Disco: “Tremors”, SOHN

Categories Resenhas

SOHN
R&B/Electronic/Alternative
http://sohnmusic.com/

Por: Cleber Facchi

SOHN

Christopher Taylor é um artista em evidente crescimento. Desde que surgiu em meados de 2012, com os singles The Wheel e Red Lines, o produtor britânico responsável pelo SOHN parece ter expandido os próprios limites estéticos, ao mesmo tempo em que mantém firme a sonoridade reforçada desde o primeiro ruído sintetizado. Em um sentido de (re)aproveitamento da nova safra do R&B, o músico usa da tonalidade eletrônica como um palco criativo para as próprias confissões, proposta que invade a arquitetura de Tremors (2014, 4AD) e gerencia com evidente acerto a estreia do produtor.

Seguindo a trilha conceitual dos arranjos que orquestram a obra de How To Dress Well e Autre Ne Veut, Taylor ameniza bases nostálgicas e arranjos atuais em um trabalho marcado pelas confissões. Melancólico em um tratamento proposital, o disco caminha com firmeza em direção ao grande público, efeito que mesmo comercial não tinge com redundância os ainda inéditos inventos proclamados pelo produtor. Tremors é a materialização do que há de mais obscuro nos sentimentos recentes do britânico e, por consequência, a ferramenta mais correta para hipnotizar o ouvinte.

De onde havia parado no último ano, com os singles Bloodflows e Lessons, Tylor parece apenas projetar uma sequência. Batidas eletrônicas absorvidas de forma instável, samples fragmentados de vozes e uma base nunca orgânica de sintetizadores servem de abrigo para os versos lacrimosos do artista. Cópia? Não, apenas um evidente aprimoramento do que havia testado há poucos meses. Tremors, diferente dos projetos anteriores lançados pelo músico, é uma obra marcada pela completude. Faixas que abrem passagem para a canção seguinte e uma série de pequenos detalhes que mergulham o ouvinte em um só ambiente.

Ao partir o próprio coração e entregar ao ouvinte fragmentos de tais experiências, SOHN fixa o nascimento de uma obra que cresce como um convite inevitável. Por mais doloroso que seja o exercício abordado logo na inaugural Tempest, mergulhar (cada vez mais) nos versos amargos do compositor se revela uma necessidade. Enquanto as batidas tecem uma fina camada protetora, as bases funcionam como pequenos alicerces, transformando músicas como Fool e Lights em exemplares autênticos de pura confissão/confusão sentimental. Sim, Tremors é um disco de desamor, mas está longe de tropeçar em possíveis clichês.

Desenvolvido como uma espécie de coletânea, o álbum absorve boa parte das faixas lançadas por Tylor ao longo dos meses, fazendo do conjunto assertivo de músicas inéditas a formação de uma peça musical rara. São movimentos sutis de vozes e sons que se articulam de forma complementar para a canção seguinte, como se todo o recente catálogo do produtor fosse fruto de uma obra programada há mais de dois anos. Dessa forma, tanto a ascendente (e já conhecida) Lessons como a autointitulada canção de fechamento encerram um extenso ato, mas que ainda está longe de ser pontuado.

Como um conjunto de regras e pequenas estratégias a serem aprimoradas, Taylor fecha o álbum com um toque explícito de princípio. Cada faixa, arranjo denso ou pequenas exposição instrumental serve como um ensaio, formatação que em nenhum momento exclui a grandeza natural que preenche a obra. Feito um passo seguro, Tremors abre as portas para um projeto orquestrado pela melancolia, mas nunca cego por essas únicas experiências.

 

SOHN

Tremors (2014, 4AD)

Nota: 7.5
Para quem gosta de: How To Dress Well, Autre Ne Veut e Active Child
Ouça: Fool, Lessons e The Wheel

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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