Os 25 Melhores Discos de 2014 (Até Agora)

Os 25 Melhores Discos de 2014 Até Agora

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Depois de seis meses de boa repercussão dentro da cena alternativa – ou mesmo fora dela -, é hora de se preparar para a segunda remessa de discos que devem ocupar o disputado segundo semestre. Antes, porém, selecionamos os nossos trabalhos favoritos até aqui em mais um especial com os grandes lançamentos até o meio de ano: Os 25 Melhores Discos de 2014 (até agora). Para montar a nossa seleção, apenas trabalhos que já entraram na seção Melhores Discos, o nosso filtro com o grande registros musicais de cada temporada.

Como todos os anos, a escolha dos novos discos não afeta a nossa lista final – lançada em dezembro -, mas entrega boas pistas sobre nossos favoritos. Para conferir o texto na íntegra de cada registro, basta clicar no “+” no final de cada bloco, e ser transportado para o texto original. Aproveite os comentários para listar os seus discos favoritos até agora, ou use a nossa lista para ouvir aquele disco que você deixou passar. Atenção: entraram para a lista apenas trabalhos lançados oficialmente até o dia 13 de junho de 2014.

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Angel Olsen

Angel Olsen
Burn Your Fire for No Witness (2014, Jagjaguwar)

“Mais de quatro décadas separam Blue (1971), obra-prima da compositora canadense Joni Mitchell, do recém-lançado Burn Your Fire for No Witness (2014, Jagjaguwar), segundo e mais recente trabalho de estúdio de Angel Olsen. Ainda que os caminhos assumidos pelas duas artistas sejam bastante particulares – e quase opositivos em determinados aspectos líricos -, o princípio de orquestração temática de cada obra permanece o mesmo: a melancolia escancarada de um coração partido. Apoiada em elementos lançados há décadas pela veterana, Olsen, longe de se afundar no martírio alcoólico das palavras, tenta sobreviver a qualquer custo, ensaio pontuado nos gritos de desespero que percorrem toda a obra. Menos tímido que o exercício proposto há dois anos com Half Way Home (2012), trabalho de estreia da novata, o presente álbum é um projeto que encontra nos arranjos clássicos – principalmente o Folk da década de 1970 -, um instrumento atento de comunicação com as palavras. Bases convencionais e pequenas fagulhas Lo-Fi que apenas reforçam a grandeza sóbria dos versos impostos pela cantora…” [+]


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Behemoth

Behemoth
The Satanist (2014, Nuclear Blast)

“Envelhecer trouxe apenas benefícios ao trabalho do grupo polonês Behemoth. Outrora entusiasta das ambientações climáticas e versos cênicos, típicos do Black Metal – preferência que acompanhou o grupo até a segunda metade dos anos 1990 -, a banda de Gdańsk fez da atenta transição para o Death Metal um ponto de equilíbrio entre a sobriedade densa dos versos e a crueza (quase) imediata dos sons. Em um processo de natural crescimento, ao alcançar o 10º trabalho em estúdio, The Satanist (2014, Nuclear Blast), o grupo não apenas amplia as próprias preferências, como regressa pontualmente ao começo de carreira. Quebrando a furtividade explícita em The Apostasy (2007) e Evangelion (2009), dois últimos trabalhos em estúdio da banda, o presente álbum usa da textura lenta das guitarra como princípio de ambientação para o cenário particular do disco. Vocalista, guitarrista e grande mente aos comandos da banda, Adam Darski, ou melhor, Nergel, usa do álbum como um imenso ensaio lírico, um espaço em que as guitarras contam histórias sobre anjos caídos, bestas demoníacas e apocalipse em um sentido místico – ordem natural dos projetos do grupo e alicerce básico de todo o novo disco…” [+]

 


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Ben Frost

Ben Frost
A U R O R A (2014, Mute/Bedroom Community)

