Especial: 10 discos para aproveitar o inverno

Por: Cleber Facchi, Fernanda Blammer e Bruno Leonel 

Assim como no começo de janeiro aproveitamos o clima quente e as altas temperaturas para lançar o especial 10 Discos Para Aproveitar o Verão, com as temperaturas cada vez mais baixas é hora de apresentar o oposto disso. Esqueça o biquíni, o filtro solar e a piscina. É hora de se enfiar embaixo das cobertas, preparar o chocolate quente e ver nossa seleção com 10 Discos Para Aproveitar o Inverno. Tudo bem que ainda faltam alguns meses até a estação começar de vez, mas enquanto ela não chega, não há nada melhor para ficar quentinho e se sentir bem acolhido.

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Bon Iver
For Emma, Forever Ago (2008, Jagjaguwar)

Construído em um período de isolamento de Justin Vernon – que se trancou em uma cabana durante três meses para se curar da mononucleose – o primeiro álbum do Bon Iver ecoa um clima solitário do princípio ao fim. Musicalmente simples, o disco cresce em virtude dos versos essencialmente confessionais e honestos que permeiam as faixas, fruto de um relacionamento fracassado e de outras crises individuais em torno da vida do compositor norte-americano. Doloroso, For Emma, Forever Ago passeia por faixas como Skinny Love, Flume, Creature Fear e outras canções tomadas por uma delicadeza reconfortante, como se Vernon, ao mesmo tempo que cantasse sobre si próprio, estabelecesse uma conexão direta com os problemas e confissões do próprio ouvinte, que se vê naturalmente retratado no interior do disco. Da capa gelada, aos versos, passando pela história que o caracteriza, tudo no interior da obra se aproxima de um clima frio e típico do inverno, sendo o trabalho mais indicado para quem pretende se aventurar solitário pela estação.

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Björk
Vespertine (2001, One Little Indian)

Inverno deveria ser quase um sinônimo para Vespertine, afinal, seria estranho pensar que o álbum foi gravado em outras estações do ano devido ao fato de ter ficado do jeito que ficou. Em seu quinto registro em estúdio, a islandêsa Björk criou um verdadeiro amalgama gelado de camadas eletrônicas, letras introspectivas e pontuais cortinas de silencio. Atmosférico e cinzento como um inverno, Vespertine apresenta um minimalismo sonoro estranhamente aconchegante. Trilha ideal para observar a cidade de dentro de uma janela ou para caminhar durante a tarde em alguma paisagem com neve (como sugerem os barulhos de natureza sampleados em Aurora) há diversos sons incomuns como caixinhas de musica e ruídos como o gelo rachando em Frosti que só aumentam o clima frio, introspectivo e incomodo do trabalho. Nunca a voz de Bjork havia soado tão próxima e frágil ate então e os sons de respiração e suspiros presentes em alguns momentos deixam a impressão de uma quase tentativa de se preservar em meio ao frio cortante que há do lado de fora do vidro da sala de gravação.

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Death Cab For Cutie
Transatlanticism (2003, Barsuk)

Maior obra da carreira do Death Cab For Cutie, em Transatlanticism a banda norte-americana alcança uma maturidade rara, transitando com perfeição entre o pop e o indie rock melódico sem exageros. Uma mistura essencial para o bom desempenho do registro e, claro, para o sucesso do grupo, ainda limitado a uma parcela específica de ouvintes. Com Ben Gibbard entregando os versos mais dolorosos e bem explorados da carreira da banda para a produção detalhada do guitarrista Chris Walla, o disco se mantém dentro de uma atmosfera repleta de sensações melancólicas e angustiantes. Essa percepção ultrapassa a barreira dos versos enaltecidos pelo vocalista, alcançando de forma cuidadosa a sonoridade da obra, algo que as guitarras, mesmo expansivas e assumam com sutileza e certo controle. Entre faixas mais “animadas”, como Title And Registration e The Sound Of Settling, destacam-se criações brandas, como a própria faixa título ou mesmo outras à exemplo de Tiny Vessels e A Lack Of Color.

