Especial: 10 Discos Para Ouvir Chapado

Por: Cleber Facchi

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Conteúdo não recomendado para menores de 16 anos.

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Andy Stott
Passed By Me/We Stay Together (2011, Modern Love)
A Droga: Maconha

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Embora lançados em períodos diferentes e apresentados como projetos fracionados, Passed By Me e We Stay Together, mais recentes álbuns do produtor Andy Stott parecem se completar. Fundindo elementos do Dub com o Minimal Techno reformulado que o selo germânico Kompakt propôs no começo da década passada, o artista faz nascer um registro único, denso e raro em seu meio. Inserindo vocais de maneira esporádica e saturando as batidas com efeitos totalmente sujos e sufocantes, Stott desenvolve um projeto homogêneo, onde todas as composições parecem se aglutinar em prol de um som uno e intransponível. Como uma nuvem de poeira ruidosa, os dois EPs (ou como você queira definir os extensos discos) vão lançando uma série de canções que transitam o tempo todo entre o envolvente e o atmosférico, como se a cada novo pulsar das faixas Andy desse novo rumo ao trabalho que ele propõe.

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Banda Black Rio
Maria Fumaça (1977, Atlantic/WEA)
A Droga: Maconha

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Não é preciso ir muito além do título do registro de estréia do grupo carioca Banda Black Rio para perceber quais são as reais influências do coletivo. Quem ingenuamente compreende o nome do álbum como uma referência a alguma locomotiva, saiba que a Maria Fumaça que nomeia o registro nada mais é do que uma clara referência à maconha, combustível que movimentou grande parte do rico primeiro álbum do grupo. Grandes expoentes da soul music brasileira ao lado de Tim Maia, a banda proporciona através de 10 canções uma mistura suave entre o samba, o funk e o soul norte-americano, reproduzindo assim um dos maiores clássicos não apenas da década de 1970, mas de toda a discografia nacional. Dos acordes suingados da faixa título na abertura do álbum até o encerramento do trabalho com Junia, tudo se encaminha para a criação de um trabalho repleto de groove e doces sensações musicais.

 

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Céu
Vagarosa (2009, Universal)
A Droga: Maconha

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Suave e afundado em doces nuvens sonoras carregadas de referências regueiras, Vagarosa não é apenas o melhor retrato da nova safra da MPB, como solidifica em seu interior um denso apanhado de emanações profundamente viajadas. Enquanto a voz hipnótica de Céu passeia calmamente pelo álbum, batidas amenas, amontoados de guitarras levemente distorcidas e harmonias brandas de teclados vão se entrelaçando, produzindo um verdadeiro achado da lisergia nacional. Em meio a uma nuvem de fumaça, a paulistana e os parceiros que a acompanham fazem nascer clássicos recentes da música brasileira, pérolas como Espaçonave (com participação de Fernando Catatau), Cangote e a experimental Nascente, que abandona o tom pacato e tomado pelo Dub para se transformar em um jazz maroto e flutuante. Da voz arrastada da cantora ao composto de melodias esvoaçantes, todos os espaços do registro contam com um doce aroma canábico, como se o disco todo flutuasse em uma vistosa marofa recém soprada.

 

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Deerhunter
Halcyon Digest (2010, 4AD)
A Droga: Medicamentos prescritos e álcool

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O abuso de substâncias ilícitas nunca foi um mistério aos que acompanham o trabalho do Deerhunter. Desde os primeiros álbuns do grupo que as letras do líder Bradford Cox e as viajadas melodias compostas pela banda revelam um universo de sensações e referências totalmente lisérgicas, elementos vindos de maneira natural em virtude das aproximações da banda com o trabalho de grupos como My Bloody Valentine e Sonic Youth. Entretanto, com o lançamento de Halcyon Digest em setembro de 2010 os norte-americanos alcançaram um novo patamar em se tratando de viagens sonoras marcadas pela lisergia. Do título aos versos, passando pela instrumentação experimental que se dissolve nos ouvidos do apreciador, tudo esbanja a reverberação de um som marcado pelas drogas, nesse caso remédios e outras drogas prescritas que parecem dissolver a mente de Cox em um estado flutuante, obscuro e levemente místico.

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Peaking Lights
936 (2011, Not Not Fun)
A Droga: Maconha e LSD

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Um disco para ser apreciado (ou tragado) do princípio ao fim sem interrupções. Assim é o lisérgico álbum de estreia do casal Indra Dunis e Aaron Coyes de Peaking Lights. Embalados por uma nostalgia semi-hippie que transpassa os campos da música psicodélica, dub e algumas pitadas de drone, o duo atravessa décadas e transpassa distintos terrenos musicais em busca de uma musicalidade acolhedora e quase bucólica em alguns momentos. Lo-Fi por questões técnicas (e não por uma escolha da dupla), o disco apresenta desde faixas mais curtas e amarradas em uma doce estrutura melancólica (Key Sparrow) até canções mais extensas que de forma ou outra acabam aproximando a dupla de uma sonoridade mais eletrônica e variada (Marshmellow Yellow), transformando 936 em um dos trabalhos mais doces e completos que o ano de 2011 pode proporcionar. Deixe a correria do mundo para lá e sejam bem vindos ao espaço acolhedor que Dunis e Coyes prepararam para você.

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Jupiter Maçã
A Sétima Efervescência (1996, Antídoto)
A Droga: Medicamentos Prescritos, LSD e Maconha.

