Os 25 Melhores Discos de 2015 (Até Agora)

Chegamos ao meio de 2015 e o catálogo de grandes lançamentos musicais só aumenta. Seja em território nacional – Mahmed, Gal Costa, Siba, Cidadão Instigado – ou pela Europa – Björk, Jamie XX – e Estados Unidos – Kendrick Lamar, Sufjan Stevens, Tobias Jesso Jr. -, o que não falta são registros de peso e obras influentes que abasteceram os últimos meses. Seguindo a tradição, é hora de conhecer nossa lista com os 25 melhores discos da metade do ano. Trabalhos que passeiam pela música experimental, eletrônica, pop, rock e Hip-Hop, sempre apontando a direção para a lista definitiva, tradicionalmente publicada no mês de dezembro. Passou os últimos meses desligado da música? Aproveite a lista e veja o que você deixou passar.

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Björk
Vulnicura (2014, One Little Indian)

O sofrimento sempre esteve diluído em cada novo registro de Björk. Seja de forma maquiada, dentro dos limites anárquicos do KUKL, ou de maneira explícita, na melancolia confessional de Unravel e All Is Full Of Love, mergulhar nos trabalhos da artista islandesa é o mesmo que sufocar em meio a tormentos sentimentais tão centrados na vida da compositora, como íntimos do próprio ouvinte. Todavia, mesmo a completa previsibilidade dos atos e emoções parece corrompida ao esbarrar nos versos amargos de Vulnicura. Uma peça ainda marcada pelo mesmo caráter conceitual/temático dos grandes álbuns de Björk, porém, tão honesta e liricamente explícita, que mais parece uma curva isolada dentro da trajetória da cantora. Como um espinho doloroso, incômodo e que precisa ser arrancado, o nono álbum de estúdio de Björk foi posto para fora em pouquíssimos meses. Do anúncio (não oficial), em setembro de 2014, até o lançamento da obra, em janeiro de 2015 – forçado pelo vazamento precoce do trabalho na internet -, foram pouco mais de quatro meses, um prazo curto dentro dos padrões da cantora – em extensa turnê desde o álbum Biophilia, em 2011. O motivo de tamanha urgência? A separação de Björk e Matthew Barney, parceiro da cantora na última década e o principal tempero para a matéria-prima que explode em soluços angustiados por todo o registro. Leia o texto completo.

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Cícero
A Praia (2015, Independente)

Romântico, brega, chato ou, como defende o público fiel, “um gênio incompreendido”, “um poeta”. Cícero pode ser acusado e classificado das mais variadas formas, porém, goste ou não do trabalho assinado pelo músico carioca, em nenhum momento ele pode ser encarado como previsível. Exemplo significativo desse resultado está na estrutura e (ainda falho) conceito executado em Sábado (2013), segundo álbum solo do cantor. Talvez mal interpretado, um “Araçá Azul particular“, a obra entregue há dois anos está longe de parecer o ponto central da (curta) obra do jovem compositor. Ainda atento, Cícero mantém firme a busca pela própria identidade, postura explícita no horizonte infinito que estampa a capa e sonoridade aplicada em A Praia. Uma rápida audição, e a reposta parece surgir de forma imediata: com o terceiro e mais recente trabalho de inéditas, Cícero talvez tenha encontrado um meio termo exato entre o “samba-indie-melódico” do registro de estreia, Canções de Apartamento (2011), com o “experimento caseiro” testado no interior do segundo álbum, Sábado. Um erro. Ainda que a maquiagem eletrônica de Frevo por acaso N˚2 e diferentes faixas espalhadas pelo registro sustentem a parcial novidade por parte do músico, está na composição quase sorridente dos versos o aparecimento de um novo “personagem” e poeta. Leia o texto completo.

