Os 100 Melhores Discos Nacionais dos Anos 2000 [30-21]

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Macaco Bong

#30. Macaco Bong
Artista Igual Pedreiro (2008, Independente)

Ponto de aprimoramento de uma sequência de músicas acumuladas desde o começo dos anos 2000, Artista Igual Pedreiro reflete boa parte da produção instrumental brasileira no início do novo século. Herdando elementos claros do trabalho de bandas como Mogwai e Tortoise, mas sem se desprender da essência regional, o álbum de estreia da banda cuiabana Macaco Bong traz no experimento o impulso para uma obra que cresce de maneira assombrosa durante mais de uma hora de duração. Rápido, cru e ainda assim essencialmente detalhista, o álbum funciona como uma espécie de catálogo involuntário, trazendo desde músicas apresentadas no começo da carreira do grupo, até canções marcadas pela novidade. Fundamental, o registro se divide de forma pouco convencional entre as guitarras de Bruno Kayapy, a bateria de Ynaiã Benthroldo e as densas linhas de baixo de Ney Hugo, que vão do pleno compartilhamento de ideias a instantes em que parecem duelar pelas canções.

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Romulo fróes

#29. Rômulo Fróes
No chão, sem o chão (2009, YB)

A dualidade de No chão, sem o chão, terceiro álbum solo de Rômulo Fróes, é apenas um princípio de abastecimento para o universo torto que o músico busca proclamar. De um lado, a composição obscura do samba paulistano, no outro, a crueza ponderada do rock alternativo, exercício assumido por Fróes desde a estreia solo com Calado (2004). Ainda que tratado em uma divisão exata – marcado pelas metades Primeira Sessão: Cala Boca Já Morreu e Segunda Sessão: Saiba Ficar Quieto -, o contexto dual da obra aos poucos se confunde. São tapeçarias ruidosas que brincam com o suingue, ou mesmo personagens caricatos que dançam pelo sombreado perturbador imposto pelo músico. Faixas como Pierrô Lunático e A Anti-Musa que até parecem moldadas para o público médio, mas aos poucos mergulham na esquizofrenia autoral que sustenta o disco. No meio do turbilhão que caracteriza a obra, nomes como Mariana Aydar, Nina Becker e Curumin passeiam livremente pelas canções, como parte do retalho aleatório de ideias esparramadas por Fróes.

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Nação Zumbi

#28. Nação Zumbi
Nação Zumbi (2002, Trama)

Ainda que Rádio S.Amb.A. (2000) tenha revelado uma banda autêntica, distante da sombra de Chico Sciene, é com o autointitulado disco de 2002 que a Nação Zumbi “renasceu” de fato. Sóbrio e assumindo uma relação muito mais expressiva com o Rock Alternativo do que com o Mangue Beat, o álbum é ao mesmo tempo um ponto de desconstrução e reforço da essência do grupo pernambucano. Com produção assinada de forma coletiva, por toda a banda, o disco afasta o projeto do teor orgânico da década de 1990, dando ao álbum um toque muito mais denso e ruidoso. Longe do tempero psicodélico, a guitarra de Lucio Maia predomina em toda a obra, alicerçando verdadeiro paredões de ruídos que batem de frente com a voz robótica de Jorge Du Peixe. Tendo na percussão um elemento de centro, músicas como Mormaço, Blunt Of Judah e Propaganda partem diretamente para cima do ouvinte, fazendo do alinhamento agressivo da obra o novo grito da Nação Zumbi.

