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Experimente: 40% Foda/Maneiríssimo

Por: Cleber Facchi

40% Foda/Maneiríssimo

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Há tempos tem se falado sobre a nova cena carioca, cada vez mais inclinada ao resgate dos sons impostos pela New Wave e as cores dos anos 1980. Entretanto, na contramão de bandas como Mahmundi, Opala e uma fração menos esquizofrênica do Dorgas, ou até mesmo as nuances soturnas do Sobre A Máquina e demais projetos de Cadu Tenório, há na eletrônica do selo 40% Foda/Maneiríssimo um ambiente bastante específico. Projeto organizado por Gabriel Guerra (Dorgas), os irmãos Lourenço e Lucas de Paiva (Mahmundi/Opala), além do produtor Savio de Queiroz, o selo é um ponto de colisão e referências para diferentes interessados na Deep House, Techno e demais marcas que ocupam a eletrônica desde os anos 1990. Misto de ironia e invento natural, a proposta já acumula uma boa sequência de obras próprias, parte delas listadas e observadas individualmente neste pequeno especial.

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DJ Guerrinha

DJ Guerrinha
Rua Sorocaba EP (2013, 40FM005)

Faixas terríveis para um DJ discotecar, deep house flutuante, longo e sempre pau-molescente”. Ninguém poderia estabelecer uma definição mais exata para o trabalho de DJ Guerrinha em Rua Sorocaba EP do que seu criador, Gabriel Guerra. Todavia, na contramão do que afirma o texto de apresentação do trabalho, cada faixa que circula pelo registro brinca com os sons em uma experiência naturalmente assertiva. São bases climáticas que remetem de maneira natural ao trabalho de John Talabot, batidas espaçadas que se aproximam da obra do norueguês Lindstrøm, além de uma carga de sintetizadores, flautas e sons abrandados que tendem involuntariamente ao Krautrock. Trata-se de uma versão “futurística” do Dorgas, livre dos vocais pueris/excêntricos e do catálogo natural de instrumentos que orientam o projeto. Cinco imensas composições e quase 50 minutos de sons condensados com identidade – apenas ignore o desmerecimento fingido que acompanha o trabalho.

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Epicentro do Bloquinho

Epicentro do Bloquinho
Hegelianos de Direita (2013, 40FM003)

Colisão musical entre Lucas de Paiva, Savio de Queiroz, Gabriel Guerra e seus equipamentos analógicos, Epicentro do Bloquinho é de forma natural a base para todas as composições que abastecem o selo carioca. Em Hegelianos de Direita, primeiro grande exemplar da trinca de produtores, cada uma das seis canções do trabalho assumem o que parece ser a trilha sonora para um time de personagens específicos – representados de forma anunciada no título de cada música. Cruzamento entre as tapeçarias sintéticas que De Paiva trouxe no último ano (com o People I Know, hoje, Pessoas Que Eu Conheço), além das experiências etéreas testadas por Gabriel Guerra (como DJ Guerrinha ou mesmo pelo Dorgas), cada faixa se esparrama de forma precisa entre sintetizadores atmosféricos e batidas matemáticas. Misto de Actress e toda a soma de veteranos da IDM nos anos 1990, o álbum expõe o resultado mais atrativo de toda a sequência de projetos, independente da ironia exposta ou qualquer outro exagero temático que seus criadores queiram causar.

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Dóqui Martinhos

Ilustradora Carme’n’ Alve’s
Dóqui Martinhos (2013, 40FM002)

Fração musical orquestrada pela carioca Carmen Alves – uma das mentes no comando do selo e responsável pela parte visual nas apresentações do coletivo -, Dóqui Martinhos talvez seja o exemplar mais distinto de toda a produção lançada pelos cariocas até o momento. Acumulado nada tímido de referências experimentais e percursos eletrônicos pouco convencionais para o gênero, o trabalho concentra em duas faixas – Um Bom Natal Pra Ti e Malditos Artistas Desconhecidos – sons que dançam pelas batidas em uma composição próxima da Space Disco. São vocais enquadrados em um loop semi-tribal, batidas climáticas que remetem ao trabalho de Dan Snaith (como Daphni), além de um conjunto de retalhos musicais que clamam pela descoberta de forma bastante natural. Ora abrandado, ora intencionado em aquecer a pista, o pequeno registro é  uma abertura para o que há de mais excêntrico e naturalmente curioso dentro de todo o selo.

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Japa Habilidoso

Japa Habilidoso
Habilidades Eu Tenho (2013, 40FM004)

Assumido pelo fictício (ou seria real?) produtor Matheus Tanamoda, sindicalista (!) e figura mítica que acompanha o selo, Japa Habilidoso é uma divisão exata entre a ironia escrachada e a invenção que abastece as composições do 40% Foda/Maneiríssimo. Com Habilidades Eu Tenho, primeiro registro do “misterioso” artista, vocais sintéticos servem como respiro para o condensado sujo que cresce de forma descompromissada por toda a obra. Da mesma forma que o trabalho de Ilustradora Carme’n’ Alve’s, o single é apresentado ao ouvinte com duas composições: Funk do Sindicalismo e Agronomia Setorial. Enquanto a primeira trata de acumular resíduos sintéticos em um efeito hipnótico, a segunda reforça o lado mais acessível do trabalho, rompendo com o sarcasmo imposto nos versos para que os sons propriamente ditos possam se manifestar. Embora bem resolvido, de todos os trabalhos lançados é o menos atrativo. “Sujo e imperdivel, você não pode perder essa beleza. CD-R a venda!”.

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40% Foda/Maneiríssimo

Vários Artistas
40% Foda/Maneiríssimo (2013, 40FM001)

Primeira coletânea do selo carioca, o curioso trabalho resume em quatro composições todos os limites (se é que eles existem) e bases que orientam a estética do 40% Foda/Maneiríssimo. Enquanto a climática Peço Desculpas Por Não Ter Ido a Sua Festa de Aniversário, assinada por Lucas De Paiva, manifesta toda a relação do produtor com a obra recente do Opala, além dos sons estabelecidos em Brasil EP (2012), Milhares de Paquistaneses Salvando a Indústria reforça a excentricidade que naturalmente orienta os inventos de DJ Guerrinha. Por sua vez, Cultura Do Sudão, assinada por De Queiroz, envereda para o lado mas tímido do trabalho, quase um aquecimento para aquilo que o Principe de Montreal (pseudônimo escolhido por Lourenço De Paiva) explora com maior precisão no fechamento do registro. Mais de 20 minutos de sonorizações intimistas, um princípio para o que cresce de forma menos óbvia nos demais lançamentos do coletivo.