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Cidadão Instigado
Fortaleza (2015, Independente)

Climáticos, os sintetizadores crescem lentamente. Ao fundo, guitarras espalham ruídos, sem pressa ou possíveis exageros. A bateria ocupa espaço com timidez, abrindo passagem para que a voz de Fernando Catatau ecoe de forma clara, como um suspiro aliviado: “até que enfim”. Com os pés firmes no chão, passados seis anos desde o lançamento do último álbum de estúdio, Uhuuu! (2009), o grupo cearense Cidadão Instigado deixa de lado do som experimental (e lisérgico) dos primeiros trabalhos para investir em uma obra pontuada pela saudade, melancolia e completa lucidez. Fuga dos temas e arranjos complexos testados desde a boa fase em O Ciclo da Decadência (2002) e Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências (2005), com recém-lançado Fortaleza a banda – completa com Regis Damasceno, Clayton Martim, Rian Batista e Dustan Gallas – revela ao público uma sonoridade talvez “simples”, mas não convincente. Livre da estrutura torta e limitadora de faixas como O Pinto de Peitos e Deus É Uma Viagem, o canto triste de Catatau se despe do manto colorido, transporta o ouvinte para um cenário obscuro e ainda cria brechas acessíveis aos mais variados público. Leia o texto completo.

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Courtney Barnett
Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit (2015, Mom & Pop)

O ano é 1995. No campo da música, o grunge dá seus últimos suspiros, deixando o caminho livre para o duelo “pomposo” do Britpop entre Blur e Oasis. Depois de meia década de “domínio masculino” dentro das rádios, programação da MTV e revistas de música, um time de vozes femininas – inspiradas por PJ Harvey, Kim Deal e Liz Phair – começaram a ocupar território. De Alanis Morissette ao trabalho da islandesa (e já veterana) Björk, dos gritos de Gwen Stefani no No Doubt aos berros de Shirley Manson na estreia do Garbage, há 20 anos, todos os holofotes se voltaram para elas. Curioso perceber que mesmo passadas duas décadas desde a explosão de novos representantes do “rock feminino”, Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, estreia solo da australiana Courtney Barnett, ainda preserva parte da mesma essência de músicas lançadas durante o período. Versos temperados com sarcasmo, guitarras tratadas com euforia, além de um universo de temas tão joviais e descomplicados, que Barnett parece até cantar sobre o cotidiano do espectador. Passo além em relação ao material apresentado em The Double EP: A Sea of Split Peas, de 2013, a estreia solo de Courtney Barnett se liberta de possíveis amarras para flutuar em um plano leve, como uma transcrição de pensamentos recentes da artista. Leia o texto completo.

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Dingo Bells
Maravilhas da Vida Moderna (2015, Independente)

Quem rola a timeline do Facebook e bate o olho na imagem que estampa a capa de Maravilhas da Vida Moderna, primeiro registro de estúdio da banda gaúcha Dingo Bells, talvez se espante com a sonoridade explorada no interior do trabalho. Longe do ambiente “cinza” reforçada na fotografia de Rodrigo Marroni – praticamente a capa de um álbum punk -, cada uma das composições que movimentam o disco apontam a construção do um som nitidamente pop, talvez sombrio em se tratando dos versos, mas não menos colorido. Como o próprio título indica, Maravilhas da Vida Moderna utiliza de versos fáceis para reforçar tormentos típicos de um (jovem) adulto. Músicas ancoradas em conceitos existenciais (Dinossauros), maturidade (Mistério dos 30), a necessidade de conviver em sociedade (Eu Vim Passear) e até personagens (Funcionário do Mês) que cercam o universo irônico/realista do grupo – hoje composto por Rodrigo Fischmann (voz, bateria e percussão), Diogo Brochmann (Voz, guitarra e teclados) e Felipe Kautz (voz, baixo). Cercado por diferentes colaboradores da cena de Porto Alegre – entre eles o produtor Gustavo Fruet (Chimarruts, Pública) e Felipe Zancaro (Apanhador Só) -, o debut está longe de ser encarado como um típico fragmento do “Rock Gaúcho”.

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Diogo Strausz
Spectrum Vol. 1 (2015, Independente)

Basta uma visita ao site de Diogo Strausz para perceber a versatilidade em torno da obra do músico carioca. Como produtor, registros assinados em parceria com Alice Caymmi, Castello Branco e outros nomes de peso da cena alternativa, principalmente a carioca. Em projetos individuais, esporádicos, obras marcados pela colagem de referências – caso do EP/clipe de Garoto Nacional -, remixes desenvolvidos a convite de conterrâneos como Kassin e Léo Justi, além de colaborações com Jaloo, Gang do Eletro e até marcas como Coca-Cola. O mesmo mosaico de ideias, sons e referências parece servir de inspiração para o primeiro registro solo do produtor: Spectrum Vol. 1. Em uma colagem de tendências e pequenos experimentos com a música pop, Strausz articula uma obra tão vasta quanto o próprio acervo de inventos compartilhados na última meia década. Um passeio temático e instrumental que começa ainda na capa – uma homenagem à Jovem Guarda do próprio pai, Leno, músico e uma das metades da dupla Leno & Lilian entre 1960/1970 -, mergulha na música negra, na eletrônica dos anos 1990, até se estabelecer no presente, caminhando ao lado de uma série de colaboradores recentes.

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Father John Misty
I Love You, Honeybear (2015, Sub Pop)

Contrário ao ensinamento de filmes e séries românticas, em se tratando da música, a dor convence, marca e até “canta” mais alto do que o amor. O que explica essa (sádica) preferência? Um elemento bastante simples: a honestidade. De Adele a Bob Dylan, Sharon Van Etten a Lionel Richie, não existem segredos e relatos intimistas que permaneçam ocultos ao final de um relacionamento. Traições, brigas ou antigos sussurros românticos: tudo acaba exposto. Joshua Tillman parece entender bem isso. Ao assumir o papel de Father John Misty – “personagem” e projeto autoral criado logo após o rompimento com o Fleet Foxes, onde atuou até o lançamento de Helplessness Blues (2011) -, o músico não poupa na exposição da própria intimidade. Mesmo fazendo uso de um pseudônimo, protegido em manto de sarcasmo, canções sobre sobre sexo, uso de drogas ou relatos de sedução barata refletem apenas a imagem do cantor. Temas retratados com humor e honestidade, componentes também fundamentais para a interpretação de Tillman sobre o amor e a vida conjugal em I Love You, Honeybear. Leia o texto completo.

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Gal Costa
Estratosférica (2015, Sony Music)

A necessidade de ruptura e parcial transformação está longe de parecer uma novidade dentro da (extensa) obra de Gal Costa. Do habitual cruzamento de ritmos – Bossa Nova, Jazz, Samba, Rock, – ao constante diálogo com músicos, compositores e produtores vindos de diferentes gerações – Luiz Melodia, Djavan, Cazuza, Domenico Lancellotti -, de tempos em tempos, a cantora baiana entrega ao público um registro que parece não apenas indicar uma nova direção, mudando o curso da própria discografia, como ainda serve de síntese temática, revelando ao grande público o nascimento de novas cenas e pequenos coletivos musicais. É o caso do recente Estratosférica. Dando continuidade ao trabalho iniciado no álbum Hoje (2005) – obra marcada pela interferência de novos compositores como Nuno Ramos, Junio Barreto e Moreno Veloso -, dentro do trigésimo sexto registro em estúdio da cantora, é possível perceber o crescimento de uma obra que clama por novas referências, sonoridades e tendências, porém, mantém firme a experiência (e sobriedade) acumulada por Gal mais 50 anos de carreira. Leia o texto completo.

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Guizado
O Voo do Dragão (2015, Independente)

Da estreia com Punx (2008) ao cruzamento de referências que marca Calavera (2010), Guilherme Mendonça nunca demonstrou interesse em produzir um som fácil ou “acessível” com o Guizado. Ritmos nacionais desconstruídos, interferências eletrônicas, vozes e versos robóticos, além do trompete fluido, sempre explorado com liberdade, sem rumo ou direção definida. Um curioso jogo de referências instáveis, estímulo para o uso de temas ainda mais provocativos no terceiro álbum de estúdio do trompetista, O Voo do Dragão (2015, Independente). Nascido do “cruzamento” entre os dois últimos registros de Mendonça, o trabalho gravado por M. Takara e Fernando Sanches no estúdio El Rocha entrega oito faixas de puro delírio e constante transformação. Da abertura com Sete Lâminas ao fechamento em Luzes, um intenso revezamento do time formado por Guizado (trompete e programações), Caetano Malta (sintetizadores), Thiago Duar (baixo), Alle Alencar (guitarra) e Thiago Babalú (bateria). Artistas capazes de prender a atenção e estimular o ouvinte – sempre hipnotizado pelas estranhas formas musicais que abastecem a obra. Leia o texto completo.

