Os 100 Melhores Discos Nacionais dos Anos 2000 [20-11]

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[20-11]

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Pelvs

#20. Pelvs
Peninsula (2000, Midsummer Madness)

Enquanto parte das bandas independentes que ocuparam a cena nacional no final da década de 1990 optavam por reviver as experiências de Teenage Fanclub, My Bloody Valentine e tantos outros grupos britânicos, a carioca Pelvs resolveu seguir por um rumo diferente. Lidando com uma solução de reverberações litorâneas, o coletivo transformou Peninsula, terceiro disco de estúdio, em um verdadeiro conjunto de melodias acessíveis e letárgicas. Melhor registro da carreira do grupo fundado no começo dos anos 90, o álbum evidencia uma sucessão de faixas que se adornam de uma sonoridade praiana e leve, algo que caracteriza tanto os instantes de abertura do disco – com a solar Even if the sun goes down – como nas composições restantes do álbum, caso de Equador e Barbecue. Mesmo que as guitarras sujas estejam por todos os cantos do lançamento, o uso de acordes mais soltos e vocais adornados por coros de vozes resultam em um projeto distinto, como se a banda abandonasse os limites de um estúdio para produzir uma obra de frente pro mar.

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Punx

#19. Guizado
Punx (2008, Diginois/Urban Jungle)

Uma obra que lida com aspectos específicos do Jazz clássico, porém, sem perder o toque de aproximação com o presente. Assim é Punx, primeiro registro em estúdio do paulistano Guilherme Mendonça à frente do Guizado. Pontuado pela constante interferência eletrônica, beats típicos do Hip-Hop e arranjos que olham para o gênero em sua fase mais versátil, na década de 1970, o álbum serve como ponte para aproximar veteranos (como Miles Davis) e novatos (aos moldes de Prefuse 73) em um mesmo ambiente. Tão colorido e amplo quanto a capa que o apresenta, Punx passeia pelos estilos sem necessariamente perder a própria homogeneidade. De fluidez urbana, o disco abandona os limites de um palco escuro, ou antigo clube de Jazz, para passear de forma torta pelas ruas. Descritivas, ainda que livres das palavras, cada canção edifica prédios, picha as paredes ou atravessa as rachaduras do asfalto como um mergulho louco por qualquer centro urbano. Seja São Paulo, Nova York ou Londres, não há um ponto específico que músicas como Maya, Areias e Der Golem não consigam traduzir musicalmente. Um delírio transformado em som.

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Wado

#18. Wado
Atlântico Negro (2009, Independente)

O ano de 2009 trouxe um acréscimo significativo para a consolidação da nova música nacional. Céu apresentou ao público a letargia de Vagarosa, Cidadão Instigado mergulhou nas viagens lisérgicas de Uhuuu!, e até Otto assumiu com acerto os próprios dramas em Certa Manhã Acordei De Sonhos Intranquilos. No meio desse universo criativo, Wado, fez de Atlântico Negro sua obra mais completa e plural. Sequência natural aos sons acumulados em Terceiro Mundo Festivo (2008), o disco expande a relação do cantor com os diferentes gêneros musicais e poéticos, inaugurando no teor conceitual do registro uma obra que dança de forma particular entre as essências da Africa e das Américas. Apoiado em melodias de caráter acessível, quase pop, o disco soluciona em faixas como Hercílio Luz, Frágil e Pavão Macaco um efeito que amplia a proposta prévia do músico, amenizando vozes e instrumentos em um agrupado plenamente conciso, criativo musicalmente. Mais do que se entregar ao jogo radiofônico dos sons, Wado resgata de forma particular as incorporações expostas nos três primeiros discos, favorecendo ao afoxé (Cordão de Isolamento), samba (Martelo de Ogum) e até certa dose de eletrônica (Boa tarde, povo) dentro de uma linguagem desconcertante e ainda assim atrativa.

