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Disco: “Z”, SZA

SZA
R&B/Alternative/Female Vocalists
https://www.facebook.com/justsza

Por: Cleber Facchi

Solana Rowe é um típico exemplar da recente safra de cantores do R&B estadunidense. Apaixonada pelas emanações densas que esculpiram o gênero na década de 1990, a artista dança pelo passado sem necessariamente abandonar aspectos específicos da produção recente – referência que escapa das fórmulas musicais e se aproxima de um conceito cultural abrangente, dissolvido em traços líricos, visuais e temáticos. Em Z (2013, Top Dawg Entertainment), estreia oficial da cantora, todas as experiências tratadas ao longo de décadas são aglutinadas em um só ponto, um meio termo entre as imposições empoeiradas da estética hipster e a tentativa em sustentar um ambiente próprio.

Letárgico, o disco segue o caminho enevoado dos últimos EPs da artista, See.SZA.Run (2012) e S (2013), trabalhos que são pontualmente continuados em se tratando das climatizações do disco. Cada batida, voz ou pequeno azulejo instrumental da obra parece encaixado de forma precisa, como se Rowe buscasse estabelecer conforto ao ouvinte. Dos versos românticos ao manuseio das bases eletrônicas, cada segundo do registro alcança uma capa conceitual específica, como se uma linha fosse proposta e nada fosse tratado além desse “limite”.

A segurança/limite dado ao trabalho potencializa a voz e a presença de SZA, que diferente dos outros registros deixa de ser uma “matéria-prima”  nas mãos dos produtores, para nascer como uma “cantora de verdade”, autêntica. Da melancolia explícita em UR, música de abertura, aos arranjos derradeiros de Omega, essencial canção de encerramento, cada música evoca um aspecto de grandeza, o insuficiente para transformar Rowe uma “nova” Beyoncé, mas o suficiente para que o ouvinte desenvolva um forte interesse pelo trabalho.

Imensa colcha de retalhos costurados por uma mesma experiência lírica/musical, Z encontra na interferência de cada colaborador um autêntico mecanismo de atrito criativo pra a obra. Por mais que as vozes de Chance The Rapper (Childs Play), Isaiah Rashad (Warm Winds) e Kendrick Lamar (Babylon) reverberem de forma explícita, são as bases lançadas pelas composições que escondem o verdadeiro tesouro do álbum. De Chaz Bundick (Toro Y Moi) em HiiiJack, ao velho colaborador Felix Snow em Julia, cada convidado funciona de maneira a testar as vozes e experiências de SZA – autêntica e concisa dentro de cada criação.

Ainda que limites estéticos sejam tratados desde a abertura do disco, a busca da artista por diferentes produtores converte Z em um trabalho de continua renovacão. Enquanto Sweet November, com seus samples de Marvin Gaye e arranjos nostálgicos, cresce como uma adorável interpretação dos sons que marcaram a década de 1970, principalmente dentro do vasto acervo da Motown, Childs Play, com suas batidas caseiras reflete parte da música atual. Há também músicas como Shattered Ring, faixa que mergulha no misticismo do Dream Pop, e até Julia, uma interessante interpretação do R&B da década de 1980 – ou seria uma extensão da recente obra de Blood Orange?

Natural sequência ao que conduz a presente fase da música negra, Z é uma quebra em relação aos toques comerciais que abasteceram o gênero no último ano. Em um entendimento oposto ao que Solange, Janelle Monéae e outros nomes de peso expõem com segurança, a estreia de SZA parece empurrar para junto da massa de ouvintes a mesma tonalidade obscura que Tinashe, Jhene Aiko e outros nomes menos “vendáveis” assumem com real beleza e efetiva criatividade. Z é uma espécie de recanto, um ambiente pontuado pela calmaria, mas que ainda assim esconde boas e provocantes surpresas.

SZA

Z (2013, Top Dawg Entertainment)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Tinashe, Jhené Aiko e Jessy Lanza
Ouça: Childs Play, Julia e Sweet November