Os 100 Melhores Discos Nacionais dos Anos 2000 [90-81]

Os 100 Melhores Discos Nacionais dos Anos 2000

[90-81]

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Bonde do Rolê

#90. Bonde do Rolê
With Lasers (2007, Domino)

A brincadeira com o Funk Carioca, o título inspirado em uma piada interna do Orkut e a verve cômica pareciam orientar a estreia do Bonde do Rolê como uma simples piada com prazo de validade. Entretanto, na contramão de outros projetos sarcásticos que nasceram e morreram em um curto período de tempo, a banda curitibana soube como aproveitar de forma inteligente os holofotes. Brincando com elementos que vão do Indie ao Axé, o trio paranaense – Rodrigo Gorky, Pedro D’Eyrot e Marina Vello – trouxe nos versos escatológicos um inevitável mecanismo de aproximação com o público. Com temas como Sexo (Divine Gosa, Marina do Bairro), Drogas (Dança Do Zumbi, Marina Gasolina) e até “Heavy Metal” (Bondallica), cada faixa espalhada pelo disco parece crescer em uma medida tão anárquica quanto comercial. Vencendo a barreira linguística, canções como Solta O Frango e Office Boy transformaram o grupo em um fenômeno breve nos festivais europeus, além, claro, um dos projetos mais divertidos da cena nacional.

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Lulina

#89. Lulina
Cristalina (2009, YB)

Depois de atravessar a década de 2000 em meio a lançamentos caseiros e obras quase particulares, Lulina resolveu transformar o primeiro registro oficial em uma natural aproximação com o grande público. Intitulado Cristalina, o álbum nada mais é do que um delicioso compilado de boa parte das canções construídas previamente pela artista. Velhas conhecidas como Meu Príncipe, Jerry Lewis e Sangue de ET que abandonaram de vez a composição Lo-Fi dos primeiros EPs e discos virtuais de forma a ecoar limpidez. No meio do jogo de composições essencialmente lúdicas, quase pueris em alguns aspectos, a amargura e o teor crítico da artista prevalecem de forma evidente, como se por traz da coleção de emanações sublimes, uma arquitetura soturna servisse como a real base lírica da cantora. Dentro desse jogo de contrastes, a pernambucana involuntariamente entrega um trabalho tão próprio, quanto do espectador.

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BDC

#88. Black Drawing Chalks
Life Is a Big Holiday for Us (2009, Monstro Discos)

O cheiro de cerveja barata se espalha por todas as composições de Life Is a Big Holiday for Us. Segundo registro em estúdio do grupo goiano Black Drawing Chalks, o álbum assume na vida desregrada, guitarras velozes e letras feitas para dançar a produção de um cenário totalmente específico da banda. Ora íntimo do Stoner Rock pavimentado na década de 1990, ora próximo dos arranjos que sustentaram a psicodelia dos ano 1970, o disco uso das canções de versos joviais, mulheres e drogas como uma natural metodologia de caracterização do disco. Muito mais “pop” que o registro antecessor, lançado em 2007, o álbum coleciona referências que mais parecem servir como um ponto de encontro para a aceleração do Motörhead e o toque melódico do Queens Of The Stone Age – principalmente no álbum Songs For The Deaf (2002). Com o hit My Favorite Way como música de abertura, a banda teria o caminho livre para que My Radio, Don’t Take My Beer e demais canções do disco pudessem crescer com segurança e versos ainda mais pegajosos.

