Os 100 Melhores Discos Nacionais Dos Anos 2000 [80-71]

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brincando de deus

80. brincando de deus
brincando de deus (2000, Independente)

Enquanto a Bahia se preparava para a explosão da Axé Music, no começo dos anos 1990 os membros da brincando de deus pareciam seguir por uma direção completamente oposta ao que dominava a cena local. Em uma época em que o termo “música independente” ainda se organizava como uma ideia na cabeça de músicos e produtores nacionais, o quarteto baiano resolveu seguir por conta própria, sustentando uma das discografias mais singulares do rock brasileiro. Depois do lançamento de Better When You Love (Me), em 1995, o coletivo voltou em 2000, transformando o novo álbum em uma coleção de ruídos e emanações atentas ao guitar rock de diferentes épocas. Cruzando essências que vão do Post-Punk ao Shoegaze, o álbum praticamente se desfaz em meio a músicas como Clap Your Hands e O Livro de Rilk, canções que travam nos versos em inglês e português toda a diversidade conceitual que sustenta a produção do disco. O típico caso de um disco que seria imediatamente tachado como clássico se fosse lançado primeiro fora do país.

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Frank Ocean

79. Frank Jorge
Carteira Nacional de Apaixonado (2000, Independente)

Frank Jorge talvez seja um dos personagens mais importantes do rock nacional. Parte de algumas das bandas que mudaram a história da cena gaúcha nos anos 1980 (Os Cascavelletes) e 1990 (Graforréia Xilarmônica), no começo dos anos 2000 o cantor e compositor deixou parcialmente os projetos coletivos para investir com atenção em sua carreira solo. Primeiro capítulo da série de obras que ocupariam parte do mesmo período, Carteira Nacional de Apaixonado trouxe na formação das guitarras e vozes um inevitável regresso da Jovem Guarda. Com letras marcadas por boas melodias e versos íntimos da música pop, Jorge transformou Nunca Diga, Serei Mais Feliz e demais faixas do álbum em algumas das canções mais lembradas da cena musical da época. Lidando com o romantismo – escancarado no título da obra -, o trabalho segue até o último instante em um jogo assertivo de confissões e letras tão pegajosas que basta uma audição para o disco fazer efeito.

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Wry

78. Wry
Flames In The Head (2005, Monstro)

O Wry pode até ser um grupo sorocabano formado no começo da década de 1990, mas a essência da banda sempre esteve apontada para fora do país. Inspirada pelo trabalho de veteranos como The Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine e U2, a banda fez da série de registros uma coleção de referências íntimas do rock britânico de diferentes fases. Dos anos 1980 veio o a relação com o pós-punk e o shoegaze, enquanto da década seguinte borbulharam as emanações do Britpop e toda a overdose do rock alternativo. Dentro desse jogo de encaixes e colagens de referências nasceu Flames In The Head, terceiro registro em estúdio da banda, e um dos exemplares mais furtivos do rock nacional. Com canções amarradas pelos ruídos, o álbum segue até a última faixa em uma cadeia ascendente de vozes, acordes e distorções, cruzamento para a formação de músicas soturnas (Cancer), como de faixas essencialmente aceleradas (In the Hell of my Head).

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Pipodélica

77. Pipodélica
Simetria Radial (Baratos Afins)

O fascínio pelos sons inaugurados nas décadas de 1960 e 70 servem como base para uma centena de bandas, entretanto, poucos sabem como olhar para o período com verdadeira atenção e ainda encontrar nele novidade. Registro de estreia da banda catarinense Pipodélica, Simetria Radial traz no manuseio coeso das vozes e guitarras um sentido de invenção. Influenciado pela obra de grupos como Pink Floyd, The Beatles e Secos & Molhados, o álbum representa em 14 faixas uma busca assumida por reviver e ainda assim transformar marcas específicas do passado. São guitarras que dançam pela psicodelia (João Ninguém e o Quadro Novo), sons capazes de revigorar o rock clássico (Meio Sem Fim) e todo um arsenal de experimentos encaixados em um doce conforto pop. Com produção cuidadosa e versos de apelo radiofônico, o trabalho praticamente suga o ouvinte para um vórtice de sensações e sons flutuantes.

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76. Luisa Mandou Um Beijo
Luísa Mandou Um Beijo (2005, Independente)

A leveza habita cada instante da estreia do Luísa Mandou Um Beijo. Cruzando líricas nonsenses, arranjos que tendem ao jazz, samba e pop, o coletivo carioca fez do primeiro registro da carreira um delicioso passeio musical pelo Rio de Janeiro. De fluidez jovial, o álbum abre espaço para que solos de trompetes e a voz doce de Flávia Muniz cresça de forma ilimitada, princípio para aquilo que Maracanã, Anselmo e Guardanapos, algumas da canções mais significativas da obra, revelem em um natural estado de graça. São personagens aleatórios, atos simples do cotidiano ou mesmo um ensolarado passeio à beira mar. Referências que talvez passassem despercebidas em uma simples caminhada pela rua, mas que edificam a imensa crônica musicada escolhida para delinear a obra. Do momento em que tem início, com Amarelinha, ao encerramento, em Hoje o Mar dançou no Céu, cada música do álbum sustenta um cenário tão próprio, quanto íntimo do cotidiano de qualquer ouvinte.

