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Disco: “Yuck”, Yuck

Yuck
Lo-Fi/Indie Rock/Alternative
http://www.myspace.com/yuckband

“Yuck” é um termo inglês que funciona para designar coisas nojentas, asquerosas e grosseiras (experimente buscar pelo termo no Google Imagens), algo quase parecido com o nosso… “eca!”. Yuck também o nome de uma banda londrina que faz um rock tão pesado e sujo que nem parece ser um produto da fina terra da Rainha. Formada por gente de Hiroshima, New Jersey e da Escócia o grupo tem se mostrado um dos projetos mais interessantes do momento. O som imundo do auto-intitulado álbum de estreia é um trabalho que esbanja jovialidade e guitarras com aquele jeitão de banda indie da década de 1990.

Danny Blumberg e Max Bloom, os fundadores da banda devem ter passado horas a fio se aventurando pela discografia do Dinosaur Jr, Yo La Tengo, Pavement, Sonic Youth, Sugar, Hüsker Dü e mais uma lista interminável de bandas donas de um som em geral tão sujo ou gravado em uma qualidade tão módica, que fariam um público habituado em composições polidas e plastificadas sentirem certo “desconforto”. O som da banda – que fica completa com Jonny Rogoff (bateria), Mariko Dói (baixo) e Ilana Blumberd (guitarra), irmã de Danny – é como um concentrado de tudo que tocou nos anos 90, uma espécie de resumão contemporâneo.

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Abre com Get Away o tipo de canção que poderia facilmente ser encontrada dentro de Slanted And Enchanted (1992), o disco de estreia do Pavement, assim como os toques de raiva e gritarias esporádicas o incluiriam dentro de You’re Living All Over Me (1987) do Dinosaur Jr. Há também, mesmo que de maneira reclusa, quase imperceptível uma aura quase pop, algo visível pelas leves explosões melódicas que acompanham o álbum. Já The Wall te arremessa para dentro do álbum Goo (1990) ou seria o Dirty (1992), ambos do Sonic Youth.

Nessas horas você passa a se perguntar o quão válido é um trabalho como esse. Nada ali é novo, cada uma das canções parecem cópias exatas do que era feito há mais de duas décadas, mas estranhamente nenhuma dessas mesmas canções soam de maneira pretensiosa ou faz do som ali explorado como seu. O Yuck talvez seja a prova da futilidade e da ausência de inovação do rock dos anos 2000, que precisa se prender a fórmulas do passado para encontrar a redenção em um trabalho como esse. Porém, problemas e debates culturológicos à parte, essa estreia do grupo britânico é excepcional.

Mesmo na baladinha abafada Suicide Policeman o quinteto consegue gestar um som com a mesma intensidade e climatização lo-fi do restante do trabalho. Mas é quando senta a mão na guitarra e abre espaço para que os vocais femininos possam brilhar que o quinteto entrega o ouro, as esmeraldas, os diamantes e o que mais puderem dar. Georgia funciona como o lado mais “shoegaze” da banda. As espessas camadas de guitarras, distorções e os vocais submersos do vocalista (que agora conta também com o coro feminino), mergulham para mais além e vão buscar inspiração na discografia do The Jesus and Mary Chain, há até quem possa ver uma semelhança com o The Pains Of Being Pure At Heart.

Até quando chegam com um violãozinho e cheios de slide guitar em Suck, quase plagiando High and Dry do Radiohead, Blumberg e sua turma não perdem a pose. A banda se posiciona o tempo todo de maneira firme e sabe exatamente o rumo que está seguindo.

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Talvez o que mais encante ao ouvir essa estreia seja o fato de que em nenhum momento o Yuck parece como uma banda de british rock. Você ouve White Lies, Arctic Monkeys, The Horrors, Maccabees ou qualquer banda do gênero e inevitavelmente você percebe alguma coisa que permeia as composições das bandas do velho continente. É quase visível o quinteto em cima de um palco precário em um bar norte-americano na beira de estrada, e não em um Pub de Londres. Não que bandas britânicas sejam ruins, o fato é que esse trabalho é diferente. Se parece muito mais com algo vindo de Los Angeles ou do Brooklyn do que com alguma coisa vinda dos subúrbios britânicos.

Copiado ou não, uma coisa é certa: o debute do Yuck é um trabalho simplesmente viciante, desses de esquecer o modo looping ligado por dias inteiros. Não apenas os fissurados em guitarras sujas, rifes ensurdecedores e vocais gritados podem se interessar por essa pequena pérola sonora, a banda prepara sons fáceis para os ainda não iniciados nesse tipo de arte ao mesmo tempo que nos presenteia com doses nada modestas de distorções e barulhos desalmados que fazem nosso interesse crescer a cada nova audição.

Yuck (2011)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Cloud Nothings, Smith Westerns e The Vaccines
Ouça: The Wall

Por: Cleber Facchi

Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.