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Holly Herndon
Platform (2015, 4AD)

Vozes recortadas de forma abstrata e encaixadas sem ordem aparente; sintetizadores ambientais, ruídos eletrônicos e batidas movidos pelo etéreo; gritos, sussurros e provocações. Quem acompanha o trabalho de Holly Herndon sabe que o “óbvio” passa longe dos arranjos assinados pela artista. Misto de personagem e matéria-prima da própria obra, ao alcançar o recente Platform, segundo trabalho em carreira solo, a compositora norte-americana dá um passo além em relação aos últimos lançamentos de estúdio, colidindo melodias, conceitos e até imagens dentro de um cenário que parece modificado a todo o instante. Primeiro registro de Herndon lançado por um selo de médio porte – 4AD Records, casa de Grimes, St. Vincent e Ariel Pink -, Platform pode até seguir a trilha do álbum antecessor Movement, de 2012, entretanto, aos poucos revela evidências sobre os novos interesses da artista. Ainda que a voz seja o principal ingrediente da obra, refletindo a mesma temática orgânica do disco passado, cada ato, canto ou melodia torta de Herndon encontra no uso de temas eletrônicos um sustento renovado. Ruídos, manipulações e até batidas eletrônicas que apontam a lenta “digitalização” da artista – preferência que se estende da faixa de abertura ao visual futurístico que aparece na capa do álbum. Leia o texto completo.

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Jair Naves
Trovões a Me Atingir (2015, Independente)

Descrença, solidão, medo e morte; temas corriqueiros dentro do acervo poético de Jair Naves enquanto vocalista da extinta Ludovic, porém, um catálogo de experiências cada vez menos significativas no universo autoral que define a carreira solo do cantor. Se em 2006, quando apresentou o derradeiro Idioma Morto, Naves gritava a plenos pulmões, exaltando sentimentos e toda sua raiva em relação ao mês de janeiro – “o pior dos meses” -, curioso perceber no mesmo mês, data escolhida para o lançamento do segundo disco solo do músico, Trovões a Me Atingir (2015, Independente), uma completa oposição desse resultado. Da capa iluminada aos arranjos suavizados, dos versos marcados pela esperança ao refrão vívido da faixa-título – “meu corpo volta a ter pulsação” -, difícil ignorar a transformação que define a presente obra do paulistano. Ainda que a melancolia tome conta de boa parte do trabalho, marca explícita nos instantes finais e respiros breves do registro, seria um erro não observar o conceito “sorridente” que sustenta a atual fase de Naves. As angústias e trovões – como indicado no título da obra -, ainda atingem o compositor, por todos os lados, entretanto o nítido senso de superação parece maior, raro quando voltamos os ouvidos para o contexto macambúzio do ainda recente E Você Se Sente Numa Cela Escura… (2012). Leia o texto completo.

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Jamie XX
In Colour (2015, XL / Young Turks)

Coexist, segundo álbum do The XX, talvez nem estivesse nos planos do trio britânico quando Jamie Smith lançou a primeira música em carreira solo. Durante uma rápida entrevista à rádio inglesa XFM, em setembro de 2010, o jovem produtor não apenas revelava ao público o autoral single Far Nearer, como ainda sussurrava de forma tímida e claramente indecisa o nome escolhido para esse novo projeto: Jamie XX. Seis anos mais tarde, a timidez do músico londrino permanece evidente em cada ato, canto ou sample reciclado no interior de In Colour, todavia, o mesmo não pode ser dito sobre a suposta indecisão do artista. Do ritmo crescente que abre o trabalho na faixa Gosh, seguindo pelo cruzamento de ritmos que vai do Pós-Dubstep (Hold Tight) ao Hip-Hop (I Know There’s Gonna Be Good Times), passando pelo minimalismo de Girl, já conhecida faixa de encerramento do disco, o britânico sabe exatamente onde quer chegar. Confortável e rodeado por colaboradores de longa data – entre eles o produtor Kieran Hebden (Four Tet) e os parceiros do The XX, Romy Madley Croft e Oliver Sim -, Smith revela em essência o universo de referências coloridas que há tempos ocupa sua mente. Leia o texto completo.

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Kamasi Washington
The Epic (2015, Brainfeeder)

Imenso. Não existe palavra que melhor sintetize o trabalho de Kamasi Washington em The Epic do que esta. Em um longo exercício orquestral que se estende por três discos, 17 faixas e quase três horas de duração, o saxofonista californiano não apenas se mostra capaz de prender a atenção do ouvinte, como ainda transporta a mente (e alma) do espectador para diferentes décadas, campos e experiências sustentadas pelo Jazz. Um caminho – ou mundo? – de possibilidades irrestritas, crescendo desde a raiz plantada no campo fértil de Herbie Hancock, John Coltrane e Miles Davis, até alcançar a copa da árvore compartilhada com diferentes membros do selo Brainfeeder – caso de Steve Ellison (Flying Lotus), Stephen Bruner (Thundercat). Convidado a integrar o time de instrumentistas que deram vida ao último álbum de Kendrick Lamar, o clássico imediato To Pimp a Butterfly (2015), Washington, músico profissional desde a década de 1990, brinca de forma curiosa com os mesmos temas políticos, culturais e sociais ressaltados pelo conterrâneo no presente disco. A diferença? Enquanto o rapper sustenta nas rimas e pequenos recortes sampleados um acervo de referências extraídas em mais de cinco décadas de transformações dentro da cultura afro-americana, Kamasi vai ainda mais longe, brincando com arranjos e adaptações instrumentais que costuram diferentes campos da música estadunidense – principalmente o Funk e o Jazz -, abraçam a essência da cultura africana e borbulham como novidade em cada ato isolado do trabalho.

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Kendrick Lamar
To Pimp a Butterfly (2015, Interscope / Aftermath / Top Dawg)

Kunta Kinte, Wesley Snipes, escravidão, capitalismo, apropriação de cultura, preconceito racial e morte. Antes mesmo que a quarta faixa de To Pimp a Butterfly chegue ao final, Kendrick Lamar assume com o novo álbum de estúdio – o segundo sob o aval de uma grande gravadora, a Interscope -, um dos retratos mais honestos sobre o conceito de “dois pesos, duas medidas” que sufoca a comunidade negra dos Estados Unidos. Uma interpretação amarga, ainda que irônica, capaz de ultrapassar o território autoral do rapper de forma a colidir com o universo de Tupac Shakur, Michael Jackson, Alex Haley e outros “personagens” negros da cultura norte-americana. Como explícito desde o último trabalho do rapper, o bem-sucedido good kid, m.A.A.d city (2012),To Pimp a Butterfly está longe de ser absorvido de forma imediata, em uma rápida audição. Trata-se de uma obra feita para ser degustada lentamente, talvez explorada, como um imenso jogo de referências e interpretações abertas ao ouvinte. Da inicial citação ao ator Wesley Snipes – preso entre 2010 e 2013 por conta de uma denúncia de fraude fiscal -, passando por referências ao cantor Michael Jackson, Malcom X, Nelson Mandela, exaltações à comunidade negra, além de trechos da obra do escritor Alex Haley – Negras Raízes (1976) -, cada faixa se espalha em um acervo (quase) ilimitado de pistas, costurando décadas de segregação racial dentro e fora dos Estados Unidos. Leia o texto completo.

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Luneta Mágica
No Meu Peito (2015, Invern Records)

“Experimental”, “Alternativo”, “Eletrônico”, “Indie” e “Folk”. Esses são alguns dos rótulos escolhidos pelos integrantes da Luneta Mágica para definir a sonoridade produzida pela banda. Curioso perceber no segundo registro de inéditas do coletivo amazonense, No Meu Peito, uma obra esquiva de toda essa pluralidade “restritiva” de conceitos. Como uma fuga de possíveis experimentos e bloqueios estéticos lançados no inicial Amanhã vai ser o melhor dia da sua vida (2012), um caminho marcado pela leveza orienta de forma positiva os passos e referências do hoje renovado quarteto de Manaus. Por vezes íntimo do pop “clássico”, o novo trabalho de Pablo Araújo (vocal e guitarra), Erick Omena (guitarra), Eron Oliveira (bateria) e Diego Souza (baixo e teclado) borbulha em meio a bases melódicas, vocais tratados de forma polida e versos que se espalham descomplicados, ocupando sem esforços a mente do ouvinte. Em um explícito exercício de maturidade, toda a soma de argumentos complexos lançados no álbum de 2012 é logo derrubada na primeira composição, resultando em uma corredeira de emanações acolhedoras, acessíveis aos mais variados públicos. Beatles e The Beach Boys surgem de forma quase instintiva, como pilares, entretanto, é na formação de som próprio da Luneta Mágica que reside o grande acerto da obra.

