"Guppy"

Ano: 2017
Selo: Barsuk Records
Gênero: Indie Rock, Power Pop
Para quem gosta de: Speedy Ortiz e Waxahatchee
Ouça: Glitter e Percolator
Nota: 8.3

Resenha: “Guppy”, Charly Bliss

Passado o estranhamento inicial, resultado da voz aguda, por vezes desconfortante, de Eva Hendricks (vocal e guitarra), difícil escapar da avalanche de guitarras sujas, versos rápidos e batidas fortes que marcam o primeiro álbum de estúdio do grupo nova-iorquino Charly Bliss, Guppy (2017, Barsuk Records). Um power pop pegajoso e radiante, íntimo do som produzido no começo dos anos 1990 e completo pela forte interferência dos parceiros de banda Spencer Fox (guitarras), Sam Hendricks (bateria) e Dan Shure (baixo).

Coleção de ideias que passa pela obra de veteranos como The Breeders e Liz Phair, mergulha no pop-punk de Green Day e Paramore, e flerta com os guitarras do movimento grunge em uma interpretação claramente ensolarada, o registro de dez faixas e pouco menos de 30 minutos de duração se revela por inteiro logo em uma primeira audição. Uma explosão de melodias sujas que cresce na inaugural Percolator e descansa apenas na derradeira Julia.

Fuga de possíveis excessos, Guppy faz de cada composição um objeto de claro destaque. Difícil escapar da violenta soma de guitarras e batidas rápidas de Percolator. Em Totalizer, nona faixa do disco, o uso de pequenas curvas rítmicas, jogando com a interpretação do ouvinte a todo momento. Surgem ainda músicas como Westermarck, faixa que soa como um improvável encontro entre Britney Spears e o Weezer da fase Pinkerton (1996). Nada que se compare ao trabalho da banda na terceira faixa disco, a urgente Glitter.

Intensa do primeiro ao último acorde, a faixa de essência melódica concentra todos os elementos que fazem de Guppy um registro poderoso. Versos intimistas (“Eu sou a melhor? Ou apenas a primeira pessoa a dizer sim?”), vozes em coro, sintetizadores complementares e guitarras ascendentes. Quase três décadas de referências se espalham de forma a revelar um material essencialmente acessível, pop. Ecos de The Smashing Pumpkins que se encontram com guitarras descompromissadas à la The Strokes.

Grandioso na composição dos arranjos, a estreia do Charly Bliss sustenta nos versos um ato de pura melancolia e confissão sentimental. “Eu não quero assustar você / Eu não quero compartilhar você”, confessa no romantismo amargo de Scare U. Músicas que passeiam por diferentes fases da vida sentimental de Hendricks, caso de Westermarck (“Eu quero te tocar, eu quero chorar”), ou mesmo observações sobre diferentes personagens, base para a faixa de encerramento do disco, Julia (“Construímos uma vida juntos”).

Naturalmente íntimo do som produzido por grupos como Speedy Ortiz, Bully e Waxahatchee, Guppy se destaca pela forma como a ambientação ruidosa do trabalho cresce em paralelo ao refinamento melódico dos versos. Com um pé na década de 1990 e outro no começo dos anos 2000, cada fragmento do presente disco joga com a força dos sentimentos, histórias e referências que dançam no interior de cada composição, fazendo do álbum um trabalho que cresce para além dos próprios limites e curta duração de cada faixa.

 

Veja também:


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend