Os 100 Melhores Discos Nacionais dos Anos 2000 [70-61]

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Marcelo Camelo

#70. Marcelo Camelo
Sou (2008, Zé Pereira)

O detalhamento acústico exposto em 4 (2005), último registro em estúdio do Los Hermanos, parecia anunciar parte do que Marcelo Camelo traria em carreira solo. Um ano depois de anunciado o “recesso por tempo indeterminado” do quarteto carioca, o cantor e compositor embarcava na leveza de Sou, obra que trouxe na completa delicadeza dos arranjos e vozes o princípio para os inventos autorais do músico. Acompanhado do coletivo paulistano Hurtmold, Camelo se divide entre o resgate de composições inéditas e velhas conhecidas – caso de Santa Chuva, gravada inicialmente por Maria Rita, ou Liberdade, que há tempos circulava em versão demo pela internet. De timidez evidente, o registro encontra na calmaria dos elementos a base para aquilo que Passeando, Mais tarde e demais canções do registro sustentam com aproximação até o último instante. Mesmo nos momentos de mais euforia, como em Copacabana, tudo se comporta em uma estrutura branda, princípio para aquilo que Janta, colaboração com a (hoje) esposa Mallu Magalhães, revela como uma das passagens mais acolhedoras da obra.

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Idem

#69. Móveis Coloniais de Acaju
Idem (2005, Independente)

Feijoada Búlgara”, este foi o termo encontrado pela brasiliense Móveis Coloniais de Acaju para definir a sonoridade versátil incorporada pelo grupo. Com um pé nos ritmos do Leste Europeu, e outros tantos apoiados em gêneros como Ska, Rock, Pop e Art Rock, o imenso coletivo fez do álbum de estreia, Idem, o empurrão necessário para a transformação da cena nacional na segunda metade dos anos 2000. Primeiro grande lançamento pós-Los Hermanos – na época lançando o derradeiro 4 -, o disco, embora impulsionado pela sonoridade do grupo carioca, foi de encontro a um novo jogo de possibilidades – principalmente líricas. As letras marcadas pela ironia, temas cotidianos e a sobreposição dinâmica das palavras fizeram o público literalmente dançar. São músicas como Copacabana, Perca Peso e Seria o Rolex?, canções que serviram para delinear toda a construção estética do grupo, bem como transformar as apresentações ao vivo do grupo em eventos sempre cobiçados. Com assinatura do produtor Rafael Ramos (Pitty, Raimundos), o disco cresce até a última faixa, trazendo na soma de metais e a voz firme de André Gonzales um dos recortes mais assertivos (e intensos) da última década.

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Pública

#68. Pública
Polaris (2006, Mondo 77)

Quase uma década desde a explosão do Britpop, os gaúchos da Pública transformaram o debut Polaris não apenas em exemplo nacional do que fora construído em solo inglês, mas em um arsenal de criações tristes, perfumadas pela dor. Embora se relacione de forma intensa com sentimentos nostálgicos que passeiam pela infância e outros retratos pós-adolescentes, é no amor e na saudade de novos adultos que o disco cresce substancialmente. Com um toque leve de psicodelia, pianos e um instrumental cuidadoso que banha todo o álbum, o debut faz de boa parte das canções em seu interior um reduto de melancolia (Precipício), paixões que não deram certo (Tuas Fotos), e uma tentativa falha de tentar sobreviver a tudo isso. Mais comercial e talvez melhor exemplo de tudo que se desenvolve pelo trabalho está no hit Long Play, canção que trata justamente da separação e a relação musical entre um casal.