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Mahmed
Sobre a Vida em Comunidade (2015, Balaclava)

Maturidade”, “crescimento” e “grandeza”. Palavras de significado forte, expressivas quando voltamos os ouvidos para o acervo sóbrio lançado pela potiguar Mahmed em Domínio das Águas e dos Céus EP (2013), porém, pequenas, quase insignificantes frente à grandeza de Sobre a Vida em Comunidade. Em um assombroso traço de evolução, ao finalizar o primeiro álbum de estúdio, o quarteto do Rio Grande do Norte não apenas alcança um novo estágio dentro da própria sonoridade, como ainda prende o ouvinte em um labirinto de formas mutáveis; um álbum sedutor e provocativo a cada fragmento instrumental. Montado em uma estrutura não-linear, pontuada por arranjos e texturas propositadamente instáveis, logo nos primeiros segundos dentro disco, a pergunta: estou sonhando? Como uma noite longa de sono embriagado, costurada por diferentes sonhos, passagens rápidas por pesadelos e até a tontura leve típica de exageros alcoólicos, SAVEC brinca com as interpretações do ouvinte. É difícil saber onde começa e acaba o álbum. Ondas leves de distorção arremessam, acolhem e mudam a direção das composições a todo o momento. Um constante cruzamento entre o onírico, o experimental e até o nonsense que corta em pedaços rótulos imediatos como “Jazz”, “Dream Pop” ou o inevitável “Post-Rock”. Todavia, mesmo a completa ausência de direção (ou previsibilidade) em nenhum momento distorce a sutileza e coerência da banda.

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Natalie Prass
Natalie Prass (2014, Spacebomb)

Do momento em que tem início My Baby Don’t Understand Me, até o movimento final de It Is You, a sensação de fragilidade que preenche a obra de Natalie Prass é clara, perturbadora e ainda capaz de acolher o ouvinte. Protagonista da própria obra, a cantora e compositora estadunidense transforma o autointitulado primeiro registro de estúdio em um mundo aberto para confissões amarguradas e lamentos tão íntimos, que até parecem moldados para o ouvinte. Ativa em diferentes núcleos da cena norte-americana, Prass atravessou a última década em meio a parcerias com notáveis da produção alternativa, caso de Jenny Lewis e Matthew E. White, posteriormente fixando residência na cidade de Nashville – o epicentro da música country. Com naturalidade, todo esse catálogo de “referências” se faz visível em cada ato do recente trabalho da cantora, tão próxima dos primeiros registros da “ex-Rilo Kiley” – principalmente no debut Rabbit Fur Coat (2006) -, como do recente trabalho de White – Big Inner (2012) -, parceiro desde a adolescência e produtor do álbum ao lado de Trey Pollard. Leia o texto completo.

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Panda Bear
Panda Bear Meets the Grim Reaper (2015, Domino)

Vozes submersas em um lago de efeitos psicodélicos, colagens instrumentais e arranjos essencialmente excêntricos. Quem Noah Lennox está tentando enganar? Mesmo que fórmulas complexas e temas pouco “usuais” dentro dos padrões da música comercial sirvam de base para o trabalho do músico norte-americano, ao esbarrar no acervo colorido de Panda Bear Meets the Grim Reaper, quinto álbum do também integrante do Animal Collective como Panda Bear, todos os esforços do artista residente em Portugal se concentram no explícito diálogo com melodias típicas do pop. Seja no refrão ascendente de Mr. Noah – a faixa mais enérgica de Lennox em carreira solo – ou pela leveza mágica de Latin Boys, cada instante do presente registro confirma a imagem de um compositor livre, acessível, ainda que experimental em essência. A julgar pela overdose de efeitos eletrônicos e projeções instrumentais inspiradas no Hip-Hop da década de 1990 – principalmente Q-Tip e A Tribe Called Quest -, este talvez seja o trabalho que o público do Animal Collective tanto esperou depois do ápice criativo alcançado em Merriweather Post Pavilion (2009). Leia o texto completo.

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Rafael Castro
Um Chopp e um Sundae (2015, Independente)

