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Disco: “Ventre”, Ventre

Ventre
Indie/Alternative/Rock
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Desde Idioma Morto (2006), derradeira obra da banda paulistana Ludovic, que um disco brasileiro não me parecia tão urgente, raivoso e essencialmente honesto quanto a estreia do grupo carioca Ventre. Nascido do encontro entre os músicos Gabriel Ventura (Lenine, Cícero, ex-Tipo Uísque), Larissa Conforto (ex-Tipo Uísque) e Hugo Noguchi (Posada e o Clã, Salvador), o trabalho de 11 composições densas faz de cada ato instrumental uma explosão movida por temas como sexo, separação e isolamento.

Produzido ao longo de dois anos, com gravações registradas em diferentes estúdios, a homônima obra do trio carioca é um caso raro dentro da presente fase do rock nacional. Longe da crueza habitual de outras obras do gênero – montadas em cima da satisfação do amadorismo -, cada uma das canções se espalha em um mundo de detalhes, sobreposições de vozes e encaixes que mantém a atenção do ouvinte em alta até a chegada de Aperto e Um Beijo, faixa de encerramento do disco. Um labirinto de sensações melancólicas que se espalha de forma tumultuada, dialogando com a lírica dolorosa e particular de Ventura.

White Pony (2000) do Deftones encontra com The Bends (1995) do Radiohead; guitarras replicam conceitos lançados por veteranos como Queens Of The Stone Age, The Jimi Hendrix Experience e The Who; vozes abraçam o mesmo desespero que marca a obra de Jeff Buckley, Fiona Apple e Kurt Cobain. No cardápio de referências incorporadas pela banda, sentimentos e instrumentos se chocam com naturalidade. Uma alavanca para o rico catálogo de versos que tingem com melancolia (e desespero) cada fragmento do registro.

Ainda que a conhecida Carnaval – “Arrumei um problema de tempo que a vida trouxe / E a pressa de todas as coisas na minha cabeça” – pareça sintetizar todo o universo de pequenos conflitos que regem a obra, isoladas, as canções se articulam, crescem e sobrevivem por conta própria. Há espaço para personagens metafóricos, caso da inaugural Bailarina (“Deixa a bailarina dançar / Que o sonho é dela e não seu”); relacionamentos fracassados em Mulher (“E quando eu passar por aquela porta, não se esquece de mim”) e todo um conjunto de temas sempre intimistas, próximos do ouvinte. Nada que se compare aos versos costurados na dobradinha Quente e Pernas.

Em uma representação quase explícita do ato sexual – “É que gosto quando tudo fica quente / Gosto de quando me falta o ar”; “E o cheiro na cama, a marca das unhas em mim / Os gemidos escondidos” -, Ventura dissolve ao longo das duas faixas uma sequência de frases que ultrapassam o romantismo banal de qualquer relacionamento, atiçando e seduzindo o ouvinte com naturalidade. A própria solução de guitarras e batidas que cercam as duas canções mantém certo distanciamento em relação ao restante da obra, como um instante rápido de pura euforia.

Montada de forma provocativa, por vezes violenta, a estreia do Ventre mantém firme o isolamento em relação ao trabalho de outros grupos e representantes da cena carioca. Dez anos após o último registro de inéditas do Los Hermanos, 4 (2005), obra que ainda ecoa no trabalho de diferentes artistas locais, pouco da herança deixada por Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante sobrevive nas canções detalhadas pelo trio. Do uso assertivo das referências ao detalhamento agressivo dos instrumentos, lentamente um novo cenário urbano, sensível e caótico se forma nos gritos de desespero que definem o presente álbum.

 

Ventre (2015, Independente)

Nota: 8.8
Para quem gosta de: Lupe de Lupe, Jair Naves e Cícero
Ouça: Quente, Carnaval e Pernas

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