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Cordel

#67. Cordel Do Fogo Encantado
Cordel Do Fogo Encantado (2001, Independente)

A proposta da Cordel do Fogo Encantado pode até ter nascido das cinzas da cena Mangue Beat no final dos anos 1990, mas os rumos assumidos pela banda de Arcoverde acabaram se revelando outros. Nascido de um espetáculo que misturava poesia, teatro, música e referências regionais, o projeto comandado por José Paes de Lira, o “Lirinha”, foi além de um conjunto resumido de poucos atos. Acompanhados do músico/produtor recifense Naná de Vasconcelos, o coletivo fez do primeiro álbum de estúdio a construção de um dos trabalhos mais curiosos da música brasileira recente. Puxado pelo manuseio coeso da percussão – assinada por Emerson Calado, Nego Henrique e Rafa Almeida -, o álbum se espalha por entre personagens, “causos” e as melodias orgânicas do violonista Clayton Barros. Como verdadeiras canções de invocação (Chover) e faixas marcadas pelo detalhamento teatral (Antes dos Mouros), criaturas mitológicas e seres místicos atravessam o trabalho, transformando o conjunto de faixas em um verdadeiro espetáculo em estúdio.

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#66. De Leve
O Estilo Foda-se (2003, Sony)

O deboche é a principal ferramenta do carioca De Leve em toda a extensão de O Estilo Foda-Se. Bem humorado e ácido até o último instante, o rapper orquestra na construção do primeiro disco solo uma estrutura distinta ao que abastecia o gênero até o presente momento – pelo menos na cena nacional. Ironizando a Industria Fonográfica e incentivando a pirataria, o disco traz logo na faixa de abertura, Prá Bombá No Seu Estéreo, um prelúdio das polêmicas que viriam a caracterizar a atuação do carioca mesmo nos lançamentos seguintes. Entre exageros alcoólicos (Caipirinha Man), rimas de provocação machista (Menstruação) e versos que não poupam nem a si próprio (Essa É Pros Amigos), o disco incorpora no discurso provocativo um sustento que se mantém criativo para além das rimas, costurando diálogos cômicos por todo o disco e uma base instrumental nunca limitada. Bem recebido, o álbum encontraria mais tarde uma espécie de continuação no também sarcástico Manifesto ½ 171 (2006).

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Ludov

#65. Ludov
O Exercício das Pequenas Coisas (2005, Deckdisc)

A boa repercussão em torno do EP Dois a Rodar, de 2003, garantiu ao Ludov um lugar de destaque dentro do Pop-Rock nacional. O uso coeso de boas melodias, a voz densa de Vanessa Krongold e o teor melancólico das líricas se posicionaram como uma verdadeira base para aquilo que O Exercício das Pequenas Coisas, estreia definitiva do grupo paulistano, traria de forma ainda mais atenta em poucos anos. Cruzando sintetizadores e guitarras em uma atmosfera de descompromisso, o álbum é a morada de canções sempre tratadas com delicadeza, caso de Dorme Em Paz, Kriptonita e Sete Anos – esta última assumida pelos vocais acolhedores de Mauro Motoki. Atento ao que escapava da cena estrangeira, porém, íntimo de todas as emanações que alimentavam a música nacional da época, o registro se acomoda em uma atmosfera de plena leveza e intimidade com o ouvinte – resultado das letras confessionais que recheiam todo o trabalho. Ainda que o disco não tenha transformado o grupo em um novo gigante do pop nacional, a estreia da Ludov trouxe ao quarteto um time seleto de seguires e uma das obras mais queridas da cena independente.

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Fabio Góes

#64. Fabio Góes
Sol No Escuro (2007, Phonobase)

Fabio Góes atravessou parte da década de 1990 e começo dos anos 2000 atrás das cortinas da produção nacional. Responsável pela trilha sonora de filmes como Abril Despedaçado e Cidade de Deus, o compositor paulistano fez da leveza dos arranjos e o toque climático (típico das películas) um princípio de orientação estética para o primeiro álbum solo: Sol No Escuro. Assumindo um percurso de oposição aos clichês e fórmulas prontas da MPB, o disco que se dissolvem entre a sutileza dos arranjos e a confissão dos versos, exercício que pontua de forma amigável a construção atmosférica de todo o registro. Todavia, longe do enclausuramento que a faixa de abertura busca solucionar e Sem Mentira assume com profunda beleza, Góes utiliza da obra como um exercício de fragmento da própria identidade. Colecionando passagens pelo Hip-Hop (Estatística), Samba (Automatico) e Jazz (Sun of your eyes), o músico faz do registro uma obra tão vasto quanto concisa.