Os primeiros anos de Rafael Castro como músico profissional foram marcados pelos excessos. Não falo sobre exageros lisérgicos ou noites perfumadas pelo cheiro de sexo, mas pelo excesso de composições. Em apenas três anos, entre 2006 e 2009, o cantor e compositor paulistano entregou ao público um acervo de oito registros oficiais. Obras gravadas de forma amadora, dentro de estúdios caseiros e, na maioria dos casos, desprovidas de um mínimo cuidado estético ou refinamento lírico/instrumental. Um amadorismo convincente, porém, sufocado pela quantidade de canções costuradas por temas sempre aleatórios, demasiado instáveis, talvez desorganizados. A surpresa veio com o lançamento de Lembra?, em 2012. Embora anárquico, amarrado pela mesma pluralidade de histórias particulares do músico – capaz de colidir temas como religiosidade, vida boêmia e romantismo em um mesmo cenário – o uso de uma máscara “brega-moderna” trouxe homogeneidade ao trabalho do cantor, agora maduro e linear. Dentro de um mesmo cercado temático, porém, longe de solucionar uma obra conceitual, o paulistano encontrou o ponto de equilíbrio para a própria esquizofrenia, condensando um catálogo de Hits que pareciam ter escapado do romantismo nacional nos anos 1970 até alcançar o presente.

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Siba
De Baile Solto (2015, YB)

Conhecida como a “capital estadual do Maracatu”, em 2014, Nazaré da Mata, município localizado na região da Mata Norte, em Pernambuco, se dividiu. De um lado, músicos, foliões e representantes da cultura local, coletivos que se uniram para defender as tradições (musicais) da região, mantendo as apresentações de Maracatu de Baque Solto até o amanhecer. No outro lado, a Polícia Militar e membros do governo municipal, oposição de defendia o encerramento precoce dos festejos e apresentações do gênero, forçadas a acabar no começo da madrugada. Um dos defensores do primeiro grupo – frente que conquistou na justiça o direito de manter as tradições, estendendo os festejos até as 5:00 da manhã -, Siba transporta para o interior do segundo álbum solo parte desse conflito e desrespeito pelas tradições locais. Misto de regresso aos sons regionais explorados desde os primeiros trabalhos com a extinta Mestre Ambrósio, em De Baile Solto (2015, YB), mais do que um retrato isolado da cena nordestina, o compositor pernambucano entrega ao público uma síntese do instável panorama político e social de todo o Brasil. Leia o texto completo.

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Sleater-Kinney
No Cities to Love (2015, Sub Pop)

Havia uma sensação de “dever cumprido” quando o hiato do Sleater-Kinney foi anunciado em junho de 2006. Além do fortalecimento no discurso/poesia em relação aos primeiros trabalhos em estúdio, um ano antes, com a entrega de The Woods (2005), o grupo parecia ter alcançado mais do que um “refinamento estético” na próprio som. Depois de uma década de experiência e continua renovação, o trio conseguiu delimitar um influente cercado autoral; uma espécie ambiente seguro, compartilhado e base para crescimento de projetos também inspirados pela mesma temática progressista do grupo. Em No Cities to Love, oitavo álbum em estúdio da banda, Corin Tucker, Carrie Brownstein e Janet Weiss regressam ao mesmo território criativo de 2006, entretanto, uma leve alteração no lirismo da obra indica a explícita ruptura no discurso do grupo. De forma lenta, porém expressiva, o trabalho parece sufocar em uma atmosfera de forte incredulidade, frieza e pessimismo, conceito inicialmente ressaltado de forma simbólica nas flores murchas que estampam a capa do disco. Leia o texto completo.

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Sufjan Stevens
Carrie & Lowell (2015, Asthmatic Kitty)

Sufjan Stevens sempre me pareceu um grande contador de histórias. Por trás do inofensivo dedilhado de violão lançado pelo artista de Michigan, uma tapeçaria imensa de personagens, recortes fictícios, acontecimentos políticos que marcaram a história norte-americana ou mesmo contos transformados em música doces e envolventes. Basta voltar os ouvidos para o clássico Illinois, de 2005, onde a vida do palhaço/assassino serial John Wayne Gacy, Jr. foi explorada com sensibilidade única, constante temática na obra do músico, um habilidoso artesão no controle dos sentimentos, capaz de converter detalhes (e temas) tão particulares, em peças facilmente absorvidas por qualquer ouvinte. Mas e as histórias do próprio Stevens, suas angústias, medos e desilusões: onde elas estão? Ainda que tenha atravessado os últimos 15 anos em meio a delicadas confissões românticas, tormentos e temas cotidianos, poucas vezes o universo particular do cantor estadunidense foi apresentado com tamanha clareza e sensibilidade quanto em Carrie & Lowell. Sétimo trabalho de inéditas do artista, o álbum vai além de um regresso aos planos acústicos que lançaram o instrumentista no começo dos anos 2000, revelando um mergulho soturno na conturbada estrutura familiar do cantor – a base temática que se espalha em cada faixa do registro. Leia o texto completo.

