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Na Descompressão do Grito

Por: Cleber Facchi

Econômico. Não há palavra que melhor defina o novo espetáculo do pernambucano Siba Veloso do que esta. Enquanto na extensão dos últimos trabalhos ao lado da Fuloresta – grupo formado por antigos músicos da Zona da Mata pernambucana -, o ex-guitarrista do Mestre Ambrósio se aventurava por um mundo de regionalismos e sonoridades mais elaboradas, hoje, apenas a simplicidade de uma guitarra distorcida bastam para um bom show. Nada de flautas, vozes em excesso, bateria espalhafatosa ou mesmo a tradicional rabeca que tanto acompanhou o artista ao longo dos anos. Hoje sobram apenas riffs abrangentes, vocais temperados pela crueza e a constante necessidade de manter o espírito que se abriga no título do novo álbum: Avante.

Transformando essa proposta de economia em um sentimento de ordem, a apresentação no SESC Osasco na noite do último sábado (24) se transformou em uma sucessão de acertos que, para além dos limites do registro em estúdio, ganharam nova força e espaço para que as guitarradas disparadas por Siba. Substituindo o uso de um contrabaixo por uma tuba, incorporando uma bateria sempre pulsante e um teclado nunca simples, o músico e os companheiros de banda lançaram em pouco mais de uma hora todo o repertório do novo disco – apenas Um Verso Preso, que em estúdio conta com participação de Lirinha, acabou de fora -, cultivando um som ora dançante (uma herança dos antigos projetos), ora mergulhado em uma sonoridade visceral.

A necessidade em abandonar as canções presentes nos últimos discos – que contavam com um aparato instrumental maior – torna a apresentação relacionada ao novo projeto dinâmica e sempre consistente. As guitarras firmes, sólidas e constantemente próximas amarram todas as canções que materializam o novo repertório, sejam elas frutos próprios do compositor, versões de sua antiga banda ou mesmo experimentos vindos do continente africano. Contrário ao resultado plástico que fomenta a estrutura do registro em estúdio, quando assume os palcos o trabalho se expande e alcança novos limites, como se o próprio Siba se multiplicasse em centenas, se não milhares em torno de si próprio.

O que já era amplo no interior do disco, como na distorção limpa de Ariana ou no riff crescente de Canoa Furada, ao vivo se multiplica, com o músico trafegando por entre acordes hipnóticos no melhor estilo Jimmy Hendrix e guitarras pontuadas por uma sujeira cativante típica do que Annie Erin Clark (St. Vincent) alcançou no trabalho passado, Strange Mercy. Seja por influência do produtor Fernando Catatau (Cidadão Instigado) ou como decisão do próprio Veloso, mas o fato é que ao vivo as guitarras que passeiam necessárias pelo álbum (mesmo as mais suaves) ganham novo enquadramento, como se o músico brincasse com o espectador, comandando-os a cada nova onda de distorção ou solo arrojado.

 

Avante é um espetáculo que parece se modificar de acordo com as atitudes e percepções do público. Aos que pretendem assistir a apresentação em pé, o repertório não apenas entusiasma como possibilita ao espectador dançar, pular e cantar durante todo o trajeto da apresentação, mesmo nos pontos mais brandos e experimentais da atuação do músico e da bem ensaiada banda de apoio. Já aos que optam por absorver a sonoridade confortavelmente instalados e assentados nas cadeiras, o show garante todo um novo enfoque, com Siba conduzindo o espectador através do labirinto sonoro de múltiplas tonalidades, por vezes brincando com a psicodelia (algo que se intensifica na faixa título) ou se aproximando dos ritmos nacionais.

Ao vivo o novo álbum não só faz mais sentido como parece revelar todo um novo conjunto de possibilidades antes imperceptíveis nas vozes e sonorizações retas do disco. A suposta economia que preenche o palco e as composições do pernambucano lentamente ganham um novo reforço, como se estivessem em um hábitat natural, feitas unicamente para o show, para serem captadas e cantadas ao vivo.

Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post, editor de conteúdo no Itaú. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.