Entrevista: Marcela Vale (Mahmundi)

Por: Cleber Facchi

“Esse é o calor do amor”. Com essa frase imersa em sintetizadores nostálgicos e batidas ponderadas a carioca Marcela Vale (25) abre as portas do doce Efeito Das Cores, primeiro álbum à frente do projeto Mahmundi e uma das grandes estreias nacionais do ano. Reverberando influências vindas da música pop da década de 1980, a cantora e alguns amigos dão conta de uma adorável soma de composições, faixas descomplicadas, grudentas e marcadas por uma honestidade rara. Mesmo com um pé bem firme no passado, o disco incorpora sem preconceitos uma soma mais do que suficiente de referências contemporâneas, ora pendendo para o suingue suave do Toro Y Moi, ora se aproximando da mesma sutileza que banha os trabalhos do colega Silva. Para conhecer um pouco mais sobre o trabalho e o universo que sustenta as composições do Mahmundi, conversamos com a líder do projeto, que comentou sobre as influências, infância, os amigos e, claro, da onde veio a ideia de montar o primeiro EP.

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Antes do lançamento do EP Efeito das Cores onde estava Marcela Vale?

Eu estava no Circo Voador, revezando os dias de folga na casa de Lucas de Paiva (músico e produtor que participou das gravações do disco) pra ouvir música e enchendo o Ipod de semana em semana. Estava cada vez mais desesperada pra fazer meu EP, mas não sabia como conciliar isso. Compus algumas músicas pra amigos, e não aguentava mais aquele papo de “Tu só ouve música brega, essas musiquinhas ridículas, você ouve coisa de maluco”. Decidir sonhar com quem sonhava comigo, e pra isso tinha que atravessar a cidade e ir ver o mar com Lucas e Felipe Velloso. Foi nesse momento que decidimos que era a hora de Mahmundi existir. E começamos na segunda semana de Janeiro, numa segunda-feira. Ali começava Calor do Amor com “Fá-Fá/ Sol/ Fá”, e eu só tinha uma coisa naquele momento: um refrão que dizia: “E aí/ esse é o calor do Amor

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Como foi o processo de gravação do álbum?

Foi complicado pelo tempo, mas bacana. Tivemos só dois meses e não queria demorar tanto. Não queria perder o foco. Então eu e Lucas passávamos o dia na frente do Mac, com os ouvidos atentos a todos os timbres, ganchos e muita coisa. No fim a gente saia na rua pra ver o dia, mas o papo era sempre o mesmo: “o que você está achando daquele teclado? E aquela bateria, como vamos resolver?”, e era assim sempre. Eu ganhei um sintetizador velho com as teclas quebradas e peguei um Casiotone que meu pai trouxe do Japão pro casamento dele com mamãe, ela me olhou e disse: “Você toma cuidado com isso hein?”. Foi preciso para os arranjos de Quase Sempre. Passei ele por um pedal, um delay e lá estava, brilhando como novo depois de quase 30 anos guardado.

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Além de guitarra, teclado e bateria você domina uma série de outros instrumentos. Essa conexão com a música veio de casa ou você foi atrás disso?

Engraçado lembrar disso, mas eu tenho visivelmente a imagem de pegar um violão que um rapaz da igreja deixou lá em casa e arranhar as primeiras notas. Tinha uma música com aquele desenho de bolinhas e eu me arrisquei – Era uma música chamada Lindo Lar -, e ele e minha irmã estavam ensaiando para tocar com crianças, no coral. Aquele foi meu primeiro contato com tudo, mas eu sempre estava ouvindo coisas, ia para a igreja, pedia pra zeladora pra tocar bateria. Ficava lá tentando, tentando, mexendo nas coisas e querendo saber o que poderia sair dalí.

Lá em casa almoçávamos ouvindo música. Meu pai sempre achou que ninguém podia dormir até tarde pois era perda de tempo, e já acordava todo mundo com o som nas alturas. Me dava muita tensão aquilo, mas hoje agradeço pelos sustos com os graves do som às oito da manhã.

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Você já tocou bateria durante as apresentações do Silva e ele participou de algumas canções do seu trabalho, como é a relação de vocês? Podemos esperar outras parcerias entre os dois?

