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O Efeito de Todas as Cores

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Efeito das Cores é um trabalho que encanta pela sutileza. Não há nada de revolucionário na maneira como a carioca Marcela Vale – líder do Mahmundi – acomoda os versos honestos e a instrumentação doce que passeia pela década de 1980. Referências que tornam vivas cada uma das seis composições administradas pela artista e a dupla de colaboradores que a acompanham. É justamente dentro dessa proposta simples e acessível aos mais variados públicos que Vale projeta todas as criações de sua autoria ao vivo, faixas que encontraram na naturalidade lírica e instrumental o fermento para os pouco mais de 50 minutos da apresentação na noite de ontem (17) no SESC Pompeia.

Primeiro show oficial da carioca em solo paulistano – e o segundo desde que passou a se apresentar como Mahmundi -, a apresentação enfrentou o frio, a chuva e o baixo público até conseguir de fato engrenar. Foi só lá pela metade do espetáculo, quando a versão de Corre-Corre de Rita Lee (uma das grandes referências da cantora) tomou conta do palco, que o Mahmundi de fato veio à tona. Se inicialmente faixas como Calor do Amor e Se Assim Quiser enfrentaram o baixo engajamento do público, aos poucos o bom humor de Vale e dos parceiros Lucas de Paiva (Bateria Eletrônica, teclados e efeitos) e Felipe Vellozo (Baixo e Teclados) foram conquistando os presentes, que trocaram os passos e vozes tímidas, por danças mais arriscadas, palmas e gritos constantes.

Cativante pela maneira como as canções se esparrama ao longo do espetáculo, em termos de espetáculo Efeito das Cores é um trabalho que ainda busca por um espaço indefinido, com a própria banda tentando compreender todos os limites e possibilidades do registro. Talvez pelo repertório diminuto, Vale e os parceiros buscam a todo o instante se encontrar, estendendo longos (e por vezes desnecessários) diálogos entre a execução de uma faixa e outra. Entretanto, as batidas quentes e os versos sempre românticos entoados pela vocalista logo nos trazem de volta para o clima assertivo do trabalho, que mesmo ao vivo segue à risca toda a variedade de teclados e mínimas particularidades que bem definem cada uma das canções.

Ao mesmo tempo em que o show peca pela timidez e o desencontro de alguns elementos, a instrumentação versátil garante lentamente que a banda assuma territórios e prenda de forma bem humorada todo e qualquer espectador – que ao longo da noite contou com um público de diferentes idades. Seja pelas guitarras surpreendentemente hábeis de Vale (artista que surge maior do que muitos nomes de peso do cenário nacional) ou pelos beats inteligentes de Paiva (que fabrica samples de forma orgânica e competente ao longo da apresentação), o Mahmundi é um projeto que mesmo cercado por pequenos erros e desencontros ao vivo, ainda deve crescer (e muito) pelos próximos anos.

Mesmo que em estúdio Marcela Vale estabeleça uma espécie de ponte sólida entre a sonoridade Lo-Fi que define o cenário independente atual e os ritmos coloridos dos anos 80, ao vivo a cantora parece ir além desse limite. É como se o Mahmundi revelasse um lado muito mais pop, aberto e capaz de prender inclusive o grande público, incorporando o mesmo espírito caricato de Rita Lee ou a sobriedade de Marina Lima, artistas que tantos aparecem em comparações ao trabalho de Vale, mas que no fim das contas parecem funcionar com uma extensão aprimorada e atual na voz e nos sons da carioca.

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Leia nossa crítica para Efeito das Cores | Veja nossa entrevista com Mamundi