“A inexatidão obscura dos ruídos e fórmulas “instrumentais” sempre foi encarada por Ben Frost como um mecanismo básico para cada registro em estúdio. Curioso pensar que em A U R O R A (2014, Mute/Bedroom Community), mais recente obra do australiano residente em Reykjavík, Islândia, a premissa seja outra, quase opositiva. Parcialmente linear, o disco usa das tradicionais ambientações do artista como um princípio de movimento entre as faixas, gerando uma obra que mesmo complexa e etérea em suas definições, reflete uma linha temática que praticamente padroniza e orienta as canções. Sequência (quase) imediata ao exercício lançado em By the Throat, de 2009, o novo álbum é uma obra de perversão em se tratando dos conceitos limitadores da Ambient Dark. Longe de promover um registro minimalista e hermético, como boa parte dos trabalhos do gênero, Frost parece inclinado a desconstruir a essência do estilo – além, claro, da própria discografia. Do momento em que tem início, em Flex, até a canção de encerramento, A Single Point Of Blinding Light, o músico usa dos ruídos para ‘contar uma história’. Um resumo caótico pré ou pós-apocalíptico, mas que revela sua essência mesmo sem esboçar palavras ou mínimas emanações vocais…” [+]

 


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Cloud NOthings

Cloud Nothings
Here and Nowhere Else (2014, Carpark)

“Os ouvidos de Dylan Baldi e todas suas experiências parecem apontar para o passado, para os anos 1990. Depois de brincar com o Pop Punk no autointitulado registro de estreia, em 2011, e passear pelo Grunge no sombrio Attack on Memory, de 2012, o músico norte-americano traz de volta as velhas imposições estéticas para reforçar uma obra tão dele quanto de outros veteranos do rock alternativo. Em Here and Nowhere Else (2014, Carpark), mais do que ressuscitar experiências há tempos adormecidas, o uso calculados das guitarras faz crescer um território dominado em essência pelo jovem músico. É hora de visitar o passado (mais uma vez), sem necessariamente fugir do presente. Emergencial e muito mais agressivo que o trabalho que o antecede, o presente registro encontra na crueza exposta por Dylan um natural princípio de condução. São pouco mais de 30 minutos de duração, efemeridade que se embaralha em meio ao uso de vocais ásperos do cantor e a guitarra esquizofrênica controlada por ele – ferramenta que se divide entre riffs tortos e bases poluídas de distorção. Sob a formação de um Power Trio – acompanham TJ Duke (baixo) e Jayson Gerycz (bateria) -, Dylan se esquiva de qualquer detalhismo abrangente, tratando do álbum como uma imensa massa de sons…” [+]

 


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IAN

Ian Ramil
IAN (2014, Escápula)

“Imagine um cabo de aço esticado de um canto a outro de um cômodo. De um lado dessa linha reta, no chão, está tudo o que há de mais excêntrico e desafiador em relação aos padrões “comerciais” da música popular. Ruídos, incertezas e experimentos a serem aproveitados. No outro lado, o oposto: versos fáceis, melodias pegajosas e uma vastidão (quase) infinita de possibilidades que há décadas sustentam as faces da música pop. Sob o olhar atento do público e no meio dessa divisória está IAN (2014, Escápula), registro de estreia de Ian Ramil e uma obra que usa dos pés firmes para manter o equilíbrio ou perdê-lo de vez. Filho do cantor/escritor Vitor Ramil, sobrinho da dupla Kleiton e Kledir e parceiro de longa data dos “garotos” da Apanhador Só, o jovem Ian está longe de desfilar pelo disco como um completo desconhecido. Mais do que um cartão de visitas – como o resgate das já conhecidas Rota e Nescafé parece anunciar -, IAN é uma obra de fechamento. Trata-se de um conjunto amarrado de todas as ideias, versos, sons e experiências conquistadas ao longo dos anos pelo artista. Um exercício que flui com jovialidade por conta do fluxo dinâmico das músicas, mas fixa maturidade em cada azulejo sombrio do álbum…” [+]

 


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Encarnado

Juçara Marçal
Encarnado (2014, Independente)

“Vida e morte se entrelaçam no universo em formação de Encarnado (2014, Independente). Primeiro trabalho solo da cantora paulistana Juçara Marçal, o registro desconstrói a performance lançada pela artista desde o começo dos anos 1990, renascendo para o novo público com uma completa iniciante. Ainda que protegida pelas cinzas da própria discografia – incluem quatro discos com o grupo Vésper, dois com o A Barca, Padê (2007) ao lado de Kiko Dinucci e mais dois com o Metá Meta, parceria entre ela, Dinucci e Thiago França -, é no embrião sombrio do novo disco que Marçal se revela de fato, brincando com a morte e estabelecendo de vez o próprio território. Pontuado pela aura de retrospecto, o disco vai além de um condensado sóbrio de versões ou mesmo músicas que nasceram da interferência vocal da cantora. Trata-se de um disco que revela Marçal em essência, uma aficionada pela Vanguarda Paulista e uma mente inclinada a perverter o conforto tradicional da velha MPB. Ruídos, caos, desordem e imposição, tudo funciona como com combustível para o motor cênico esbanjado pela cantora, que atravessa de forma inteligente o mesmo cenário instável lançado há dois anos, em Metal Metal (2014)…” [+]