Eu e Lúcio (da Silva Souza) nos conhecemos há uns oito anos, quando eu ouvia as músicas gospel que ele produzia. Acabei achando os trabalhos do irmão dele na internet, em discos em que ele tocava. Nossa amizade se estendeu e acabamos nos conhecendo pessoalmente. Ele disse que precisava conhecer um cara bem legal pra trabalhar com a gente, que no caso, era o Lucas (de Paiva), que trabalhava lá como técnico em um estúdio. Hoje estamos em momentos diferentes, com percepções diferentes, ele esta focado no trabalho dele agora, mas talvez mais à frente a gente se encontre em algo bacana.

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Mesmo nascido na década de 1980, você cresceu nos anos 90 e viu a cena musical acontecer de fato no começo dos anos 2000. Dessas três décadas, qual é a que mais se reflete no seu trabalho atual e nas composições que você desenvolve?

Talvez anos 80 apareçam nas músicas pela questão dos timbres e tudo mais, mas isso é como dizer que só nos anos 80 se usavam sintetizadores e Drummachine. E não é isso, sabe? O tempo todo está tudo aí, circulando. Tem muitos momentos nessas canções que estão minhas eternas influências: Keane, Feist e Jon Brion. Pessoas que mudaram a minha percepção de música nos anos 2000, e que me fizeram acreditar que eu podia sim fazer uma música àquela altura – ou pelo menos perto daquilo. Para você ter uma ideia, meus discos preferidos são do Keane, Hopes and Fears seguido de Under on The Iron Sea, que lavou minha alma. Eu estava perdida, não sabia ouvir música, só sabia tocar, sabe? Mas depois desses dois álbuns seguidos eu chorei, sofri e ouvi aquilo por anos e anos. Fui entendendo o porquê das sensações. E eu de fato precisava fazer algo parecido. Logo, os versos, as convenções, as melodias e alguns toques em Efeito das Cores eu vejo que saíram desses discos. Se eu pudesse ver Tim Rice Oaxley um dia, eu diria: “Muito obrigada por me salvar. Obrigada por salvar minha música”.

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Embora tenha citado algumas bandas com uma pegada mais “rock” é possível encontrar alguns traços bem visíveis de projetos como Toro Y Moi e outros representantes da famigerada Chillwave dentro das canções do Mahmundi. Além do Chaz Bundick, que outros artistas estrangeiros têm influenciado seu trabalho?

Uau! Isso só me faz pensar em Ariel Pink! Esse cara me ajudou muito nesse processo. A primeira vez que eu ouvi Bervely Kills eu morri de rir, mas achei aquilo fantástico. Eu olhei pro Lucas e disse: “Eu quero algo assim!”. E ele riu e disse: “agora você entendeu, né?”. Tem uma graça naquilo, e eu não sei explicar, só sei que envolve muita coragem. Antes dele, ouvi How I Know do Toro Y Moi e fiquei em choque. Cliquei no disco pela capa, que me chamou atenção. Aquilo sim era um choque naquele momento, tem umas inversões de notas e de momentos que ainda me despertam sensações até hoje. É lindo. Ainda gosto de Four Tet, Metronomy, Grimes, Perfume Genius, Kuedo, Atlas Sound, Casiokids, Jai Paul, Nite Jewel e M83. São muitos artistas em movimento, todos os dias, dá até uma pane na cabeça!

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E da cena nacional, o que mais lhe agrada?

Na cena nacional eu aposto no meu querido Ricardo Vieira e sua banda We Are Pirates. Nos conhecemos e conversamos muito sobre música, equipamento e etc. Assim como eu, eles fizeram o disco em casa, no perrengue e estão voando alto na música eletrônica. Mas fora a isso tem os consagrados: Céu, Caetano, Adriana Calcanhotto, Novos Baianos, A cor do Som, Mutantes, Palavrantiga, Erasmo e Roberto, Beto Guedes. Aliás, Feira Moderna está entre as músicas brasileiras que eu mais gosto.

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Sei também que gosta muito da cena eletrônica atual, a primeira vez que conversamos lembro de você ter comentado algo sobre There Is Love In You do Four Tet. Qual o peso da música eletrônica quando você compõem. É algo essencial ou serve apenas como um complemento?

Estou ouvindo musica eletrônica cada vez mais. Ela ainda mexe com os meus sentimentos. Ando naquela fase de ficar meio maluca e começar a ouvir música observando todos os detalhes, como se tivesse decupando-a. Isso é chato às vezes. Ultimamente estou ouvindo bastante Actress e seu novo disco, R.I.P. Aquilo é lindo. O Kieran Hebden (Four Tet) chegou na minha vida no mesmo esquema do Toro Y Moi: pela capa. Achei ela linda, e acho que capa é sempre um cartão de visitas. Não deu outra! O disco é incrível e tem muita cor, como a bela capa de There Is Love In You. Jamie XX também é meu garoto, eu adoro as mixtapes que ele lança. Por outro lado, Chromeo e James Blake chegaram devagarzinho no meu Ipod, já os discos de Bjork e James Murphy são lembrados sempre.