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Pullovers

#17. Pullovers
Tudo que eu sempre sonhei (2009, Independente)

Todo jovem que alcança a vida adulta deveria ser convidado a ouvir Tudo que eu sempre sonhei. Último trabalho em estúdio da extinta Pullovers, o álbum é uma coleção de temas sombrios, liricamente amargos, mas ainda assim, profundamente honestos sobre a maturidade. Dos versos realistas que inauguram a autointitulada faixa de abertura (“E por fim cresci, de insulto em insulto/ Eu me vi como um adulto/ Culto, pronto pra o que mesmo?/ Já nem sei”), ao teor de sobriedade que explora temas como amor, infância e tramas simples do cotidiano, cada música do registro extingue com autoridade qualquer traço de ilusão. A crueza realística, entretanto, não distorce o romantismo das vozes e arranjos, exercício que transforma músicas como O amor verdadeiro não tem vista para o mar em instantes de pura beleza pra a obra. Lidando com as melodias em um detalhamento autêntico, Luiz Venâncio, cantor e principal compositor do álbum, faz de cada música um objeto de confissão. Canções tão íntimas do artista, como do desespero que ocupa o cotidiano de qualquer jovem adulto.

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#16. Hurtmold
Mestro (2004, Submarine)

Um passeio por qualquer centro urbano, sem escapar da imersão dos fones de ouvido. Assim é Mestro, terceiro registro em estúdio e obra mais complexa já apresentada pelo coletivo paulistano Hurtmold. Manipulado pelas experiências climáticas do Pós-Rock, o registro usa de cada faixa como um plano específico, sem necessariamente romper com a verve atmosférica que caracteriza toda a composição do trabalho. Menos experimental que Et-Cetera (2000), e muito mais conciso que o esparso Cozido (2002), o álbum encontra no cruzamento entre as guitarras de Mário e Fernando Cappi com a bateria de Maurício Takara a matéria-prima para o crescimento do disco. Sem pausas, o álbum encaixa cada canção como um complemento para a faixa seguinte, ambientando o espectador em um cenário rodeado por paredes acinzentadas e experiências que vão do Jazz (Amarelo É Vermelho) ao doce cruzamento de essências eletrônicas (Miniotario). Todavia, a complexidade do registro de forma alguma inviabiliza a chegada do ouvinte, que aos poucos é arrastado para o cenário de transições herméticas que o grupo orquestra com plena precisão.

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#15. Charme Chulo
Charme Chulo (2007, Independente)

Passado e presente; rock e música caipira; urbano e rural. São tantos os contrastes dentro do álbum de estreia da curitibana Charme Chulo, que é praticamente impossível encontrar um ponto de neutralidade. Movido pelas confissões e vocais exageradamente dramáticos de Igor Filus, vocalista da banda, o projeto amarra o que parece ser a ponta solta entre o Pós-Punk inglês dos anos 1980, e o sertanejo de raíz que começou a se aproximar das rádios na mesma época. Entre Mazzaropis, polacas e amores de botecos, o disco mostra que entre a poesia de Morrissey e os lamentos de Chitãozinho e Xororó pouco existe de diferente. Pontuado pela viola de Leandro Delmonico, o disco segue em uma métrica ascendente, ainda que melancólica, estímulo para aquilo que A Caminho Das Luzes Essa Noite, Solito a Reinar e demais faixas do disco assumem de forma sempre inteligente e autoral. Sem medo de aproximar gêneros e tendências tão distintas, o disco fixa na coerência – lírica e instrumental – uma obra que não é parte do rock, nem do sertanejo, mas que passeia por uma trilha totalmente particular.

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Cidadão Instigado

#14. Cidadão Instigado
E O Método Túfo De Experiências (2005, Independente)

A cearense Cidadão Instigado nunca percorreu um caminho muito regular dentro da composição que vem desenvolvendo desde o começo da década de 1990. Entretanto, ao apresentar o esquizofrênico E O Método Túfo De Experiências, em 2005, o universo de referências instáveis do grupo comandado por Fernando Catatau se expandiu ainda mais. Dissolvido entre a música brega dos anos 1970, e a psicodelia que desembarcou em solo brasileiro no mesmo período, o trabalho faz de cada música um objeto de conflito e ainda assim confissão. De um lado, músicas como Te Encontra Logo… e O Tempo, capazes de derramar todo o romantismo que ocupa os instantes da obra. No outro oposto, a poesia particular de Catatau, que converte faixas como Os Urubus Só Pensam Em Te Comer e O Pinto De Peitos em verdadeiros delírios musicados. No meio da obra, experimentos, sons e versos que circulam em um redemoinho nonsense, como uma representação específica e ainda assim aleatória das referências que abastecem cada integrante da banda.