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Beto Só

75. Beto Só
Dias mais tranquilos (2008, Senhor F)

“Vida boa não é vida ganha”. O sóbrio refrão da faixa de abertura de Dias mais tranquilos guia em totalidade a composição de Beto Só. Obra mais coesa do cantor e compositor brasiliense, o registro é uma curiosa representação da melancolia que envolve seu criador, preferência naturalmente particular, mas que serve como estímulo para uma comunicação com o ouvinte. Manipulado pela dor, saudade e abandono, o álbum edifica uma sequência de versos que inevitavelmente aproximam o espectador do pranto honesto. Versos como os de Tão Tarde (“E você foi escolher alguém/ Pior do que eu era”) e O Espaço do Nada (“Tudo que eu nunca fiz/ Tudo que nunca vou ser”) que usam da voz arrastada do cantor como uma atmosfera sufocante. A tristeza, mais do que um mecanismo de confissão, aos poucos ruma para a liberdade, como se cada verso fosse um princípio para a verve esperançosa que habita em outras como Desatento e Abre a Janela.

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Wonkavision

#74. Wonkavision
Wonkavision (Independente)

Pop, pegajoso e ainda assim marcado pelo ineditismo das canções. Poucos registros lançados na última década parecem capazes de alcançar o mesmo detalhamento melódico que define o álbum de estreia da gaúcha Wonkavision. Produzido por John Ulhoa (Pato Fu), o debut de 12 faixas resgata toda a essência musical dos anos 1960/1970, indo do Power Pop (de grupos como The Replacements e Big Star) aos exageros plásticos da Jovem Guarda. O teor acessível das canções, entretanto, de forma alguma ecoa obviedade, trazendo no contraste entre a seriedade dos versos e a sutileza dos arranjos o principal mecanismo de crescimento para o disco. São faixas como Ei, Não é Por Mal, Comprimidos e Problemas que discutem aspectos cotidianos da vida adulta, subtraindo a seriedade natural dos temas por um conjunto de referências cantaroláveis, pop no melhor sentido da palavra. Além do bem instalado catálogo de versos, sintetizadores nostálgicos e guitarras diretas esculpem com propriedade toda a atmosfera do disco, arrastando o ouvinte para junto de um universo próprio, sustentado com acerto pela banda até o último e colorido acorde.

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Ecos Falsos

#73. Ecos Falsos
Descartável Longa Vida (2007, Independente)

Boas guitarras, vozes limpas e versos carregados de ironia. Em um ano extremamente produtivo para o rock nacional – com obras de Violins, Superguidis e Charme Chulo -, a estreia da paulistana Ecos Falsos veio ziguezagueando por um caminho completamente isolado. Com os ouvidos direcionados para a década de 1990, e versos que mais parecem um retrato (cômico) da vida dos novos adultos, Descartável Longa Vida é uma coleção de ideias sem começo, nem fim, mas que carece ser anunciada. Com vocais divididos entre os integrantes e instrumentos que mudam de direção a todo o momento, o caos se estabelece como um ingrediente natural para o trabalho. Um componente natural para que personagens fictícios (O Bom Amigo Inibié), canções de amor (Réveillon) ou versos carregados de bom humor (A Última Palavra em Fashion) se movimentem sem qualquer limite provável. A presença de veteranos como Tom Zé (A Revolta da Musa) e Fernanda Takai (Dois a Zero) torna esse resultado ainda mais curioso e completamente insano.

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Dexter

#72. Dexter
Exilado Sim, Preso Não (2005, Trama)

Entre as grades e as rimas, Dexter fez de Exilado Sim, Preso Não um dos retratos mais honestos do sistema penitenciário brasileiro. Produzido quando ainda cumpria pena em São Paulo e visivelmente inspirado pela temática dos Racionais MC’s – na obra-prima Sobrevivendo no Inferno (1997) -, o rapper se divide durante todo o percurso entre os blocos de uma prisão e tão esperada liberdade. Descritivo, o registro mantém a sobriedade do discurso como um ponto de movimento para as batidas e bases minimalistas do álbum. São colagens de pianos e beats secos que servem como orquestra para as tramas urbanas que o artista tece em cada faixa. A construção (em parte) pessimista dos versos, de forma alguma distancia Dexter do teor esperançoso das rimas, eixo que Fênix, na abertura do álbum, usa como traço guia até o encerramento da obra.

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Autoramas

#71. Autoramas
Stress, Depressão & Síndrome do Pânico (2000, Astronauta)

Depois de atravessar a década de 1990 esculpindo hits para bandas como Raimundos e Ultraje À Rigor, Gabriel Thomaz finalmente resolveu dar vida a um novo projeto autoral. Seguindo a trilha iniciada pelo Little Quail and The Mad Birds, o músico carioca e os parceiros Bacalhau (Bateria) e Simone (Baixo) abasteceram o primeiro álbum de estúdio do Autoramas: Stress, Depressão & Síndrome do Pânico. Colecionando retalhos que vão do Rock Clássico dos anos 1950 à explosão da Surf Music, o registro brinca com as melodias sem necessariamente romper com a sobrecarga proposital de ruídos. Tendo nas linhas de baixo sempre volumosas e flexíveis a arquitetura base para o movimento de cada música, Thomaz e os parceiros transformaram o disco em uma verdadeira morada de canções clássicas. Estão lá faixas pegajosas como Fale Mal de Mim, Ex-Amigo e Autodestruição, músicas que passeiam pela raiva e a ironia em uma estética que sustentaria toda a trajetória da banda.

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