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Disco: “We’re New Here”, Gil Scott-Heron e Jamie XX

Gil Scott-Heron & Jamie XX
Remix/Dubstep/Electronic
http://www.myspace.com/jamiexxlondon

Por: Cleber Facchi

Pode um álbum como I’m New Here (2010), o clássico moderno de Gil Scott-Heron ser superado, ainda mais por uma versão alternativa composta apenas de remixes? Se isso era um feito até então inalcançável o jovem Jamie XX rompe todos os limites e mostra como isso pode ser possível, ou pelo menos como chegar perto disso. We’re New Here (2011) traz as mesmas treze canções e poemas entregues no último trabalho Scott-Heron, agora embaladas dentro de uma linguagem própria e renovada. A obscuridade do disco é a mesma, porém agora trabalhada em toques discretos de música eletrônica e programações sintéticas.

Que uma coisa fique bem clara: Não há como criar comparações sobre nenhum dos álbuns, afinal, cada um segue em um caminho e flui dentro de uma linguagem muito distinta.  Contudo é preciso concordar que a sapiência de Jamie Smith – que é também um dos integrantes do grupo inglês The XX – em dar continuidade a sonoridade minimalista proposta por Scott-Heron foi mais do que coerente. Se valendo da levada dubstep e de batidas comportadas o rapaz conseguiu transformar o resultado final em um material único e próprio.

Os poemas do norte-americano chegam envoltos por meio de camadas cirurgicamente encaixadas de reverberações, através das mãos cuidadosas do jovem produtor. Overdubs maciços, colagens e mais colagens de sons, batidas milimetricamente construídas vão aos poucos criando um álbum que não é mais de Scott-Heron, mas sim do próprio Jamie. O músico de outrora se converte em uma ferramenta nas mãos hábeis do inglês. Mas é preciso que se entenda uma coisa: se ele é uma “ferramenta” é pelo menos dotado de alma.

I’m New Here (a faixa, não o álbum) abre de maneira praticamente idêntica ao disco de 2010. A voz cuidadosamente talhada pelo tempo, álcool e substâncias ilícitas de Scott-Heron entra entoando versos com toda sua seriedade acalentadora. A diferença agora é que as bases e o fluxo das faixas é outro. Logo entrem as sobreposições de sons, batidas em looping, colagens de vozes, alguns teclados coerentemente instalados e pronto, estamos dentro de We’re New Here.


Com Home o rapaz traga influências do dub no melhor modelo jamaicano. A faixa se traduz em algo quase palpável, se retorce, se fragmenta, volta a se agrupar enquanto segue o tempo todo acompanhada por inserções moderadas de teclados e programações eletrônicas minimalistas. A voz de Scott-Heron em nenhum momento se afasta, está ali como se monitorasse cuidadosamente o trabalho do produtor. Se com o álbum Heron se perde nas graças da música soul, com esse trabalho de remixes é o hip-hop que dá o ar de sua graça. O britânico vai jogando as vozes como se elas estivessem versando, feito que se intensifica por conta das batidas reforçadas ao fundo.

Mesmo na curtíssima Certain Things Interlude com seus singelos 17 segundos, XX não perde a oportunidade de fazer suas alterações e inclusões cuidadosas. Em Running é o ritmo mais acelerado e voltado para o grime que transparece já I’ll Take Care Of You surge como a faixa mais distinta do disco, menos ponderada que as demais canções e também tendo como foco um ritmo menos preso ao dubstep.

Primeira faixa que saiu desse novo projeto ainda no final de 2010, New York Is Killing Me é a canção em que Jamie XX alcança seu ápice. A forma como reconstrói a faixa deixa ainda transparecendo a mesma agonia expressa por Scott-Heron em seu álbum. As programações eletrônicas surgem mais abertas, a composição segue em ritmo mais enérgico e os samplers que acompanham cada segundo da faixa embelezam ainda mais o arranjo.

Na resenha do álbum I’m New Here o texto abria com a seguinte dúvida: “Como reintroduzir um artista ao meio musical passados quase vinte anos desde seu último lançamento? De que maneira apresentar a um público totalmente novo um músico que tem seus maiores (se não únicos) sucessos criados apenas na década de 1970?”. A resposta que já estava dada no lançamento anterior de Scott-Heron apenas se confirma com essa parceria. O poeta voltou e talvez o metafórico pacto com o demônio na regravação Me and The Devil não seja algo tão simbólico assim.

We’re New Here (2011)

Nota: 8.3
Para quem gosta de: Gil Scott-Heron, The XX e James Blake
Ouça: New York Is Killing Me


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