 



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Kalouv

Kalouv
Pluvero (2014, Sinewave)

“Se a maturidade um dia chega para qualquer artista, em se tratando do grupo pernambucano Kalouv ela não custou a florescer. Três anos depois de delimitar as próprias referências em Sky Swimmer (2011), registro de estreia do quinteto de Recife, Pluvero (2014, Sinewave) arremessa a banda para um cenário ainda mais amplo de possibilidades e doces essências instrumentais. Conduzido pela leveza e aglutinando pequenas gotas de chuva instrumentais, o novo álbum é a passagem direta para um cenário definido em totalidade pela banda, mas (ainda) deliciosamente inédito para os seguidores do grupo. Dissolvido em pequenas frações isoladas, o registro encontra no hermetismo próprio de cada composição um universo abrangente para seus criadores. São tramas jazzísticas, pigmentos típicos do pós-rock e todo um catálogo de emanações atmosféricas que parecem feitas para confortar o espectador. Como um respiro profundo antes da agitação, Pluvero coleciona ruídos, absorve diferentes texturas e trata de distintas décadas musicais sem fugir da minucia que já parecia instalada no álbum de estreia do grupo. Aqui são os sons que orquestram o ouvinte, ditando uma medida de tempo que se desenrola com total particularidade…” [+]

 


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Leo Cavalcanti
Despertador (2013, Independente)

“Descomplicar o que já era encarado de forma simples, esta parece ser a proposta de Leo Cavalcanti com o recém-lançado Despertador (2013, Independente). Segundo álbum de estúdio do músico paulistano, o novo registro é mais do que uma continuação do bem resolvido Religar, obra de estreia lançada em 2010. Longe da complexidade, o artista aposta na busca constante por músicas acessíveis e abertas aos mais variados públicos, referência que está longe de transformar Cavalcanti em um personagem íntimo do ouvinte médio, mas reforça a composição de um álbum costurado por boas melodias e versos difíceis de serem evitados. Ao se esquivar de um tratamento demasiado versátil, como o que orquestrou todo o primeiro disco, Cavalcanti não apenas encontra uma obra marcada pela segurança, como parece estabelecer real domínio sobre as próprias criações. O toque explícito de “Nova MPB”, antes evidente em canções como Inalcançavel Você e Dissabor, agora autorizam o músico a se abastecer de um conjunto de interpretações plásticas, típicas do Pop. Um passo além da herança tropicalista e que se reconfigura com a mesma beleza e inovação…” [+]

 


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Lykke Li

Lykke Li
I Never Learn (2014, LL)

“‘A tristeza é uma benção‘, disse Lykke Li em uma das faixas mais dolorosas e honestas de Wounded Rhymes, segundo trabalho em estúdio da cantora sueca e registro apresentado há três anos. Se observarmos o teor amargo que define a estética de I Never Learn (2014, LL), mais recente lançamento da artista, pouco parece ter se transformado dentro do universo particular de Li. Pelo contrário, em um sentido de explícita continuação ao trabalho alavancado em Youth Novels, de 2008, o novo disco revela a completa entrega de sua autora, cada vez mais interessada na fórmula dolorosa das canções de separação e mergulhada da cabeça aos pés em um ambiente essencialmente melancólico. Continuando exatamente de onde parou há poucos anos, o novo álbum – registro que fecha a trilogia iniciada em 2008 – conforta a cantora (e o público) dentro de um cenário em que a tristeza é a única resposta. Da autointitulada canção de abertura, ao isolamento que preenche os versos e arranjos de Sleeping Alone, no encerramento do disco, todos os aspectos do terceiro álbum solo da cantora emanam abandono, recolhimento e a mais profunda tristeza. Aspectos redundantes nas mãos de outros artistas, mas ainda inéditos dentro da saga macambúzia de Li…” [+]

 


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Mac DeMarco
Salad Days (2014, Captured Tracks)