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Domenico

#27. Domenico+2
Sincerely Hot (Ping Pong)

Segundo registro da parceria entre Moreno Veloso, Alexandre Kassin e Domenico Lancelotti pelo projeto +2, Sincerely Hot trouxe na combustão de sons propostos pelo baterista Domenico um contraponto à calmaria ministrada em Máquina De Escrever Música (2000). Sustentado em cima de uma arquitetura eletrônica, guitarras experimentais e uma temática que se adorna pela década de 1970, o disco assume nos versos um misto de ironia e erotismo, efeito que preenche com acerto cada uma das canções derramadas pelo disco. Recheado pelo suingue e passagens excêntricas pelo Funk, o álbum esquenta nas batidas de Te convidei pro samba, fragmenta o samba na faixa título até respirar na calmaria de músicas como Despedida e Solar. Contando com a participação de Caetano Veloso, Marisa Monte, Jorge Mautner, Lenine e um grupo seleto de convidados, o disco muda de rumo a cada nova composição, indo do Soul nostálgico em Felizes ficaremos na Estrada até a bossa nova em Telepata.

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Kompakt

#26. Gui Boratto
Chromophobia (2007, Kompakt)

Em um ano dominado por gigantes da música eletrônica – Burial, LCD Soundsystem, Justice -, é do paulistano Gui Boratto uma das obras mais desafiadoras do gênero: Chromophobia. Interpretação particular do Minimal Techno acumulado desde a década de 1990, o disco usa de uma solução inteligente de texturas e inventos sintéticos de forma guiar o espectador durante toda a construção do álbum. São beats que escapam da composição redundante do gênero, esbarram em sintetizadores e quebram os limites da obra em um catálogo de essências que vão do introspectivo ao dançante. Lançado pelo selo alemão Kompakt, o disco trouxe na relação com outros artistas próximos – caso de Gas e The Field – um estímulo, mas nunca uma continuação. No meio do jogo de experimentos testados pelo produtor – evidente em Gate 7 e The Blessing -, sobra espaço para o brilho pop de Beautiful Life, a delicadeza de Scene 1 ou mesmo o toque abstrato de Xilo. Uma obra construída inteiramente em cima de detalhes.

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Supercordas

#25. Supercordas
Seres Verdes Ao Redor (2006, Trombador)

Seu cérebro vai derreter. Condensando quase quatro décadas de inventos psicodélicos e experiências marcadas pela lisergia, Seres Verdes ao Redor, obra que apresentou oficialmente o Supercordas, é um verdadeiro delírio. Ainda que a essência de grupos veteranos como Os Mutantes e Clube da Esquina esteja estampada nas canções do grupo, é no teor bucólico próprio da banda, que o trabalho cresce. Com o subtítulo de “música para samambaias, animais rastejantes e anfíbios marcianos”, o registro é um passeio por um terreno úmido e fértil, uma charneca criativa como uma das primeiras canções logo entrega. Íntimo do rock rural, mas não necessariamente imerso em um ambiente confortável, o álbum se modifica a todo o instante. São emanações puramente melódicas (Ruradélica), doses condensadas de nostalgia (Frog Rock) ou mesmo instantes de puro experimento (Sobre o Calor). O ecoar de sapos e sons orgânicos por toda a obra expande ainda mais a percepção de que não se trata apenas de um disco, mas um espaço aberto para qualquer visitante.

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Mundo Livre S/A

#24. Mundo Livre S/A
Por Pouco (2000, Abril Music)

Safado. Livre da composição regional/conceitual que abasteceu a trinca Samba Esquema Noise (1994), Guentando a Ôia (1996) e Carnaval Na Obra (1998), Fred Zero Quatro fez de Por Pouco uma obra de forte aproximação com o público. Tão logo tem início, o trabalho cai no suingue maroto de Mistério de Samba, composição que parece orientar toda a arquitetura leve proposta para o disco. Feito para dançar, o álbum firma na trinca Mexe Mexe, Melô da Musa e Treme-Treme um cruzamento de sons e vozes que jamais extingue a capacidade do cantor em fisgar o ouvinte. São canções de fácil assimilação, tramas eróticas e versos simples que encaixam com acerto no groove quente do álbum. Com uma aproximação muito maior com o samba do que a base prévia do Mangue Beat, o registro desfoca o passado da banda de forma a aproximar o grupo de um cenário de novidades. De composição ensolarada, Por Pouco sai da praia para mergulhar de vez nos ouvidos do espectador.