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Tobias Jesso Jr.
Goon (2015, True Panther)

Emoção“, “tristeza“, “sofrimento“. Palavras que invadem a mente do ouvinte tão logo a enxurrada sentimental de Goon tem início em Can’t Stop Thinking About You. Harmonias tímidas de piano, uso controlado, quase imperceptível, de temas percussivos; vocal limpo, esculpido pela angústia do cantor; conceitos, personagens e pequenas confissões redundantes, há décadas desgastadas em diferentes campos da música. Os mesmos versos tristes de amor e separação, o mesmo coração partido, porém, retratado de forma honesta e estranhamente acolhedora por Tobias Jesso Jr. “Mary Ann, eu perdi você em um sonho / Em seguida, o sonho se tornou realidade“. Os versos que inauguram o primeiro registro solo do músico canadense apontam a direção triste que define o restante da obra. São quase 50 minutos em que tormentos pessoais, personagens (femininos) e incontáveis delírios alcoólicos brincam com a percepção amargurada de Jesso Jr, em poucos minutos, uma representação compatível de qualquer ouvinte sofredor. Ainda que vocais “sorridentes” tentem sobreviver ao longo do trabalho, é a tristeza que sustenta e ocupa as brechas de cada canção.

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Tulipa Ruiz
Dancê (2015, Natura)

Aos gritos de “Começou! Começou!”, Tulipa Ruiz anuncia: o acesso à pista de dança foi liberado. Fuga evidente do “pop florestal” que apresentou a cantora paulistana em Efêmera, de 2010, Dancê não apenas reforça o caráter urbano que orienta o trabalho da artista desde o último álbum de estúdio, Tudo Tanto (2012), como entrega ao público uma cantora renovada, mais uma vez atenta ao som pop dos primeiros registros, porém, descomplicada e, claro, dançante. Quem esperava pela produção de um som “regional” por parte de Ruiz, marca explícita no ritmo carnavalesco de Megalomania ou na recente colaboração com o paraense Felipe Cordeiro, em Virou, encontrará o oposto. Da flexibilidade das guitarras ao posicionamento enérgico dos vocais, dos versos que discutem temas cotidiano ao transparente véu eletrônico que cobra parte do trabalho, Ruiz caminha pelas pistas da capital paulista de forma a produzir um som homogêneo, quase acizentado, como uma fuga da atmosfera “hippie” lançada em faixas como A ordem das árvores ou Efêmera. Curioso pensar que parte expressiva do recente trabalho foi concebido no isolamento de uma casa de campo, no interior de São Paulo. Contrário ao efeito causado pelo próprio título, Dancê está longe de parecer um arrasa-quarteirões das pistas de dança, pronto para ser tocado em qualquer balada. Ainda que músicas como inaugural Prumo e Físico praticamente obriguem o ouvinte a balançar o esqueleto, do primeiro ao último ato, o terceiro álbum de Tulipa parece feito para dançar com calma, livre de excessos ou diálogos exagerados com a eletrônica

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Viet Cong
Viet Cong (2015, Jagjaguwar/Flemish Eye)

Vozes parcialmente ocultas pela ambientação caseira das gravações; guitarras sujas, talvez extraídas de algum registro esquecido do pós-punk nova-iorquino. No interior das canções, o aproveitamento “matemático” das palavras, como se a sobreposição cacofônica dos versos servisse de estímulo para a tsunami de distorções que chega em ondas, corroendo a mente do ouvinte ao longo do registro. Descrição de alguma obra (clássica) do Swans, Suicide ou mesmo Sonic Youth no início de 1980? Não, apenas a estrutura caótica que alimenta o primeiro álbum de estúdio da banda canadense Viet Cong. Nascido da separação do Women, em 2012, de onde vieram Matt Flegel (vocal/guitarra) e Mike Wallace (baterista), a banda completa por Soctt Munro (guitarra) e Daniel Christiansen (baixo) ecoa como natural surpresa mesmo para aqueles que acompanharam o trabalho do extinto coletivo de Calgary. Acomodado em um território (musical) amplo, tão íntimo da presente cena norte-americana como do rock sujo do final dos anos 1970, o quarteto brinca com as possibilidades em cada peça do autointitulado debut, transformando arranjos tão autorais em criações íntimas de gigantes do Art Rock. Leia o texto completo.


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