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Hidrocor
Edifício Bambi (2012, Capitão Monga)

A receita é até bem simples: parcos violões, teclados encantadores, vozes suaves e um conjunto de letras apaixonadas. Com todos esses elementos a banda paulistana Hidrocor alcança o cardápio de sensações e adoráveis referências que se materializam no decorrer do álbum de 14 faixas do primeiro registro em estúdio da carreira. Suave e com um pézinho bem cravado na melancolia, o trabalho se adorna de versos românticos, doses de abandono e pequenas carências particulares, algo que faixas como Tchu Tchu Tchu, Listras e Xadrez e Miojo abordam com honestidade e certa dose de simpatia. Com elementos do Lo-Fi, folk e indie pop, o disco pinta um cenário onde encontros e desencontros, términos e reconciliações são frequentes, tendo apenas a voz Marcelo Perdido – e alguns colaboradores como Lulina e Tatá Aeroplano – como elemento guia. Para quem vai passar o inverno sozinho ou acompanhado, o álbum oferece material o suficiente para aquecer durante toda a estação.

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Joanna Newsom
Ys (2006, Drag City Inc)

Não seria estranho se algum dia alguém descobrisse a farsa de Joanna Newsom, não um ser humano, mas uma criatura mística que atravessou dimensões para viver entre os homens e levar aos mesmos toda sua candidez instrumental e seus afáveis versos.Talvez ela não seja nenhum ser vindo de outro mundo, quem sabe apenas um elfo – as orelhas pontudas ao menos ela tem – que resolveu sair de alguma floresta obscura em algum canto da Europa e hoje transita pelo “mundo real”, acompanhada apenas da fiel harpa, seus adocicados vocais pueris e incontáveis histórias de amor, crônicas fantásticas ou pequenas fábulas do cotidiano.Como se estivesse perdida em alguma cidade europeia no período da Renascença, a cantora transforma Ys em um dos mais surpreendentes e delicados tratados musicais já feitos. Acompanhada por uma orquestra que conta quase 30 integrantes, a jovem musicista não apenas flerta com a música erudita, como a fragmenta em incontáveis pedaços para depois reagrupar tudo dentro de uma linguagem e de uma condução peculiar, lançando um álbum que vai contra tudo que fora proposto em seu período de lançamento e rompendo quaisquer rótulos que buscassem classificar sua música.

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Joni Mitchell
Blue (1971, Reprise)

Considerado como um dos mais tristes e importantes trabalhos da história da música, Blue, a obra máxima da cantora e compositora norte-americana Joni Mitchell é ainda hoje um dos mais dolorosos e belos tratados sobre o sentimento humano. Montado inteiramente em cima de desilusões particulares da artista canadense, o álbum se deixa contaminar por um clima amargurado, denso e naturalmente sincero. Fortemente influenciada pelo jazz de artistas como Miles Davis e outros grandes representantes do estilo, a cantora deixa a voz derreter de forma suave e angustiada em canções como A Case of You, California, All I Want e demais tratados que se revelam com o passar do disco. Indicado para quem vai enfrentar as noites frias do inverno de forma solitária, o trabalho transforma sentimentos até então particulares de Mitchell em algo compartilhado, como se a dor, ao final, fosse um sentimento necessário para todos.

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Joy Division
Closer (1980, Factory)

Segundo e último álbum de estúdio do Joy Division, Closer dá um salto gigantesco em relação ao primeiro disco da banda, Unknown Pleasures, lançado um ano antes. Explorando um resultado menos acelerado que o proposto previamente, o grupo se aprofunda no uso de guitarras experimentais e canções que se deixam absorver por um toque quase ambiental e muito mais denso. Tão melancólico e sombrio quanto o disco anterior, o álbum deixa estabelecido logo na faixa de abertura, Atrocity Exhibition, todas as estratégias que serão aprofundadas pela banda no decorrer do trabalho, como as guitarras ruidosas e a bateria tomada por uma condução matemática e quase eletrônica, fazendo do registro uma das maiores e mais importantes obras do pós-punk britânico. Da mesma maneira que o disco anterior, Closer indispõe de lados definidos, ficando a encargo do ouvinte decidir a ordem exata das músicas.