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O som da moda

#87. Acabou La Tequila
O Som da Moda (Ping Pong)

Techno-Rock-Samba-Pop-Tropical-Brega-Experimental-Indie. Poucas vezes um disco conseguiu converter tamanha carga de referências em seu interior quanto O Som da Moda, disco “póstumo” do Acabou La Tequila. Arquivado desde o fim da década de 1990 e lançado anos após o fim do grupo carioca, o álbum é uma típica representação da colisão de gêneros que definiram o rock nacional dos anos 1990 e a curta passagem do grupo. Base para o o nascimento de projetos tão díspares quanto Matanza, Canastra, Orquestra Imperial e +2, o álbum brinca com as essências e ritmos sem necessariamente estabelecer um ponto específico de conforto. Natural extensão do projeto lançado em 1996, no autointitulado debut do coletivo, o disco traz nas vocalizações de Renato Martins o único ponto de estabilidade para a obra. No meio desse turbilhão, nomes como Kassin, Marco Donida, Nervoso e Léo Monteiro, além de um time amplo de convidados, se divertem na construção de faixas tão instáveis, quanto acessíveis. Músicas como King Fu, Ferina, Eu Era Pop e Tranquilo, que não apenas atiram em diferentes direções, como trazem nesse jogo de colagens aleatórias um estranho mecanismo de equilíbrio para o álbum.

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Constantina

#86. Constantina
Constantina (2005, Independente)

Quando formada em 2003 – por membros de diferentes bandas que circulavam pelos espaços alternativos de Belo Horizonte -, a mineira Constantina tinha como único objetivo a produção de faixas brandas, tocadas de leve por elementos da eletrônica. Com base no homônimo disco de estreia do coletivo, lançado em 2005, é possível dizer que o grupo não apenas cumpriu com seus objetivos, como presenteou o público com um tratado de evidente meticulosidade. Distante de outros nomes de peso do Pós-Rock nacional – caso de Hurtmold -, a banda foi em busca de uma sonoridade menos urbana, absorvendo assim uma arquitetura essencialmente bucólica. Com referências que passeiam pelo trabalho de  artistas estrangeiros como Sigur Rós e Goodspeed You! Black Emperor, cada música do álbum se dissolve em uma atmosfera aconchegante, como se histórias fossem contadas pelos instrumentos. Seja e meio a atos imensos (Santa Rosalia) ou canções “econômicas” (Porque Sim), um universo à parte se esconde em cada ato assinado pela banda.

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Piratão

#85. Quinto Andar
Piratão (2005, Tratore)

Seja independente ou morra. Em uma direção oposta ao que o Rap paulistano parecia assumir desde idos de 1980, Piratão, estreia do coletivo carioca Quinto Andar, trouxe na leveza e bom humor dos versos um ponto de distanciamento. Em atuação desde o fim dos anos 1990, o projeto trouxe na interferência de artistas como De Leve, Shawlin e DJ Castro a base para um dos projetos mais versáteis não apenas dentro do cenário carioca, mas de todo o Hip-Hop tupiniquim. Ainda que as rimas se distanciem de uma composição “social” como a imposta pelo Racionais MC’s e outros artistas de renome, a estrutura do álbum de forma alguma afasta o coletivo de um registro menos crítico. Com faxas que atiram em todas as direções, temas como pirataria, sexualidade e até outros membros da “classe artística” acabaram atingidos pelo grupo. Outro ponto de isolamento diz respeito à sonoridade do álbum, que entre passagens pelo reggae, dub e até texturas do Instrumental Hip-Hop, solucionou as bases de faixas como Melô do Piratão e Melô da Propaganda.

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Rockz

#84. Rockz
Disco’08 (2008, Independente)

Um passo no pós-punk da década 1980, outro no Dance Punk dos anos 2000. Um riff que dialoga com o rock clássico da década de 1970, sintetizadores que dançam pela pistas britânicas dos anos 1990. Do momento em que tem início (Colorbar), até alcançar a faixa de encerramento (O Amor É Uma Piada?), são tantas referências, gêneros e essências que definem a estreia do Rockz, que é praticamente impossível encontrar um único ponto de estabilidade. Em atuação desde a segunda metade dos anos 2000, a banda carioca fez da curta passagem e do primeiro álbum de estúdio uma das obras mais atuais e coesas do rock brasileiro. Franz Ferdinand? Bloc Party? The Strokes? Nada disso importa quando músicas como Essa Mulher e Ora Bolas! explodem nas caixas de som. Seja discutindo relacionamentos (Confesso Que Errei), ou apenas em busca de diversão (Nunca Me Diverti Tanto), Disco’08 passeia em meio a um universo de cores e sons que identificam de forma exata toda a estética e o caminho percorrido pelo rock nos anos 2000.