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Los Hermanos

#13. Los Hermanos
Bloco do Eu Sozinho (2001, Abril Music)

Uma obra de ruptura. Por mais exagerada que seja a reação dos fãs sobre o clássico Bloco do Eu Sozinho, com o segundo registro em estúdio o Los Hermanos não apenas lançou um trabalho que reinventava a recente carreira, como produzia um dos discos mais expressivos da década de 2000. Flertando com o samba, ao mesmo tempo em que firmava a relação com o rock da década de 1990, o álbum converte cada uma das 14 faixas do disco em canções de (des)amor. Por vezes capaz de aceitar a condição proposta (Assim Será e Adeus Você) ao mesmo tempo em que mergulha em um oceano de dor (Sentimental) e desespero (Tão Sozinho), o disco divide os sentimentos em incontáveis percursos, retrato lógico de qualquer sujeito desnorteado passado o fim de uma intensa relação. Base para grande parte dos trabalhos que o grupo viria a lançar – bem como a obra mais influente da safra de artistas que viriam logo em sequência -, o álbum, ainda hoje, permanece como um dos melhores exemplares no que há de mais doloroso e criativo na música brasileira.

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Ludovic

#12. Ludovic
Servil (2004, Teenager In Box)

Poucas obras carregam tamanho desespero em suas faixas quanto Servil. Álbum de estreia da banda paulistana Ludovic, o disco encontra nas confissões escancaradas de Jair Naves a abertura para um território turbulento, dramático, mas acima de tudo honesto. Típico álbum de pós-relacionamento, o trabalho está longe de seguir o mesmo percurso óbvio de outras obras do gênero, sustentando no desgaste (físico e emocional) de sua principal voz, a construção de um cenário particular, mas nunca distante do ouvinte. Caminhando por um percurso que beira a esquizofrenia, Naves entrega ao espectador faixas como Você Sempre Terá Alguém a Seus Pés, CVV e Vane, Vane, Vane, composições capazes de discutir suicídio e amor em uma proximidade naturalmente assustadora, sufocante. A instrumentação dividida entre a sobriedade do Pós-Punk (Joy Division) e a crueza do Hardcore (Blackflag), em poucos instantes corrói os ouvidos do público, alimentando ainda mais a proposta exaustiva que tenta sustentar o trabalho. Base para o que seria aprimorado em Idioma Morto (2006), Servil é ainda hoje um dos retratos mais dolorosos do que ocupa a mente e os sentimentos de um indivíduo de coração partido – ou dilacerado.

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Astromato

#11. Astromato
Melodias de Uma Estrela Falsa (2001, Midsummer Madness)

Habitante de um universo próprio, a campineira Astromato sempre pareceu seguir um caminho isolado em relação ao rock nacional. Mesmo quando posicionada dentro cena independente, o grupo resolveu trocar os versos em inglês, comuns na época, por boas canções em português, princípio para a arquitetura sutil que esculpe todo o cenário lírico de Melodias de Uma Estrela Falsa – primeiro e único disco de estúdio da banda. Íntimo de todo o conjunto de grupos brasileiros inclinados a brincar com o Guitar Rock – caso de Pelvs, Valv e tantos outros projetos hoje extintos -, o quarteto fez do primeiro álbum uma solução de faixas simples, porém, capazes de ressaltar os sentimentos mais honestos de qualquer ouvinte. São músicas pontuadas pela pós-adolescência, algo que No Macio, No Gostoso e Canção do Adolescente tratam com pura jovialidade. As melodias brandas, e ainda assim sujas, são parte fundamental do disco, que encontra em músicas como Só Não Sabe Disso e Sonhos De Alta Definição uma comunicação direta com grupos como Teenage Fanclub e Weezer. A influência, entretanto, está longe de ocultar a originalidade do grupo, que mesmo ao extinguir a própria atuação em 2002, deixou para trás um dos exemplares mais significativos que o rock brasileiro pode proporcionar nos anos 2000.

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[30-21] [10-01]

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