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Disco: “Turn Blue”, The Black Keys

The Black Keys
Alternative/Rock/Indie
http://www.theblackkeys.com/

Por: Cleber Facchi

The Black Keys

A interferência de Danger Mouse quanto produtor e “terceiro membro” do The Black Keys desde Attack & Release, de 2008, trouxe mudanças significativas em relação aos alicerces da banda. Longe do argumento simples e naturalmente cru que havia guiado o Blues Rock de Dan Auerbach e Patrick Carney até o quinto disco, a presença do músico norte-americano serviu para ampliar os limites conceituais da dupla. Não por acaso Brothers (2010) e El Camino (2011), as obras mais coesas e comercialmente acessíveis da banda seguem a trilha melódica de Mouse, que derrama a medida exata de música negra sobre os acordes sóbrios assinados pelo duo.

Com a chegada de Turn Blue (2014, Nonesuch), oitavo álbum da banda de Akron, Ohio, a parceria volta a se repetir, entretanto, os rumos agora são completamente outros. Assumindo de vez o papel de produtor e não personagem influente no decorrer da obra, Mouse assiste à distância o desprendimento da dupla, que mesmo abastecida pelas antigas maquinações do produtor, agora trilha um novo cenário. Longe do caráter comercial de El Camino, mas sem resgatar o Garage Rock testado em começo de carreira, o presente disco é um mergulho na década de 1970, sustentando na ambientação leve da psicodelia um estímulo para a obra.

Parte dessa evidente transformação ecoa logo na inaugural Weight Of Love. Espécie de divisão entre os antigos registros e a presente fase da banda, a ascendente composição usa da colagem de essências como um estímulo. Encorpada, a canção administra guitarras voláteis, dedilhados acústicos, sintetizadores e batidas sem que haja um regresso aos primeiros anos da dupla. Não chega a ser um exercício complexo, entretanto, é evidente a separação, como se as formas simples dos primeiros álbuns fossem acrescidas de pequenas imposições sóbrias, músculos instrumentais aos nervos e ossos encarados há uma década no intenso Rubber Factory (2004).

Claro que a maior postura de Auerbach e Carney de forma alguma distancia Mouse do álbum. Melhor exemplo disso está na formação de Fever e 10 Lovers. Enquanto a primeira segue a trilha do registro passado, equilibrando o rock, vozes dançantes e sintetizadores em um exercício plástico, a canção seguinte revela a assinatura do produtor. Da linha de baixo funkeada ao sintetizador vivo, cada minuto da faixa cresce como uma possível base para os próprios registros de Mouse. Um meio termo entre o rock dos anos 1970 e o nascimento do Hip-Hop no fim da mesma década.

Turn Blue, como o título naturalmente anuncia, é um mergulho na espiral melancólica de Auerbach – que passou o último ano em assistido duelo com a ex-mulher, Stephanie Gonis. Entretanto, longe de parecer uma obra sufocada pela melancolia, o álbum usa das pequenas confissões como um mecanismo de crescimento. Ainda que a faixa inaugural sirva para identificar esse processo, à medida que o disco se desenvolve, os instantes de tristeza arrastam o espectador. Evidência escancarada em faixas como In Time e Bullet In The Brain, fragmentos do passado recente do cantor.

Como uma barreira para quem talvez tenha se encantado pela dupla graças aos hits Lonely Boy e Gold on the Ceiling, Turn Blue é uma obra que se esquiva (parcialmente) de diálogos com o grande público. Trata-se de um disco fechado, uma espécie de ambiente lírico e musical que dança dentro da mesma espiral de tendências, inviabilizando canções maiores e fechando o álbum como um produtor único. Entretanto, como uma linha que costura as faixas, as guitarras de Auerbach prendem também o ouvinte, arrastado para dentro desse redemoinho sombrio que surge na música de abertura e só autoriza a fuga no acorde final de Gotta Get Away.

 

Turn Blue

Turn Blue (2014, Nonesuch)

Nota: 7.3
Para quem gosta de: Jack White, Arctic Monkeys e The Raconteurs
Ouça: Gotta Get Away, Fever e Weight Of Love

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