“Mac DeMarco é um homem comum. Gosta de falar sobre amor, canta sobre o prazer de fumar um cigarro e usa da mediocridade do cotidiano como uma ferramenta para as próprias composições. Naturalmente descompromissado, mas ainda assim capaz de ressaltar aspectos curiosos de um dia aprazível, o cantor e compositor canadense mais uma vez abre as portas do universo particular que o envolve para apresentar Salad Days (2014, Captured Tracks). Um álbum que fala/canta inteiramente sobre ele, mas que esbarra na casualidade de qualquer espectador. Passo seguro em relação ao que 2, registro de “estreia” do músico, trouxe em 2012, o presente álbum vai além de brincar com temas aleatórios e pequenas confissões, trata-se de uma obra em que a maturidade do músico impera evidência. Se há dois anos o canadense abria o disco falando sobre a vida em um efeito de crônica leve, em Cooking Up Something Good – “Quando a vida se move lentamente/ Apenas deixe-a ir” -, com a inaugural faixa-título, DeMarco soa existencialista – “Rolando pela vida, para rolar e morrer” -, mas sem parecer um poeta sombrio. Mais uma vez o músico discorre sobre o amor (Let My Baby Stay), conselhos reciclados (Brother) e personagens (Jonny’s Odyssey), premissa que ocupa o álbum até o último instante…” [+]

 


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Mark McGuire

Mark McGuire
Along the Way (2014, Dead Oceans)

“Imersão. Desde que passou a entender a própria obra como um cenário ilimitado de experiências musicais, Mark McGuire tem assumido a cada novo disco a ponte para um universo de pleno recolhimento e expressivo detalhe. Tendo nas guitarras o principal instrumento de trabalho, o músico/produtor fez de obras particulares – como Living With Yourself (2010) e Get Lost (2011) -, ou mesmo registros em parceria – vide Does It Look Like I’m Here? (2010), do Emeralds -, a base para um conjunto de essências ora lisérgicas, ora essencialmente místicas. É justamente dentro desse catálogo de texturas que o artista deixa fluir Along the Way (2014, Dead Oceans). Obra mais cuidadosa e madura do norte-americano até aqui, o registro é um verdadeiro passeio pela Ambient Music de diferentes épocas, sem necessariamente se deixar corromper pela letargia redundante do gênero. De fácil comunicação com o ouvinte, mas nem por isso um disco que se distancia de possíveis emanações complexas, o registro assume em cada uma das 13 faixas um sentimento de comoção. Uma sensação de que por de trás das base experimental cresce um cenário acolhedor, cuidadosamente delineado…” [+]

 


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Mombojó
Alexandre (2014, Slap)

“Não existem respostas dentro do universo instável de Alexandre (2014, Slap), quarto e mais novo registro de inéditas da pernambucana Mombojó. Impulsionado de forma explícita pela pergunta – “Are you sure?” -, o sucessor de Amigo do Tempo (2010) não apenas afasta o ouvinte do cenário triste do disco passado, como ainda amarra as pontas soltas do som inaugurado há uma década com NadadeNovo (2004). Arranjos corrompidos pela colagem de tendências, gêneros e influências, tudo se organiza de forma desconexa – como a capa do disco -, proposta confusa conceitualmente, mas que jamais exclui o raro comprometimento da banda em reinterpretar o pop. Encarado como uma obra “experimental” e de “improviso” dentro da trajetória do grupo, Alexandre – o nome é uma piada interna, como a forma que um antigo teclado falava “Are you sure?” – nada mais é do que uma sequência dos ensaios abandonados em Homem-Espuma (2006). Sufocado pela morte precoce do flautista Rafael Barbosa, além do “quase fim” do grupo, o álbum de 2010 se revela cada vez mais como uma fuga dos conceitos iniciais dos recifenses. Uma curva (ou pausa) temporária dentro do caminho excêntrico que volta a ser assumido logo nos primeiros segundos de Rebuliço, canção de abertura do presente álbum…” [+]

 


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OUGHT

OUGHT
More Than Any Other Day (2014, Constellation)

