Entrevista: Cícero Lins

Por: Cleber Facchi

Foram necessários menos de 30 dias para que o carioca Cícero Lins (ex-integrante da extinta banda Alice) recebesse destaque através das principais publicações musicais do país, além de ser apontado como uma das maiores, se não a maior revelação musical de 2011. Através de seu primeiro álbum em carreira solo, o elogiado Canções de Apartamento (2011, Independente), o músico se aventura em um mundo de composições melancólicas e intimistas, quase todas carregadas por uma tonalidade acústica e sonorizações simplistas, faixas que falam de amor, saudade e solidão. Mais de um mês depois de sua estreia ser apresentada ao mundo, o cantor e compositor nos concedeu esta pequena entrevista, falando sobre a recepção do público e alguns aspectos relacionados com a construção do trabalho.

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Até poucos dias atrás você era uma figura conhecida apenas de um público muito específico, mas pelo que tenho acompanhado pela repercussão do seu trabalho muita gente até bem distante do cenário alternativo tem ouvido e admirado seu álbum de estreia. Conheço até alguns fãs de sertanejo que entre audições de Luan Santana e Paula Fernandes ouvem e gostam muito do seu disco. Como tem sido esse feedback do público, ele foi maior do que o esperado, isso te assusta de alguma forma?

A resposta tem sido muito maior do que eu esperava. Mesmo. O disco só tem um mês na internet e eu nem divulguei tanto. Esperava que as coisas fossem andar bem mais devagar. Mas não me assusta, fico feliz. O disco está andando com as próprias pernas. A identificação com ele vem sendo sincera.

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Assim que o Canções de Apartamento saiu, com ele vieram algumas informações sobre seus projetos anteriores, como o fato de que você estar a frente de outros dois discos, ambos lançados através da extinta banda Alice. Muita gente que não conhecia o grupo, principalmente indivíduos distantes da cena carioca correram em busca desses trabalhos, tentando encontrar neles um pouco do que você desenvolve em carreira solo. O quanto da Alice ainda ecoa dentro dessa sua nova fase?Te irrita esse “reconhecimento tardio” em relação a sua antiga banda?

A Alice foi onde aprendi a mostrar minha música. Onde criei coragem. Onde comecei a entender o caminho entre a ideia e o resultado. Foi onde comecei a entender essa coisa de fazer música. Não me irrita, tenho um carinho enorme pela a Alice e toda a história dela, todo carinho que tiverem pela banda é bem vindo.

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O que mudou de fato desde que o disco foi lançado? Como é ter um trabalho visto de maneira quase unânime em boa parte das publicações musicais, esse tipo de recepção te envaidece?

Ainda é tudo muito recente, não sei bem ainda. O que já sinto é muito carinho das pessoas pelo disco. Isso se reflete nas matérias, comentários… não me sinto envaidecido, me sinto acarinhado. Como um abraço mesmo. Me sinto mais confortável para continuar fazendo música.

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Lembra Caetano Veloso”, “Indie”, “Lo-Fi”, “Chico Buarque”, “Intimista, verdadeiro, reflexivo”, “Paulinho Moska”, “Marcelo Camelo” e “a sensibilidade triste de Rodrigo Amarante” são algumas das muitas definições empregadas em alguns textos que tem circulado pela rede para representar seu trabalho ou proporcionar algum tipo de proximidade aos ouvintes que ainda desconheçam sua música. Para você, o autor, em que se concentram as bases e as influências que delimitam todo o universo de Canções de Apartamento?

Pô, na minha vida mesmo. Ouço muita música desde sempre. De Tom Jobim aos Pixies. Já me perdi nas influências de um ponto de vista mais objetivo. É tudo aquilo que tá citado no disco, Caetano, Radiohead, Beatles, e muita coisa que ouvi, li, vi.

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Quanto tempo as letras do álbum levaram para serem finalizadas, afinal, a sensação apresentada ao longo do disco é de uma profunda proximidade entre as composições. É como se todas as faixas fossem amarradas em um mesmo período, embora seja impossível dizer o tempo exato que isso levou para ser construído.

Na verdade, essas foram feitas de 2009 pra cá. Tenho muita música pronta, mas para esse disco senti que as músicas desse período eram mais palpáveis no momento.

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Canções de Apartamento é detentor de composições que mesmo trabalhadas em uma linguagem universal e compatível com os sentimentos dos ouvintes reforça não a figura de um suposto eu lírico, mas o próprio Cícero Lins. É você quem está ali. A música e essa exposição repassada através dos seus versos funciona como algum tipo de terapia para você, uma válvula de escape do que há de doloroso na sua vida?

Com certeza. Mas não só de doloroso, de tudo. Compor é uma válvula de escape 100%.

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Por conta do teor melancólico e até romântico do trabalho algum ouvinte já lhe disse “é exatamente isso que eu estava sentindo” ou “isso que você fala na sua música aconteceu comigo”? Como é sua reação mediante esse tipo de recepção do público?

Sim, sim. As pessoas têm vindo bastante falar da identificação com as letras. Isso é muito legal. Quanto mais você se aproxima de você, mais se aproxima do próximo. Minha reação é ver. Ver que todo mundo ainda sabe sentir, a gente só não tem exercitado muito isso.

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A sonoridade que define boa parte do trabalho parece concentrada em cima de uma formatação quase acústica e reducionista, isso veio de uma escolha sua ou foi um processo que naturalmente foi se desenvolvendo durante a construção do disco?

É, foi natural. Queria soar por fora como eu estava soando por dentro. Bonito ou não… acabou ficando assim.

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Na capa do disco existem alguns easter eggs espalhados, como a capa do álbum Revolver dos Beatles, o Yellow Subarine, uma foto pequena do Thom Yorke (?), outra da Audrey Tautou, uma imagem do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o que mais é possível encontrar por lá?

Meus livros, o clarinete do meu tio… ah, um vinil duplo do Drummond recitando os próprios poemas! Comprei por R$3,00 numa esquina e tá perfeito!

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Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

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