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Disco: “Tudo Começou Aqui”, Ana Larousse

Ana Larousse
Indie/Folk/Female Vocalists
http://www.analarousse.com/

 

Por: Fernanda Blammer

Ana Larousse

Poucas coisas são tão desanimadoras na música nacional quanto o exercício falacioso de uma “cena folk” que parece arquitetada em cima de plágios. Uma imensa coleção de artistas que se manifestam como discípulos do que existe de mais redundante e já gasto na obra de Bob Dylan, ou quem sabe “revolucionários” que esbarram no country estadunidense como se ali existisse alguma novidade. Erros, pouca inovação e falta de identidade que a paranaense Ana Larousse consegue se esquivar com graça durante a construção de todo o primeiro registro solo.

Coerentemente intitulado Tudo começou aqui (2013, Independente), o trabalho de estreia da cantora nada mais é do que a exposição final daquilo que Larousse vem acumulando há tempos pela internet. Blocos comportados de sons intimistas, desilusões românticas e pequenas delicadezas que se acomodam em um conjunto leve de dez composições. Apegado de forma intencional ao passado – lírico e instrumental – da artista, o registro incorpora no uso brando dos sons uma abertura para um cenário que lentamente se entrega ao experimento.

Com produção doce e excêntrica assinada por Rodrigo Lemos (Lemoskine/A Banda Mais Bonita da Cidade), o disco traz na incorporação de melodias pouco convencionais um exercício de extrema atenção para ouvinte. Aparentemente entregue como um “mero” exemplar do folk tupiniquim, o registro vira a curva a todo o instante, aproveitando do uso inexato de tapeçarias instrumentais como um ponto de renovação durante a obra. É possível passear pelo disco como quem busca pelos mesmos realces delicados de Mallu Magalhães e outras cantoras do gênero, todavia, ao mesmo tempo a artista sustenta um exercício sutil e comportado, Larousse e o produtor arremessam o ouvinte em direções opostas, talvez inimagináveis para um trabalho do gênero.


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Aproveitando das angústias de jovens adultos que marcaram a boa fase do Belle and Sebastian na década de 1990, Ana traz na amargura particular um mecanismo de isolamento. É como se a cantora partilhasse do mesmo delineamento sombrio de Marissa Nadler e outras compositoras atuais, porém, trazendo em uma variedade maior de instrumentos um propósito alimentado pelo ineditismo. Somado ao entalhe acústico, o disco abriga um exercício pleno dos vocais, ato que vez ou outra aproxima a cantora vez ou outra da MPB convencional. Assim, Larousse é capaz de soar como uma versão menos tímida de Adriana Calcanhotto (em Teresinha) e Marisa Monte (em Café a dois), ao mesmo tempo em que expõe marcas próprias.

Adepta dos mais variados percursos instrumentais (efeito claro da presença ativa de Lemos), a cantora possibilita durante todo o disco a criação de faixas que se dividem entre a simplicidade e o apelo épico. Com base nessa estrutura, é possível encontrar desde ecos de Arcade Fire (em A paz do fim), até músicas tomadas por um lirismo pueril, vide a execução de A menina que apagou – música que bem poderia ser encontrada nos registros mais caseiros da pernambucana Lulina. Há também a presença fundamental do velho colaborador Leo Fresato, músico que tinge o disco com pequenos complementos líricos e vocais.

Embora traga no encarte que foi gravado entre os meses de maio e dezembro de 2012, Tudo começou aqui nada mais é do que uma imensa colcha de retalhos que se estende do Brasil até a França. Passagens do cotidiano da cantora em diferentes períodos de tempo e locais, mas que se acomodam atemporais no ambiente particular que dá forma ao disco. Poderia ser apenas mais um simples exemplar do folk nacional, ainda bem que Ana Larousse foi além.

 

Ana Larousse

Tudo começou aqui (2013, Independente)


Nota: 7.9
Para quem gosta de: Mallu Magalhães, Lemoskine e Leo Fresato
Ouça: Algo como essa canção e A Paz do Fim