“Quase quatro décadas separam o cenário musical assumido no final dos anos 1970 do presente panorama. Mesmo este distanciamento – temático e temporal – de forma alguma parece ter afetado a essência de veteranos que conquistaram espaço na época, caso de grupos como Television, Wire ou mesmo o cantor Elvis Costello. Base para todas as transformações que guiaram o “Indie Rock” no começo da década passada – principalmente Is This It (2001), do The Strokes -, o mesmo conjunto de artistas volta a ditar as regras em More Than Any Other Day (2014, Constellation), estreia do grupo canadense Ought e um confesso regresso ao ambiente criativo de 1977. Brincando com a essência de obras clássicas como Marquee Moon e Pink Flag, o registro é uma perversão completa dos clichês que alimentam o novo rock alternativo – cada vez mais apoiado nos anos 1990. Em toda a extensão do álbum, guitarras, vozes e temas brincam com o passado, encontrando nas melodias quebradas e vocais instáveis do período uma passagem natural para o presente. Entretanto, mais do que brincar de forma caricata com uma série de elementos tradicionais, o debut de oito faixas cresce como uma adaptação inteligente da mesma estética…” [+]

 


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Parquet Courts

Parquet Courts
Sunbathing Animal (2014, What’s Your Rupture?)

“É difícil encarar Light Up Gold (2012), obra que apresentou a nova-iorquina Parquet Courts, como um registro conceitualmente próximo do recém-lançado Sunbathing Animal (2014, What’s Your Rupture?). Se há dois anos Andrew Savage e os parceiros de banda pareciam inclinados a promover um álbum raivoso musicalmente, ainda que descompromissado em sua poesia, hoje pouco dessa atmosfera parece ter sobrevivido. Talvez apenas o desapego lírico e os versos bêbados/nonsenses prevaleçam ao longo da obra, que se espalha pelo tempo sem saber ao certo se está em 1977 ou idos de 1991. Libertador e atento, o presente álbum é a passagem de Savage – além do trio Austin Brown, Sean Yeaton e Max Savage – para a consolidação de um universo próprio da banda, ainda iniciante e em busca de um público cativo. Livre do caráter tolo que vinha guiando o outro projeto do vocalista/guitarrista, o Fergus & Geronimo, Savage presenteia o ouvinte com uma obra decididamente madura, mesmo bem-humorada. Capaz de encontrar graça no lado mais sóbrio do cotidiano, o músico contorce o tédio (Into The Garden), fala de amor (Dear Ramona) ou quer apenas se divertir como qualquer jovem de 20 e poucos anos (Always Back In Town). Canções para ouvir a qualquer hora do dia, sem que necessariamente o ouvinte precise desvendar uma solução filosófica com o passar dos versos…” [+]


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Perfect Pussy
Say Yes To Love (2014, Captured Tracks)

“Pouco mais de 23 minutos de duração, este é o tempo necessário para que o grupo norte-americano Perfect Pussy possa dar vazão aos sons caóticos que imperam em Say Yes To Love (2014, Captured Tracks). Abraçando o Punk “Alternativo” do Hüsker Dü, na década de 1980, mas sem fugir das melodias que guiaram o Sleater-Kinney e outros grupos próximos até o começo dos anos 2000, o quinteto de Syracuse, Nova York tranca o ouvinte em uma sequência de riffs crus e vozes essencialmente berradas. Um ambiente de desordem, mas que serve como ferramenta básica para o universo em plena desconstrução do grupo. Com a desesperada Meredith Graves à frente dos vocais, Ray McAndrew (guitarra), Garrett Koloski (bateria), Greg Ambler (baixo) e Shaun Sutkus (sintetizadores) promovem um registro em que tudo parece fugir ao controle do espectador (e deles próprios). Vozes que batem desgovernadas nos acordes sujos, sintetizadores que edificam verdadeiros monumentos do noise pop e toda uma sequência de músicas que apostam na urgência sem qualquer chance de equilíbrio. A ordem aqui é perturbar, e qualquer tentativa de conforto é soterrada por avalanches anárquicas de distorção…” [+]

 


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Atlas

Real Estate
Atlas (2014, Domino)

