Do It. Parceria com o também produtor Romanthony (responsável pelos vocais no clássico One More Time, do Daft Punk), a canção flutua entre as rajadas de synthpop do primeiro álbum do Friendly Fires e os vocais empolgados do último disco do Phoenix, Wolfgang Amadeus Phoenix (2009), criando assim uma das melhores e mais atrativas faixas do ano.

Por justamente brincar com essa necessidade de experimentar, Tracer pode causar certo desconforto aos ouvintes despreparados. Falta ao disco algum tipo de ordem ou aproximação instrumental que consiga de alguma forma unir todas as faixas que formalizam o disco. A proposta constante de ir de um extremo a outro faz com que em alguns momentos o álbum soe como o resultado da soma de dois projetos distintos e incompatíveis, resultado dessa natural passagem da dupla por preferências que praticamente se excluem. Esse acabamento acaba minimizando a grandiosidade do álbum, que parece funcionar melhor quando observado em frações, faixa por faixa, como se tudo fosse parte de uma imensa coletânea sobre o mesmo tema, apenas com a ordem inexata.

Quando observado como um registro fechado, Tracer pode não satisfazer de maneira geral, mas permanece constante a capacidade do trabalho em instigar o ouvinte até o fechamento da obra. Diferente da estreia da dupla apresentada há dois anos, ao longo do novo lançamento vê-se a necessidade de Weiss e Takahashi em elevar ao extremo cada preferência do disco, seja ela a de manifestar um resultado mais pop ou de naturalmente expandir os limites experimentais que tanto dividem e fortificam o trabalho. Intencional ou não, a dupla garante um álbum que percorre dois diferentes caminhos, resta apenas saber que rumo eles assumirão futuramente e que tendência o próprio ouvinte escolhe agora.

Tracer (2012, R&S/True Panther)

Nota: 7.8
Para quem gosta de: Pictureplans, Ford & Lopatin e Gatekeeper
Ouça: EFX, Do It e Mist of Time

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