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Disco: “Vozes”, Cadu Tenório

Cadu Tenório
Experimental/Ambient/Electronic
http://victimnoise.bandcamp.com/
http://sinewave.com.br/

Por: Cleber Facchi

Desde o lançamento de Pulso, faixa mais “volátil” encontrada no álbum de 2012 do Sobre A Máquina, que a vontade de Cadu Tenório em diluir novas tendências “eletrônicas” parecia reforçada pelo músico. Não por acaso em Lua (2013), obra lançada pelo Ceticências logo no ano seguinte, Tenório e o parceiro Sávio de Queiroz aproveitaram do espaço para ampliar ainda mais esse aspecto “sintético” das canções – expressivo em cada faixa do álbum. É justamente dentro dessa atmosfera que nasce o recém-lançado Vozes (2014, Sinewave), mais novo invento solo do produtor carioca e base para a trama sutil lentamente exposta nos quatro atos do registro.

Mesmo acomodado em uma trama de experimentos eletrônicos, Vozes, como o próprio logo entrega, é um trabalho marcado pela expressiva colagem e manipulação de vocais. Seja na abertura, com a extensa Fragmentos, aos ruídos finais de Lamento e Bebê, Tenório aos poucos se esquiva do uso característico de bases experimentais – típicas do Drone / Dark Ambient – para investir em um contexto muito mais “humano”, sempre “orgânico” – premissa para o cenário de contraste que conduz a obra.

A diferença em relação ao exercício já proposto em músicas como Prematuro, do álbum Cassettes (2014), está no completo destaque aos retalhos de voz. Do loop etéreo na faixa de abertura, passando pelos gritos sussurrados de Procissão ao uso de palavras como “violência” e “bebê”, os vocais lentamente assumem o controle da “trama” imposta ao disco. Mais do que uma ferramenta de movimento – como no trabalho anterior -, Tenório encontra na voz um ponto de distanciamento do “personagem” sombrio antes ressaltado em projetos como Sobre a Máquina e VICTIM!. Trata-se da obra mais sutil e, naturalmente, acessível já lançada pelo músico.

Ao mesmo tempo em que reforça um conjunto de (novos) traços autorais, Vozes é um trabalho em que as influências de Tenório ecoam de forma expressiva. Entre pequenas reciclagens de conceitos, o músico vai além do hermetismo sombrio de The Haxan Cloak e Tim Hecker, mergulhando de cabeça no território de Richard David James e todo o abrangente catálogo lançado pelo Aphex Twin. De fato, bastam os primeiros minutos de Fragmentos para notar a ponte que leva o ouvinte até Cliff e todo o material entregue há duas décadas em Selected Ambient Works Volume II (1994), inspiração evidente em cada faixa do novo disco.

Longe de parecer uma muleta, a frequente relação de Tenório com o trabalho de Richard D. James e outros nomes da Ambient Music serve apenas como ponto de partida para o restante da obra. Exemplo autêntico desse resultado sobrevive no interior de Procissão, faixa tão íntima da “nova fase” do produtor, como de todos os inventos sujos / atmosféricos testados anteriormente por Tenório – principalmente com o Sobre a Máquina. Mesmo a capa do trabalho – autoria de Lucas Pires – reflete conceitos particulares do artista carioca, substituindo a base melancólica do antecessor 1987/1990, para tropeçar em aspectos nostálgicos ressaltados na infância do músico.

Mais do que um conjunto nonsense de imagens, curioso perceber na minimalista capa de Vozes um resumo para o território ampliado pelo músico. Das referências visuais (anime, internet) ao uso do Google Tradutor como “instrumento” em determinadas faixas, cada fragmento aleatório resume a completa interação de Tenório com um cenário tão próximo quanto distante de seus primeiros inventos. Uma versão completamente particular dos arranjos, tendências e até mesmo cores que definem as diferentes faces da Cultura Pop, o autoral objeto temático que Tenório retalha em cada faixa do disco.

Vozes (2014, Sinewave)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Aphex Twin, Oneohtrix Point Never e Ceticências
Ouça: Fragmentos e Procissão