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Disco: “Uptown Special”, Mark Ronson

Mark Ronson
Pop/Funk/Soul
http://www.markronson.co.uk/

Mark Ronson é uma criatura nostálgica. Da estreia com Here Comes the Fuzz, em 2003, ao trabalho em parceria com Lily Allen (Alright, Still), Amy Winehouse (Back To Black) e outros nomes de peso do pop britânico, cada trabalho assinado pelo produtor parece romper o presente cercado musical para visitar ou mesmo estabelecer morada em diferentes décadas e tendências empoeiradas. Com Uptown Special (2014, Columbia), quarto álbum de estúdio do artista, mais uma vez o ouvinte é convidado a visitar o passado, escapando do colorido neon e “clima 80’s” de Record Collection (2010) para mergulhar de cabeça nos anos 1970.

Inaugurado ainda no último ano pelas boas melodias de Uptown Funk – parceria entre o produtor britânico e o músico Bruno Mars -, Uptown Special talvez seja o primeiro registro (solo) de Ronson em que a coerência se mantém constante do primeiro ao último ato. Ainda que a faixa assinada ao lado do cantor estadunidense seja encarada como o principal componente de toda a obra, individualmente, cada música do registro parece desenvolvida de forma atenta, como um bem servido cardápio de hits em potencial.

Com Stevie Wonder nas faixas de abertura e encerramento do trabalho, não é difícil perceber de onde vem a principal fonte de inspiração para o produtor. De fato, grande parte do registro parece apoiado em clássicos como Talking Book (1972) e Innervisions (1973), além de todo o acervo de obras apresentadas sob a proteção da Motown no começo da década de 1970. Ainda apoiado em arranjos voláteis e versos acessíveis, típicos do pop dos anos 2000, lentamente Ronson estabelece uma espécie de ponte entre os dois períodos, reforçando o mesmo material seguro apresentado no disco de 2010.

Longe de se acomodar em um artista ou fase específica, Ronson passeia por Uptown Special flertando com diferentes cenas e temáticas da música negra. Precisa de exemplos? Ora, que tal a explícita homenagem ao veterano James Brown em Feel Right? E o que dizer de peças como I Can’t Loose, uma composição tão íntima de coletivos femininos do final da década de 1960 como de toda a vitrine de divas do Soul-Pop britânico na última década? Como na imagem ilustrativa de Record Collection, Ronson mais uma vez brinca com a sobreposição de estilos musicais.

Embora centrado em variações do Funk/Soul explorado há mais de quatro décadas, curioso perceber no expressivo diálogo com o Rock Psicodélico (do mesmo período) o ponto de maior acerto da obra. Colaborador em três faixas do disco – Summer Breaking, Leaving Los Feliz e a excelente Daffodils -, Kevin Parker não apenas garante o “desequilíbrio” necessário para o registro, bagunçando o som demasiado homogêneo de Ronson, como ainda expande conceitos previamente testados pelo próprio Tame Impala, vide a adaptação de Stranger In Moscow do cantor Michael Jackson no último ano.

Detalhista e ainda acessível, como qualquer trabalho solo ou obra produzida por Mark Ronson, Uptown Special revela não apenas a maturidade do produtor britânico, mas uma dose extra de ambientação e frescor. Diferente do último álbum, quando parecia “emular” a década de 1980, com o presente disco Ronson encontra uma passagem direta para 1970, brincando com referências tão íntimas de Stevie Wonder e The Jacksons Five, como ritmos e experiências autorais.

 

Uptown Special (2014, Columbia)

Nota: 7.5
Para quem gosta de: Jungle, Tame Impala e Janelle Monáe
Ouça: Uptown Funk, Daffodils e I Can’t Lose