 

Não importa o texto, há sempre alguém que acaba aproximando Efeito das Cores dos trabalhos lançados pela Marina Lima e Rita Lee na década de 1980. Das duas cantoras, quem mais contribuiu para as músicas do seu disco – se é que alguma delas de fato influenciou você?

Eu baixei muitas coisas da Rita Lee antes do processo do EP, pra dar uma estudada. Eu sou apaixonada por Atrás do porto tem uma Cidade (1974), na época dela com Tuti Frutti. Foi uma porrada ouvir aquele disco. Que valentia! Eu adoro tudo de Rita e acho que a atitude, os versos e a forma de compor foram importantes sim. Ela tem uma doçura nas palavras, mesmo falando sobre qualquer assunto. E claro: lá estava ela com seu Moog solando e cantando. Respeito muito, muito mesmo.

Marina eu ouvi um pouco menos, mas sempre de olho na forma de compor, afinal, essas mulheres estavam fazendo suas músicas com suas guitarras e tudo mais, de uma outra forma. Os anos 80 no Brasil são lembrados pelo bom humor, por guitarras, Sol, verão e gritinhos. Elas deram essa cara pro Pop naquele momento, e era isso que eu estava pesquisando. Eu gosto de bom humor, gosto de piada, de risada e um pouco de malandragem, musicalmente falando, e elas fizeram isso muito bem.

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Já observei você comentando diversas vezes sobre a passagem do Little Joy pelo Brasil como um evento de grande importância para sua vida. Na própria entrevista que deu recentemente para o Bracin você conta como foi esse encontro com o Amarante e principalmente os momentos com o Fabrizio Moretti. A passagem da banda ou mesmo o próprio disco do grupo lançado em 2008 tem alguma influência direta sobre a existência do Mahmundi?

Hahaha não, não. O Little Joy foi importante porque vi o Fabrízio e o Amarante e batemos um papo. Aquilo foi bacana. Eu fiquei toda contente em ter visto o Amarante (quem eu considero um cara relevante) e depois ele estava lá toda semana no Circo Voador tocando com a Orquestra Imperial. Fabrízio é do Strokes, e Strokes tem sua importância na minha vida com aquele seus três primeiros discos incríveis. É muita emoção, né? Ah, e ele é lindo.

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Depois da boa repercussão do EP Efeito das Cores, o que podemos esperar do Mahmundi? Algum single novo em vista ou talvez um primeiro disco “de verdade”? E sobre os shows, já surgiram oportunidades ou convites para se apresentar fora do Rio de Janeiro?

Não sei. Estou compondo algumas coisas, naquele processo de voz e violão. Às vezes fazemos algumas jam’s e sai algumas coisas bacanas. Quero me concentrar em outros projetos que estou fazendo com amigos, talvez eu toque bateria em algum deles. Eu ouço musica constantemente e fico unindo isso, conversando com pessoas, querendo saber da vida delas. É sempre um bom motivo de canção. Mantenho o processo de tocar sozinha na varanda, olhando o céu. Tem uma beleza nisso pra mim, e sempre sai muita coisa boa.

Sobre shows, estamos marcando algumas datas. Tem essa coisa do disco físico que vem com novidades. Quero fazer algo que as pessoas guardem como recordação, tipo brinquedo de final de festa, que você fica na fila disputando. Vai ser bacana.

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A música parece ser parte muito forte de você, mas além dela, que outras referências – literárias ou visuais – compõem o seu universo? O que você tem lido, assistido ou mesmo jogado recentemente?

Esse ano já passei pela Biografia do Steve Jobs, reli André Midanni, terminei Teoria da Vanguarda (de Peter Burguer) e estou começando a ler Alucinações Musicais, de Oliver Sacks. Não assisti nada de cinema nesse ano, acredita? Queria muito ver Hugo, por que li o livro há uns anos atrás, mas gosto de filmes Europeus e filmes com bastante musica – Não musical! Desses eu tenho preguiça.

Sobre jogos, a namorada do Lucas me recomendou Angry Birds, inclusive vou até recarregar o meu Ipod pra jogar. É viciante.

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