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Disco: “Um Chopp e um Sundae”, Rafael Castro

Rafael Castro
Indie/Alternative/Nacional
http://rafaelcastro.com.br/


Os primeiros anos de Rafael Castro como músico profissional foram marcados pelos excessos. Não falo sobre exageros lisérgicos ou noites perfumadas pelo cheiro de sexo, mas pelo excesso de composições. Em apenas três anos, entre 2006 e 2009, o cantor e compositor paulistano entregou ao público um acervo de oito registros oficiais. Obras gravadas de forma amadora, dentro de estúdios caseiros e, na maioria dos casos, desprovidas de um mínimo cuidado estético ou refinamento lírico/instrumental. Um amadorismo convincente, porém, sufocado pela quantidade de canções costuradas por temas sempre aleatórios, demasiado instáveis, talvez desorganizados.

A surpresa veio com o lançamento de Lembra?, em 2012. Embora anárquico, amarrado pela mesma pluralidade de histórias particulares do músico – capaz de colidir temas como religiosidade, vida boêmia e romantismo em um mesmo cenário – o uso de uma máscara “brega-moderna” trouxe homogeneidade ao trabalho do cantor, agora maduro e linear. Dentro de um mesmo cercado temático, porém, longe de solucionar uma obra conceitual, o paulistano encontrou o ponto de equilíbrio para a própria esquizofrenia, condensando um catálogo de Hits que pareciam ter escapado do romantismo nacional nos anos 1970 atee alcançar o presente.

De forma nostálgica, em Um Chopp e um Sundae (2015, Independente), mais recente trabalho de Castro, o passado ainda funciona como a principal fonte inspiração do compositor, porém, agora dentro de uma nova década: os anos 1980. Além do confesso grupo de artistas românticos que há tempos inspiram o trabalho do artista – caso de Roberto Carlos e Odair José -, durante todo o registro, nomes como Ritchie (Preocupado), Blitz (Vou Parar de Beber) e Léo Jaime (Aquela) surgem com naturalidade entre as canções. Referências propositais (ou involuntárias) enquadradas com propriedade dentro do jogo cômico do paulistano – tão honesto, quanto sarcástico.

Em um explícito senso de transformação, musicalmente Um Chopp e um Sundae se comportas como o trabalho mais desafiador do artista. Nada de guitarras ruidosas, sujas, típicas do último registro. Mesmo as bases acústicas, como os violões “hippie” dos primeiros trabalhos do cantor foram “abandonados”. Da abertura com a pop Ciúme, até o encerramento em Vou Parar de Beber, são os sintetizadores, efeitos eletrônicos e toda uma carga de referências empoeiradas de 1980 que ditam as regras da obra. Uma espécie de “adaptação” das mesmas melodias e arranjos lançadas pelo Cidadão Instigado em faixas como a pegajosa (e hoje clássica) Contando Estrelas.

Não por acaso, dentro do texto de apresentação, Castro define a sonoridade explorada no disco como “Música Gata”. O conceito, nascido de um sonho, segundo o próprio músico, garante não apenas leveza ao registro, como um dos catálogos mais seguros e honestos do recente pop-rock nacional. Difícil não sucumbir aos encantos de faixas como Despreocupado, Gostosa e Um Trem Passou Por Aqui, canções que grudam fácil, na primeira audição. Em busca do “Rafael Castro das antigas”? Passe alguns segundos ao som da divertida Caetano Veloso – “Não vá ao show de Caetano / Venha ao nosso show

A julgar pelo visual andrógino de Castro – figurino e cenografia assinada por Thany Sanches -, não seria um erro interpretar a postura do colorido músico como o reflexo de um personagem, talvez um alter ego do próprio compositor. De fato, ao isolar versos, declarações e diferentes crônicas musicadas ao longo da obra, uma tragicômica história de amor aos poucos ganha vida. Relatos autoriais, sombrios e sorridentes partilhados por um indivíduo que parece nascer da colisão exagerada entre David Bowie e Serguei no meio da Rua Augusta. Pequenos excessos, hoje, a favor de Rafael Castro.

 

Um Chopp e um Sundae (2015, Independente)

Nota: 8.3
Para quem gosta de: Bárbara Eugênia, Léo Cavalcanti e Cidadão Instigado
Ouça: Preocupado, Ciúme e Um Trem Passou Por Aqui


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