O Rei das flores de cenoura


Por: Cleber Facchi

Certos elementos ligados a arte ou a cultura em geral só encontram sua aceitação (in) felizmente anos ou até mesmo décadas após seu lançamento. Foi assim com Star Trek nos anos 70, quando a série foi redescoberta (gerando uma infinidade de fãs), aconteceu com Van Gogh anos após sua morte, quando suas telas passaram a ser supervalorizadas e foi assim com o Neutral Milk Hotel, quando a banda e seus dois discos de estúdio foram pontualmente recebidos anos após o fim do grupo. Muito mais do que simples petardos da musica lo-fi, os dois trabalhos da banda de Ruston, Louisiana são os responsáveis por infectar de maneira positiva boa parte da geração de músicos dos anos 2000.

Quem se emociona ao ver a maneira com que Win Butler e seus parceiros do Arcade Fire construíram o belo The Suburbs (2010), ou ainda a forma com que o Grizzly Bear encaminha sua sonoridade em Yellow House (2006) e Veckatimest (2009) deve antes entender que todos estes adornamentos tiveram início lá em meados dos anos 90, quando o quarteto Jeff Mangum, Scott Spillane, Jeremy Barnes e Julian Koster se aventuraram na criação de um som ruidoso, pontuado pela melancolia e fortemente agarrado à psicodelia da década de 1960.

Por mais que dar os méritos unicamente à figura de Mangum seja algo injusto com os outros contribuintes do NMH, não atestá-lo como a grande mente por trás da banda seria um erro maior ainda. De fato o grupo começou e terminou por conta do músico, que ao lado de outro gênio do indie rock Robert Shneider daria origem ao coletivo Elephant 6. Muito mais do que um mero selo ou uma simples gravadora caseira, o projeto funcionava como uma grande ponte cultural entre diversas figuras da cena independente americana. Através do E6 não apenas Jeff Mangum e sua banda conseguiriam se consolidar, mas diversos outros projetos, como o The Apples in Stereo, The Olivia Tremor Control, Beulah e Of Montreal.

Em 1994 Mangum daria os primeiros passos de sua empreitada musical de forma concisa através do lançamento de Everything Is EP, um disco de 7” gravado todo de forma artesanal, mas que já dava fortes indícios do que viríamos a encontrar nos futuros lançamentos da banda. Sozinho (embora contasse com a presença de outros integrantes do Elephant 6 em suas apresentações ou mesmo na gravação do álbum) o músico partiria para a gravação de seu primeiro long play: On Avery Island (1995). Com distribuição do selo Marge Records, o disco circularia tanto em território norte-americano como pelo Reino Unido no ano seguinte, obtendo um reconhecimento razoável por parte da crítica, assim como dando início a um seleto grupo de fãs.

Valendo-se de letras densas (algumas são quase contos musicados) o musicista tinha na instrumentação seu grande firmamento. Em meio às camadas sujas de gravação precária que definiam o álbum, Mangum soltava um violão distorcido, uma percussão tímida, alguns órgãos e pianos suavemente viajados e acima de tudo um formidável arranjo de sopros que funcionavam como a cereja do bolo sinistro do músico. A música folk vinda dos anos 60 dialoga há todo o momento com toques profundos de psicodelia setentista, que em meio às camadas sujas e os sons em determinados momentos quase inaudíveis dão forma a uma música que seria encarada como única do Neutral Milk Hotel.

Seria só a partir deste disco, através da entrada definitiva de Spillane, Barnes e Koster que o grupo estaria realmente definido. Não mais Mangum brilharia como mente única dentro da banda e a grande prova disso viria no segundo disco do então quarteto: In The Aeroplane Over The Sea (1998). Melhor álbum da banda, além de ser um dos discos mais importantes de toda a década de 1990, figurando ao lado de Nevermind (1991), OK Computer (1997) e Slanted And Enchanted (1992), o disco é um trabalho feito com o máximo de cuidado, além de se sustentar da união de diversos amigos do grupo e demais influências externas.

O disco foi todo gravado na casa de Jim McIntyre, baixista do The Apples in Stereo e que converteu um dos cômodos de sua morada no que seria definido como “Pet Sounds Studio”. Para a produção do álbum, a banda convocou o amigo Robert Shneider, que pontualmente daria um ar um pouco mais límpido às canções, deixando que todas as tonalidades, texturas e instrumentos utilizados pelos músicos fossem aproveitados ao máximo. Dessa forma é possível saborear o disco por completo, não apenas ouvindo os órgãos, banjos, trompetes, trombones, xilofones e demais instrumentos que o completam, mas também é possível sentir sua sonoridade.

Ainda mais emocional que o trabalho anterior, Mangum encontrou no diário de Anne Frank boa parte da inspiração para gerar as letras desse álbum. A maneira com que os sons são gerenciados dão uma vaga noção de pequena ópera melancólica, onde a instrumentação orquestrada dá sustentação aos versos caprichados e obscuros do músico, que segue lidando com temas que abrangem desde depressão, autoconhecimento e até mesmo a morte. As canções também dão pequenas mostras do que se passava com Jeff Mangum naquele período e que mais tarde se converteria em uma crise nervosa, sincope que por anos o acompanharia.

Tanto a imprensa (boa parte dela pelo menos) quanto o público não veriam o lançamento como de grande potencial. O disco venderia pouco, embora servisse de inspiração para uma série de músicos que iniciariam seus trabalhos alguns anos mais tarde (lembra Arcade Fire e Grizzly Bear?). Em 1999 após algumas apresentações, muitas delas quase que exclusivamente para amigos, além do descontentamento de Mangum em relação à receptividade do trabalho, o grupo chegaria ao fim. Entretanto, mesmo que ali se desfizesse a banda era a partir desse momento que a real fama do grupo norte-americano se estabeleceria.

Diversos fatores foram fundamentais para que o grupo passasse a ser reconhecido como uma das mais importantes da década de 90. O primeiro deles foi a internet, que viabilizou que diversas pessoas ao redor do globo tivessem acesso aos discos da banda, que antes se resumiam à America do Norte e pequena parte da Europa. Soma-se também uma série de vídeos caseiros com apresentações da banda que acabaram circulando pela rede, o que de certa forma serviu para cativar os recentes descobridores do quarteto.

Veio também a nova geração de músicos do indie rock, que quando questionados sobre seus discos favoritos apontavam mais do que imediatamente as duas obras da banda de Louisiana. O próprio Win Butler em entrevista à Pitchfork afirmou que seu grupo só assinou contrato com a Marge Records devido ao fato de In The Aeroplane Over The Sea ter sido lançado pelo selo. Por fim, o relançamento dos discos em 2005 fez com que uma nova geração tivesse acesso aos sons da banda de Jeff Mangum, da mesma forma que diversas revistas especializadas revisassem suas resenhas dando aos trabalhos nota máxima. O Neutra Milk Hotel deixava de ser uma mera banda underground voltada aos nichos para se transformar e um dos nomes mais importantes da música mundial, aclamados inclusive por gente que sequer sabia falar quando a banda ainda cantarolava.

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