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Leonard Cohen
Songs of Love and Hate (1971, Columbia)

Entre o final dos anos 60 e início da década de 1970, o canadense Leonard Cohen deu formas a um dos mais surpreendentes catálogos musicais. Entre obras como Songs from a Room, Death of a Ladies’ Man e New Skin for the Old Ceremony, sem dúvidas o trabalho que mais se destaca é o sofrido Songs of Love and Hate (1971), álbum que como o próprio título aponta se divide entre as dicotomias do amor e do ódio. Mais confessional álbum da carreira do músico norte-americano, o disco se concentra na execução de apenas oito composições, um número pequeno, porém suficiente para mergulharmos no universo de sensações tristes e versos sempre densos assinados por Cohen. A instrumentação, quase toda trabalhada em cima de acordes simplistas de violão e suaves arranjos de cordas, contribui para arrastar o ouvinte para junto do clima hermético da obra, um registro que mesmo hoje soa tão atual quanto na época em que foi gravado.

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Sigur Rós
Ágætis byrjun (1999, Fat Cat)

Até o lançamento de Ágætis byrjun em junho de 1999 o Sigur Rós era apenas um grupo de estranhos compositores islandeses donos de um um som tão particular que parecia compreendido apenas por eles. A sutileza do segundo álbum, entretanto, em poucos segundos consegue convencer mesmo o mais sisudo espectador, figura que se vê arrastada para o mundo de sensações oníricas, delicadas e místicas que se manifestam no decorrer da obra. Com mais de 70 minutos de duração, o álbum mantém o ouvinte hipnotizado e preso a esse mesmo universo fantástico mesmo ao encerramento da suntuosa Avalon, última e mais ambiental canção do disco. Com guitarras que se derretem, teclados angelicais, as vozes etéreas de Jónsi e toda uma soma de referências diversas que expandem os limites do álbum, Ágætis byrjun parece ser o retrato de uma terra mágica, perfeita e adornada por elementos por vezes incompreensíveis. Ainda hoje é o mais belo tratado já gravado pela banda e um dos discos mais doces que se tem registro.

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Sufjan Stevens
Greetings from Michigan, The Great Lake State (2003, Secretly Canadian)

No início de 2003 Sufjan Stevens resolveu dar inicio a um dos mais ambiciosos (e geniais) projetos da música norte-americana: The 50 States Project. Espécie de gigantesca homenagem aos 50 estados que compõem o território dos Estados Unidos da América, Stevens deu início à atividade com o lançamento do sutil Greetings from Michigan: The Great Lake State, trabalho em que se aventura musicalmente pela região em que nasceu, bem como estabelece todo um novo e detalhado enquadramento à cena folk contemporânea. Posteriormente, mesmo que a imensa ideia tenha se revelado como uma brincadeira por parte do compositor e abandonada após o lançamento do ainda mais belo Illinois (2005), fugir da beleza e das formas sonoras que se sobrepõe no interior da obra é uma tarefa quase impossível. Com letras sempre descritivas – que vão desde arcos fechados até manifestações subjetivas do músico -, Stevens cria as bases para que toda uma gigantesca e delicada tapeçaria musical seja estendida pelo álbum, que se dissolve de forma natural em acordes doces e aconchegantes.

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+ Listas no Miojo Indie

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AVISO: Esta não é uma lista definitiva, apenas uma pequena seleção de álbuns que nos agradam e gostaríamos de indicar em virtude do tema. Caso algum registro que você goste não faça parte da lista, por favor, mantenha a calma, você não vai morrer por isso, sendo que pode (veja só) indicá-lo nos comentários.