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Disco: “We Are King”, KING

KING
R&B/Soul/Psychedelic
http://www.weareking.com/

 

Sintetizadores e batidas tímidas criam um delicado plano de fundo. O coro de vozes cresce lentamente, espalhando suspiros e vocais sobrepostos. Sentimentos se convertem em versos apaixonados e solitários de forma sempre contida, por vezes embriagada. Dentro desse ambiente de notável equilíbrio e precisa movimentação nasce o primeiro álbum de estúdio do KING, We Are King (2016, King Creative), trabalho orquestrado com acerto por Anita Bias e as irmãs Paris e Amber Strother, de Los Angeles, Califórnia.

Fruto de diferentes obras e conceitos que abasteceram o Soul/R&B dos anos 1970 e 1980, o álbum de sentimentos confessos pode até apontar para o passado, entretanto, mantém os dois pés bem firmes no presente. Extensão detalhada do material entregue há cinco anos em The Story EP (2011), o registro de 12 faixas – parte delas recicladas de outros trabalhos -, flutua em um universo de emanações cósmicas que vão da música negra ao Rock psicodélico dos anos 1960, transportando o trio californiano para um cenário de parcial ineditismo. Entre os artistas que influenciam o trabalho do grupo, nomes curiosos como Cocteau Twins, XTC e Ryuichi Sakamoto, além, claro, de gigantes da música negra, caso de Quincy Jones, Herbie Hancock e Prince.

Basta uma rápida passagem pela nova versão de Supernatural, quarta faixa do disco, para perceber a pluralidade de referências que alimentam o som do grupo. Originalmente lançada em 2011, a canção de versos apaixonados surge com uma nova roupagem, dançando com leveza por mais de seis minutos. São vozes brandas, palmas e o precioso uso de sintetizadores. Um curioso diálogo entre as melodias de Erykah Badu no clássico Baduizm (1997) e os mesmos delírios psicodélicos de nomes como Deerhunter e Ariel Pink – este último, presente em grande parte das playlists assinadas pelo trio no Spotify.

Minnie Riperton encontra Tame Impala na inaugural The Right, Washed Out e Prince dançam juntos na entusiasmada Oh, Please!, o jazz abraça a eletrônica em Love Song, composição que parece nascer do encontro entre Stereolab e Thundercat. São quase 60 minutos em que a educação musical de Paris Strother – produtora do disco e responsável pela gravação de grande parte dos instrumentos -, se projeta de forma cuidadosa, resultando em um trabalho que rompe com grande parte da atual cena norte-americana. Nada de batidas dançantes, fragmentos óbvios da EDM e versos pegajosos. A beleza de We Are King se concentra na lenta composição dos detalhes.

A bateria eletrônica de In The Meantime – uma típica canção de Janet Jackson na década de 1980; guitarras sedutoras ao fundo de Oh, Please!; a limpidez dos vocais que se multiplicam em Mister Chameleon. Feito para ser apreciado sem pressa, longe do imediatismo de outros registro do gênero, We Are King oculta ao fundo de cada composição um universo imenso de detalhes e versos intimistas. Um preciosismo que encanta, mas que acaba isolando o trio em um ambiente particular, arrastado durante a execução do segundo ato do disco. 

Com uma faixa anteriormente sampleada por Kendrick Lamar – Hey, base de Chapter Six no álbum Section.80 (2011) -, o convite para abrir uma apresentação de Prince em Los Angeles e comentários elogiosos vindos de veteranos como Erykah Badu e Questlove (The Roots), o trio californiano faz de We Are King um mero reforço para um projeto que já nasceu completo. Um declarado registro de estreia, mas que transborda maturidade.

 

We Are King (2016, King Creative)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: THEESatisfaction, Erykah Badu e Thundercat
Ouça: The Greatest, Hey e Oh, Please!