“A nostalgia impera na construção melódica de Atlas (2014, Domino), terceiro trabalho de estúdio da banda Real Estate. Em uma composição sequencial ao exercício exposto inicialmente em Days (2011), o novo álbum do grupo de Ridgewood, Nova Jersey, substitui as climatizações litorâneas e a psicodelia explorada desde o primeiro disco, de 2009, para abraçar de vez o teor urbano dos temas e arranjos. Coerentemente simples, mas ainda assim amplo em se tratando dos versos que o definem, o álbum se abre como um catálogo breve de canções de amor e temas cotidianos, princípio para a herança revitalizada do Jangle Pop assumido nos anos 1980. Esculpidas de forma aconchegante, cada composição do disco se acomoda em meio a bases cíclicas, vozes acolhedoras e uma sequência de arranjos essencialmente detalhistas. São guitarras desenvolvidas em proximidade aos vocais, preferência que repete a boa fase de bandas como R.E.M. e The Replacements há três décadas, sem necessariamente ocultar a autonomia do grupo – evidente desde a lisergia Lo-Fi do primeiro álbum. Atlas, como o disco anterior parecia confirmar, é uma obra desenvolvida em um território próprio de letras e arranjos, um fenômeno particular, mas que se comunica diretamente com o ouvinte…” [+]

 


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Sharon van etten

Sharon Van Etten
Are We There (2014, Jagjaguwar)

“Se existe uma certeza dentro da história da música – antiga, recente ou futura – é a de que jamais vão faltar obras alimentadas pelo aspecto triste do amor. Mesmo antes da consolidação da indústria da música, no começo do século XX, sofrer sempre foi encarado como uma fonte natural de inspiração para qualquer compositor. Um campo ilimitado de melodias e versos capazes de revisitar considerações simples, porém, necessárias de um pós-relacionamento. É justamente dentro desse ambiente cinza que Sharon Van Etten fez sua morada e parece extrair toda a base temática para cada disco lançado desde o debut Because I Was in Love, de 2009. Em evidente crescimento poético, a cantora centrada na região do Brooklyn, Nova York, fez de cada álbum apresentado nos últimos cinco anos uma inteligente transposição das próprias recordações sentimentais. Discos como Epic (2010) e Tramp (2012), que mesmo afundados em temas há muito desgastados por diferentes artistas, conseguiram reforçar identidade e certa dose de ineditismo por conta do catálogo rico (e sofrido) de versos que carregam. Adaptações melancólicas do cotidiano da cantora e obras que servem de alicerce para o bem executado quarto disco de Van Etten, Are We There (2014, Jagjaguwar)…” [+]

 


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Silva

Silva
Vista Pro Mar (2014, Slap)

“Bastam os instantes iniciais de Vista Pro Mar (2014, Slap), segundo álbum de estúdio do capixaba Silva, para perceber que os rumos do artista agora são outros. “Eu sou de remar/ Sou de insistir/ Mesmo que sozinho”. Como bem entregam os versos da autointitulada faixa de abertura, o cantor e compositor contorna a própria timidez do álbum de estreia, Claridão (2012), em busca de uma sonoridade abrangente, ainda que intimista e naturalmente particular. Um eco entre a melancolia (agora ensolarada) e o constante diálogo com o público, exercício que ultrapassa os limites da poesia sorumbática, mergulha nos arranjos versáteis e cresce como um genuíno cardápio da música pop. Como já havia confessado em entrevista, “Vista Pro Mar foi feito num momento diferente”, trata-se de um trabalho que nasceu na “Flórida com dias ensolarados, numa piscina, de férias, vendo gente bonita, ouvindo Poolside, João Donato, Cashmere Cat e Frank Ocean”. Dentro desse novo conjunto de referências, Silva apresenta ao público um álbum que emula sensações litorâneas, premissa instalada nos samples de ondas e ruídos praianos que preenchem todo o álbum. Veranil, o disco usa dessa mesma sensação nostálgica como um mecanismo de composição para as faixas. Um estágio permanente que se divide entre a calmaria atual e a sensação de despedida que aos poucos se aproxima e rege a ambientação lírica das faixas…” [+]

 


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St. Vincent

St. Vincent
St. Vincent (2014, 4AD)

“Existe uma distancia imensa entre Merry Me, álbum de estreia de Annie Erin Clark com o St. Vincent, do autointitulado quarto disco de estúdio da cantora. Enquanto o registro lançado em julho de 2007 entrega ao público uma atmosfera de plena timidez e aparente descoberta, como se cada acorde fosse manuseada de forma sutil, com o presente álbum a imponência da norte-americana se manifesta como um ponto chave para a comunicação com o público. Outrora “inofensiva”, Clark rompe de vez com qualquer limitação estética, ultrapassando a película bem retratada na capa de Strange Mercy, de 2011, para assumir um posto isolado de liderança dentro do atual “império” do rock alternativo. Como uma diva imponente que observa sem grande importância a massa de seguidores, a cantora estampa a capa do disco em uma autêntica representação da grandeza que orquestra os sons de todo o trabalho. Em um evidente sentido de continuidade ao que foi lançado há três anos, cada música do presente álbum arrasta o espectador para um território em que ruídos servem como alicerce preciso para a formação do todo. É como se todo o segundo ato de Northern Lights, faixa mais intensa do disco anterior, fosse repetido de forma exaustiva, uma comunhão de arranjos tortos que aparecem na inaugural Rattlesnake e seguem até o fechamento, com a melancólica Severed Crossed Fingers…” [+]