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#23. Otto
Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009, Independente)

O amor e a falta dele são discutidos de inúmeras maneiras no decorrer de Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, quarto e mais intenso registro em estúdio do pernambucano Otto. Consumido pela dor por todos os cantos, o disco retrata o esforço do compositor em se reerguer após o falecimento da mãe e a separação da ex-mulher, a atriz Alessandra Negrini. Dentro desse cenário temperado pela saudade e a ausência, Otto solidifica os versos de algumas das mais dolorosas criações da recente fase da música brasileira. Surgem assim faixas como O Leite (em parceria com a cantora Céu), a regravação necessária do clássico Lagrimas Negras (de Jorge Mautner), além da sobriedade do brega Saudade. Entretanto, nenhuma das canções igualam o caráter amargurado e descomunal de 6 Minutos, um rock denso que converte em versos todos os acontecimentos de um caso de amor que não deu certo. Uma história que bem se relaciona com as próprias promessa do cantor e a ex-mulher, mas capaz de se relacionar com a triste história de qualquer ouvinte.

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Wado

#22. Wado
Terceiro Mundo Festivo (2008, Independente)

Brazillian Eletro / Funk / Disco / Reggaeton / Afoxé“. Os gêneros instalados na capa de Terceiro Mundo Festivo anunciam: a proposta de Wado com o quarto disco solo seria outra. Além do tradicional passeio pelo Samba Rock com pitadas de Pop, ao alcançar o disco de 2008, o músico alagoano deu início a uma das fases mais importantes da carreira. Brincando com o conceito de resgatar elementos das periferias – do Brasil ou de outros países de terceiro mundo -, o compositor encontrou um cardápio ainda mais rico de referências a serem testadas e expostas ao público, efeito claro na estrutura de Reforma Agrária do Ar ou no clima acalentado de Fortalece Aí. Musicalmente amplo, o disco prende com entusiasmo ainda maior no que tange a construção dos versos. Ora entregue ao romantismo (Melhor), ora provocante (Teta), Wado parece romper em completude as pequenas doses de timidez até então instaladas nos primeiros discos, definindo o álbum como uma obra carregada de verdadeiro suingue e um curioso clima dançante que se espalha com leveza até o fim da obra. Disponível para download gratuito no site do cantor, o álbum trouxe no formato SMD e no custo de R$5,00 uma alternativa para baratear custos e chegar de forma expressiva até o público.

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Violins

#21. Violins
Tribunal Surdo (2007, Monstro Discos)

Estupro. Violência. Assassinato. Libertação. Polícia. Mentira. Política. Roubo. Espancamento. Sexo. Vergonha. Medo. Negros. Brancos. Confissão. Ladrões. Putas. Deficientes. Homossexuais. Amor. Grito. Escravidão. Silêncio. Explosão. Angústia. Desprezo. Morte. É difícil atravessar Tribunal Surdo, obra mais complexa da  goiana Violins, sem se sentir atingido pela massa de versos disparados por Beto Cupertino, vocalista da banda. Ainda mais intenso que o anterior Grandes Infiéis, de 2005, o álbum contorna a obviedade de outros registros do rock nacional de forma a provocar o espectador durante todo o tempo. São pequenas crônicas transformadas em música, proposta obsessiva que esmaga a mente do ouvinte sem qualquer dificuldade. Intencionalmente agressivo, o álbum parece feito para provocar o senso crítico do espectador, lentamente atraído para dentro do jogo cinza de sons e vozes que delimitam a obra. Um conjunto de faixas quase jornalísticas (Grupo de Extermínio de Aberrações), cruas (Campeão Mundial de Bater Carteira) e sempre desafiadoras (Missão de Paz na África), como se como se a relação entre o pop e o teor crítico dos versos fosse encarada em um pleno sentido de igualdade. Essencial.

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