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O “Sertanejo Universitário” segundo Rosie and Me

Por: Cleber Facchi

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Como todo artista ou grupo em construção, a banda curitibana Rosie and Me veio de um princípio tímido e visivelmente distante dos moldes que a identificam hoje. Enquanto as primeiras composições relacionadas ao projeto traziam um resultado dicotômico e focado no indie pop, fruto do encontro entre a voz doce de Rosanne Machado e o tom amargo do antigo parceiro Alex Sousa, hoje pouco parece ter sobrevivido do que identificava o som da banda em idos de 2006. Muito mais orientados pela fluência da música folk, do country norte-americano e até de uma versão particular do famigerado sertanejo universitário, o grupo fez da apresentação na noite de ontem (24) na choperia do SESC Pompeia um resumo inteligente de tudo que já aconteceu nesses quase seis anos desde que as primeiras faixas do projeto começaram a circular pela internet.

Com vocais sempre comportados (por vezes até demais), Machado assumiu os controles de todo o repertório que materializa o recente Arrow of My Ways, primeiro álbum oficial do grupo e disco que desde o lançamento em janeiro deste ano tem se revelado como um dos registros mais completos da cena nacional. Não mais uma singela promessa vinda do grande celeiro musical que é Curitiba, o grupo (hoje um quinteto) administrou um repertório suave, que dentro das exigências particulares da banda não deixou a desejar em nenhum instante, mesmo quando os versos interpretados pareciam conhecidos apenas pela banda e raros espectadores.

Estranho observar essa misteriosa força que o grupo exerce sobre o público, que mesmo sem conhecer o amplo (e amargurado) repertório da banda se sente motivado a participar do aconchegante espetáculo. Durante todo o evento se estabelece um doce acolhimento por parte do quinteto, que mesmo nos momentos mais dolorosos, como em I Couldn’t Reach You – uma faixa sobre separação que acabou se transformando em uma canção de resposta aos problemas que os curitibanos enfrentaram no último ano – e Darkest Horse (essa vinda do último EP) afagam constantemente o hipnotizado público. Essa estranha força já era visível há bastante tempo, visto que o grupo conseguiu cativar sem grandes esforços os ouvintes com exigências opostas ao som da banda no primeiro M/E/C/A/ Festival em 2011.

Mesmo centrado no recente álbum, não há como negar o quanto as velhas composições do Rosie and Me parecem muito mais próximas e naturalmente gravadas nas mentes do público. Seja a colorida Bonfires – como é que ninguém ainda não utilizou essa música como tema de alguma campanha publicitária? – ou a graciosa Come Back, ao olhar para o antigo repertório – vindo do EP Bird and Whale, de 2010 – o quinteto deixa transbordar todo o fascínio dos ouvintes, que ao trazerem as letras na ponta da língua ocultam os deslizes e pequenas doses de desafinação que se apoderam da vocalista. Sobrou até para o grupo trazer a já conhecida e remodelada versão de Ready For The Floor do Hot Chip.

Por mais que o repertório antigo ainda seja o grande mecanismo que rege a apresentação da banda, é nas canções do presente álbum que todo o poderio do grupo realmente se evidencia. Da introdução do disco (e do show) com a amena Home ao fecho crescente de Carry On, cada composição torna clara a aproximação do grupo com a música sertaneja que circula pela cena internacional, não devendo em nada ao que artistas como Mumford & Sons ou Band Of Horses vêm construindo em suas carreiras particulares. Mais do que “um dos registros mais completos da cena nacional”, Arrow Of My Ways é um trabalho que dialoga competente com o que ecoa lá fora, sendo que ao vivo a banda apenas intensifica essa relação.

Talvez o que impede que as flechas lançadas pela banda atinjam alvos maiores (e um melhor resultado durante as apresentações) seja o excessivo controle e a constante necessidade do grupo em manter o show em um nível de calmaria constante. As próprias guitarras de Thomas Kossar ou a bateria de Tiago Barbosa encontram certo bloqueio durante a performance, como se fossem impedidas de crescer por uma mão invisível. Foi só ao final da apresentação, durante o executar de Carry On, que o grupo parecia finalmente “liberto”, aspecto que deveria ser naturalmente melhor explorado em futuros shows. Por enquanto, as flechas lançadas já alcançaram seu destino, resta saber o que virá pela frente.

Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.