 


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Benji

Sun Kil Moon
Benji (2014, Caldo Verde)

“Simplicidade é a palavra de ordem em Benji (2014, Caldo Verde). Sexto registro em estúdio de Mark Kozelek pelo Sun Kil Moon, o álbum é uma completa desconstrução da sonoridade prévia imposta pelo músico, ao mesmo tempo em que se revela como uma exata continuação de tudo o que vem sendo cultivado desde o começo dos anos 2000. Intimista em essência, o disco atravessa as confissões impostas pelo cantor de forma a projetar diálogos próximos do público, ato que se desliga da redundâncias típicas de álbuns do gênero – evidente nos discos mais rasos de Bright Eyes e Bonnie ‘Prince’ Billy – para trilhar uma atmosfera de plena confissão. Ainda que a morte seja uma constante na trama lírica tecida por Kozelek, com o novo álbum, pela primeira vez o músico californiano vai além de um mero agregado de versos sombrios e melancólicos. Leve, mesmo quando passa por músicas como I Can’t Live Without My Mother’s Love, o disco mais parece um passeio pela memória recente do cantor, que movido pela trilha branda de violões passeia por aspectos típicos do cotidiano. A diferença em relação ao que o músico já havia testado em outras obras, principalmente Among The Leaves, de 2012, está na capacidade em traduzir sentimentos tão complexos de forma simples, acolhedora…” [+]

 


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Swans

Swans
To Be Kind (2014, Young God/Mute)

“O tempo sempre se comportou de maneira inexata para Michael Gira e o universo desenvolvido de forma particular para o Swans. Ainda que o músico californiano tenha sustentado durante toda a década de 1980 uma seleção de obras marcadas pela complexidade dos arranjos, caso de Children Of God (1987) e Filth (1983), foi somente ao alcançar a maturidade que o artista centrado em Nova York apresentou ao público seus melhores e mais coesos projetos. Contrariando grande parte dos músicos veteranos, naturalmente entregues ao cansaço, aos 56 anos de vida Gira regressou ao mesmo posicionamento jovial que ostentava há três décadas, fazendo do orquestral My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky (2010) a passagem para um ambiente criativo renovado dentro da carreira da banda. Chave para a reestruturação do Swans – em hiato desde o álbum Soundtracks for the Blind, de 1996 -, o registro lançado há quatro anos serviu como base para o ambiente épico/assustador de The Seer (2012), a obra-prima torta assinada por Gira, mas que encontra uma inteligente continuação no interior de To Be Kind (2014, Young God/Mute), o 13º álbum de estúdio do grupo. Como uma espécie de perturbação na ordem do compositor, o álbum de 121 minutos reforça mais uma vez o completo descontrole de Gira, interessado em brincar com a própria essência, porém, motivado de forma natural a descobrir um novo mundo de pequenas (ou mesmo épicas) possibilidades…”[+]

 


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The War on Drugs
Lost in the Dream (2014, Secretly Canadian)

“As melodias aprimoradas que abasteceram Future Weather EP (2010) e Slave Ambient (2011) são apenas ensaios perante o catálogo de possibilidades anunciadas com o novo álbum do The War On Drugs. Intitulado Lost in the Dream (2014, Secretly Canadian), o terceiro registro em estúdio da banda de Philadelphia, Pennsylvania, vai além das melodias detalhistas assinadas por Adam Granduciel – letrista, compositor e grande mente aos comandos do projeto. Trata-se de uma obra em expansão, um terreno instrumental/lírico que busca revelar a própria essência da banda, mas que ainda mantém íntima a aproximação com os sons lançados há quatro ou cinco décadas por um arsenal de velhos artistas. Muito mais abrangente e curioso do que o trabalho que o antecede, o novo álbum mostra que Granduciel assume na plena expansão dos instrumentos – guitarras, sintetizadores e bateria – um estágio de natural provocação. É como se toda a calmaria proclamada no disco de 2011 fosse posta em xeque, como se uma pedra fosse atirada no lago de emanações serenas, quase bucólicas, exaltadas pela banda. No meio desse conjunto de experiências onduladas, o Country esbarra na psicodelia, o Folk dança pelo Dream Pop e a mente do espectador, como as canções, flutua livremente…” [+]