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Hurtmold

#83. Hurtmold
Hurtmold (2007, Submarine)

Três anos depois de aprimorar as próprias bases na composição urbana de Mestro (2004), a paulistana Hurtmold fez do autointitulado quarto álbum um explícito recomeço. Primeiro disco do grupo totalmente instrumental – os outros registros ainda contavam com rápidas vocalizações -, o trabalho de sete faixas trouxe em cada música um atento concentrado de texturas. A relação com a música brasileira em determinados momentos oculta a complexa tapeçaria jazzística de outrora, fazendo do álbum uma obra muito mais acessível do que qualquer trabalho prévio do grupo. A “simplicidade” da banda, entretanto, de forma alguma faz do registro um catálogo de faixas descartáveis, pelo contrário, há em cada canção um verdadeiro labirinto de essências. Enquanto músicas como Churumba e Sabo se escoram na década e 1970, outras como Halidjascar vão ainda mais longe, trazendo na multiplicidade de ingredientes um continuo ziguezaguear de preferências.

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Futura

#82. Nação Zumbi
Futura (2005, Trama)

Se ainda existia qualquer dúvida em relação à “credibilidade” da Nação Zumbi passada a morte de Chico Science, então Futura veio para enterrar isso de vez. Com produção assinada entre a banda e o canadense Scotty Hard (Björk, De La Soul), o álbum é um verdadeiro mergulho na sonoridade dos anos 1970, porém, sem perder a atmosfera “futurística” da banda. Com uma presença muito maior dentro da obra, Jorge Du Peixe deixa de orientar apenas a composição matemática dos vocais, trazendo nas letras e versos cíclicos referências que brincam com a temática Sci-Fi de diferentes escritores. Em proximidade com as guitarras de Lúcio Maia e o catálogo percussivo que acompanha a banda desde os anos 1990, o disco lida de forma curiosa com a sobreposição de ideias, tendência que aproxima o grupo pernambucano de todo um novo cenário de preferências. Com versos fáceis (Hoje, Amanhã e Depois) e arranjos funkeados (A Ilha), cada instante do álbum se sustenta de forma complementar, base para a psicodelia em preto e branco que se apodera da obra e puxa o espectador sem dificuldades para dentro dela.

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Walverdes

#81. Walverdes
Playback (2005, Mondo 77)

Uma porrada. Sem espaço para respirar e condensando guitarras em uma medida que praticamente agride o espectador, Playback explode como uma colagem dos ruídos que a gaúcha Walverdes vinha acumulando desde o fim da década de 1990. Ainda que a essência de grupos como Mudhoney, MC5 e The Stooges esteja impregnada em cada som entregue pelo grupo, bastam os instantes iniciais de Altos e Baixos, na abertura do trabalho, para perceber que pouco sobrevive dentro da massa de escombros arremessada pela banda. Emendando uma composição na outra, o trio estabelece uma verdadeira zona de (des)conforto, fazendo da obra um denso bloco ruidoso – praticamente inacessível. Aos comandos vocais de Gustavo Mini Bittencourt (guitarra e voz), Marcos Rubenich (bateria) e Patrick Magalhães (baixo) se revezam em uma atmosfera de plena desconstrução, como se toda a base acumulada pela banda em 90º (2000) e Anticontrole (2002) fosse tritura e parcialmente resgatada para a composição final do álbum. Da abertura ao fechamento, um registro que parece feito para esmagar os tímpanos do ouvinte.

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