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Pato Fu

#63. Pato Fu
Toda Cura Para Todo Mal (2005, Rotomusic)

Lançado em 2005, depois do bem recebido MTV Ao Vivo (2002), e do nascimento da filha de John e Fernanda, Toda Cura Para Todo Mal é uma obra de mudanças evidentes dentro dos conceitos e da estrutura que o Pato Fu. Além da inclusão do tecladista Lulu Camargo (Ex-Karnak) como novo integrante, o registro, gravado em totalidade no estúdio 128 Japs, de Ulhoa, trouxe o grupo de volta à “independência”. Apresentado pelo selo Rotomusic, da própria banda, e com distribuição da Sony BMG, o projeto autorizou um maior controle do grupo sobre a própria obra, amenizando experimentações e uma reformulação do pop assumido desde Isopor (1999). Como resultado, a banda faz nascer desde faixas marcadas de forma declarada pelo teor radiofônico (Anormal), até canções movidas em totalidade pelo experimento (Simplicidade, O que é isso). Essencialmente coeso, o disco, pela primeira vez na carreira do grupo, evidencia um jogo de interferências tratadas em proximidade. São faixas como Vida Diet, No Aeroporto e Boa Noite Brasil que mantém na relação entre os instrumentos e versos pontuados por temas cotidianos um ponto de evidente maturação no repertório do grupo. Com referências à série em quadrinhos Peanuts (em Amendoim), além de uma homenagem à Roberto e Erasmo Carlos (Agridoce), TCPTM é um disco pensado para além das faixas, efeito explícito no DVD lançado no ano seguinte com todas as canções do disco apresentadas em clipes.

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Parteum

#62. Parteum
Raciocínio Quebrado (2005, Trama)

O Hip-Hop sempre fez parte da vida do paulistano Fabio Luiz, o Parteum. Irmão de Rappin’ Hood, e um dos integrantes do coletivo Mzuri Sana, o rapper fez do primeiro trabalho em carreira solo um princípio de discussão particular sobre os mais variados desmebramentos da vida urbana. Com referências que esbarram no trabalho do escritor Julio Verne, Parteum faz de Raciocínio Quebrado a construção de um universo quase particular, mas não menos realista, matéria-prima para a delimitação temática de faixas como Épocas de Épicos e Tudo Que Ainda Pode ser. Esculpido com precisão, cada música do registro abre espaço para um verdadeiro conjunto de samples e colagens instrumentais, premissa que rompe de forma definitiva com o caráter demasiado “simplista” de outras obras relacionadas ao gênero. Sem ordem aparente e tratando de diferentes aspectos político-sociais-culturais, Parteum sustenta até o último momento um disco que mais parece um passeio pelas ruas de São Paulo – ou mesmo além dela.

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Pelvs

#61. Pelvs
Anotherspot (2006, Midsummer Madness)

Adepta dos grandes intervalos entre um lançamento de estúdio e outro, a carioca Pelvs fez do quarto álbum da carreira um resgate atento de toda a discografia prévia da banda. Passando por elementos que vão do debut Peter Greenaway’s Surf (1993) ao jogo ensolarado de Peninsula (2000), Anotherspot reforça o quanto o tempo se manifesta como um mecanismo favorável ao crescimento do coletivo. Do movimento cuidadoso de Baby Of Macon, passando pela aceleração de Indian Maracas aos recortes melódicos de Beans Can’t Clap e Tupiguarani, cada música é tratada como um mecanismo isolado dentro do disco, o que reforça o detalhamento e a especificidade das harmonias testadas pela banda. Leve, o álbum passeia pela essências de grupos como Teenage Fanclub e outros veteranos da década de 1990, substituindo a curta duração das faixas, por arranjos extensos, quase próximos do Pós-Rock. Menos caseiro que os primeiros discos do grupo, o álbum encontra no detalhamento das vozes e sons um componente fundamental para conduzir o ouvinte até os momentos finais da obra.

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[80-71] [60-51]


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