 


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Todd Terje

Todd Terje
It’s Album Time (2014, Olsen)

“Mulheres, drinks e Space Disco. Há mais de uma década o norueguês Todd Terje passeia pela cena eletrônica como um boêmio, se esquivando das palavras e investindo nos arranjos sintéticos para retratar de forma autoral a vida noturna. Mergulhado nas experiências que ocuparam a década de 1970, o produtor original de Mjøndalen, parece amarrar as pontas soltas entre a música que ocupou as pistas há quase quatro décadas e as emanações que detalham os excessos no presente. Entre lá e aqui, Terje abre as portas do primeiro álbum de estúdio, o aguardado It’s Album Time (2014, Olsen), um registro tão nostálgico e empoeirado, quanto voluptuoso e atual. Descompromissado, mas não menos detalhista que os últimos inventos em estúdio do artista, o disco vai além de dançar pelas harmonias hipnóticas lançadas por Terje desde o começo dos anos 2000. Enquanto os primeiros singles ou mesmo o último EP do produtor, It’s the Arps (2012), pareciam reforçar experimentos musicais fragmentados, cada instante do presente álbum evoca uma tonalidade sequencial. É como se o norueguês contasse uma história, um tipo de desaventura romântica em um paraíso tropical que cresce ao som dos sintetizadores…” [+]

 


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Transmissor

Transmissor
De Lá Não Ando Só (2014, Independente)

“Há quem possa dizer que maturidade é uma experiência a ser conquistada por qualquer artista, lentamente. Décadas de atuação, formação em estúdio e eficiente domínio de palco nas apresentações ao vivo. Porém, em se tratando da banda mineira Transmissor, este suposto senso de maturidade sempre esteve presente, desde o primeiro disco, apenas adaptado a cada novo álbum. Distante das comparações com a banda carioca Los Hermanos – herança evidente no debut Sociedade do Crivo Mútuo (2008) -, e em um sentido de continuidade ao trabalho exposto em Nacional, de 2011, ao alcançar o terceiro registro em estúdio, o grupo de Belo Horizonte prova que mesmo dentro de uma discografia confortável, é possível se reinventar. Expansivo, ainda que atento ao aspecto tímido das canções que definem a estética da banda, De Lá Não Ando Só (2014, Independente) isola o sexteto mineiro em um cenário abastecido pelas referências e emanações explícitas de identidade. Como o álbum entregue há três anos já havia identificado, cada composição do grupo cresce com igual beleza em um ambiente propositalmente compacto e acolhedor. São versos que discutem relacionamento, atentam para a tristeza de seus compositores e usam de pequenas particularidades confessionais de forma a dialogar com o público. Um espaço em que a dor assertivamente se converte em melodia…” [+]

 


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Wild Beasts

Wild Beasts
Present Tense (2014, Domino)

“A comodidade parece constantemente provocada dentro dos trabalhos da banda Wild Beasts. Incapaz de seguir a trilha programada do rock inglês, o quarteto de Kendal, Inglaterra vem desde a segunda metade dos anos 2000 em uma colagem instável de referências, sons e versos. Um mecanismo que se apresenta em meio a contornos formais, mas instável dentro de qualquer zona de conforto aparente. Depois de solucionar pontualmente as próprias experiências dentro da obra-prima Smother, de 2011, com a chegada do quarto trabalho de estúdio a banda parece se perguntar: qual direção seguir agora? Invariavelmente orquestrado como uma continuação do álbum lançado há três anos, Present Tense (2014, Domino) é a construção de um novo universo dentro dos próprios limites do grupo. Valendo de um mesmo conjunto de preferências conceituais – como a música minimalista dos anos 1970, o existencialismo de Clarice Lispector e fragmentos da eletrônica atual -, a banda britânica fixa no reposicionamento das ideias um palco para as possibilidades. Uma estratégia inteligente em caminhar pelas sombras do disco passado, para revelar nuances antes inéditas dentro da obra do grupo…” [+]


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