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Em 1996, enquanto a imprensa musical brasileira se deliciava com o lançamento de Afrociberdelia do Nação Zumbi, aguardava pelo novo álbum do Planet Hemp e ainda se satisfazia com os dois primeiros discos do Raimundos, o grande público entrava de vez no ritmo do Axé baiano. Distante deste excêntrico turbilhão e vindo diretamente de solo gaúcho, uma figura peculiar lançava ao mundo seu primeiro registro. Tão excêntrico quanto o atual panorama musical brasileiro, Júpiter Maçã (nascido Flávio Basso e ex-integrante das bandas TNT e Cascavellettes) fez de A Sétima Efervescência um trabalho antes de tudo ousado, afinal, rock psicodélico em plena década de 90 soava como um grande suicídio musical. Apenas soava, já que na prática o disco se mantém longe dos grandes clichês do gênero, concentrando uma série de verdadeiros clássicos do rock nacional, faixas como Miss Lexotan 6mg GarotaSociedades Humanóides FantásticasQuerida Superhist X Mr. Frog ou Um Lugar do Caralho, músicas que só poderiam escapar da mente de Júpiter Maçã.

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Primal Scream
Screamadelic (1991, Creation Records)
A Droga: Êxtase, cocaína, maconha, álcool, LSD, anfetamina e outras prováveis substâncias

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No começo de 2011 o semanário inglês NME elegeu Screamadelica, terceiro trabalho de estúdio do Primal Scream como o disco mais drogado da história da música, tomando a dianteira em uma lista que contava com 50 registros, incluindo trabalhos como Revolver dos Beatles e In Utero do Nirvana. Embora a obra-prima de Bobby Gillespie seja de fato um trabalho construído em cima do abusivo uso de substâncias lisérgicas (e pareça a trilha sonora exata para o uso variado dessas mesmas substâncias), o clássico disco lançado em setembro de 1991 está muito além de um mero condensado de composições viajadas e sons projetados para as pistas. Cruzando elementos da dance music dos anos 70, house, música gospel, rock psicodélico, jazz, eletrônica e rock alternativo, o álbum surge a partir da colaboração de uma série de produtores, bandas e diversos outros artistas que montaram samples, elaboraram bases e auxiliaram Gillespie no desenvolvimento de todo o trabalho. O resultado dessa grande somatória de elementos se traduz em um álbum volumoso, perdido em diferentes eras da música e surpreendentemente belo.

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Spiritualized
Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space (1997, Dedicated)
A Droga: Remédios prescritos

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Se o rock progressivo foi responsável por uma série de trabalhos enfadonhos, composições excessivamente grandiosas e faixas que mais parecem uma grande masturbação sonora, o mesmo estilo musical também foi essencial para o surgimento de uma gama de excelentes lançamentos apresentados na década de 1990. Entre os principais trabalhos inspirados pelo gênero está o volumoso Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space, terceiro álbum do grupo britânico Spiritualized. Em mais de sessenta minutos de duração, o disco conduz o ouvinte através de um passeio repleto de texturas psicodélicas, coros de vocais, colagens de sons e todo um vasto aparato sonoro que transformariam o álbum em um clássico imediato. Surpreendente do minuto que começa até seus últimos segundos, o disco é fruto dos abusos com as drogas por parte de seu idealizador Jason Pierce, algo que se materializa até na capa e na embalagem do trabalho, que tratam o registro como uma espécie de remédio, feito para ser tomado até duas ou mais vezes ao dia.

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Revolver

The Beatles
Revolver (1966, Parlophone)
A Droga: LSD e Maconha

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Mais do que uma simples prévia do que a banda estava desenvolvendo para o clássico Sgt. Peppers, em Revolver os Beatles estabeleceram todas as lógicas e temáticas que viriam a gerenciar os futuros trabalhos do grupo. As composições esculpidas em cima de forte uso de LSD e Maconha, o uso de bases instrumentais cada vez mais melódicas e ricas em detalhes convidavam o público para uma verdadeira experiência extra-sensorial, transformando o registro em um dos mais completos e completos registros do quarteto. Com uma participação muito mais ativa no projeto, George Harrison se revela o grande responsável pela inclusão de efeitos e sons que tornam o trabalho flutuante e mágico, algo perfeitamente observado nos experimentos de I’m Only Sleeping, She Said She Said e demais composições que transformam o disco em uma obra única do Fab Four. Para a capa do disco o grupo convidou o parceiro Klaus Voormann, amigo de longa data da banda e responsável por estabelecer o toque de psicodelia em preto e branco que se revela na capa do trabalho.

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The Libertines
The Libertines (2004, Rough Trade)
A Droga: Álcool, Cocaína, Maconha, Anfetamina, Crack e Heroína.

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A boa repercussão do disco de estréia do Libertines, Up The Bracket de 2002, transformou quase de imediato Carl Barât e Pete Doherty em novos símbolos da cena musical inglesa. Cercados pela fama e já naturalmente próximos das drogas, o duo se aventurou em uma verdadeira experiência lisérgica quando começou a gravar o segundo e homônimo trabalho da banda. Enquanto Barât manteve certa sobriedade, Doherty se aventurou em uma ladeira de experimentos químicos utilizando o próprio corpo como cobaia – experimentos que posteriormente levariam ao fim da banda. Como resultado, o duo e os demais integrantes da banda apresentaram um composto de 14 drogadas composições, músicas que evidenciam as constantes viagens de Doherty e a “linearidade” do parceiro. Guitarras tortas, vocais bêbados e todo um composto de elementos que balançam por todo o trabalho, mas que incrivelmente caíram no gosto e nos vícios particulares do público.

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AVISO: Esta não é uma lista definitiva, apenas uma pequena seleção de álbuns que nos agradam e gostaríamos de indicar em virtude do tema. Caso algum registro que você goste não faça parte da lista, por favor, mantenha a calma, você não vai morrer por isso, sendo que pode (veja só) indicá-lo nos comentários.

AVISO 2: O Miojo Indie não faz apologia ao uso de drogas.

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