Os 25 Melhores Discos de 2016 (Até Agora)

Do pop político de Beyoncé ao último disco de David Bowie, do som nostálgico de Mahmundi ao Hip-Hop de Rashid, completamos o primeiro semestre de 2016 com uma sequência de grandes lançamentos musicais. Seja na cena estrangeira – com nomes como Kanye West, James Blake, Radiohead e ANOHNI – ou em território nacional – acompanhado de Céu, Metá Metá, Jonathan Tadeu e Raça –, sobram obras de peso e trabalhos que se relacionam com diferentes gêneros e tendências. Com a chegada do mês de junho, apresentamos nossa tradicional lista com os 25 melhores discos lançados nos últimos seis meses. Obras nacionais e estrangeiras que passeiam por diferentes estilos como jazz (A Cosmic Rhythm With Each Stroke), Folk (Light Upon The Lake), rap (Coloring Book), indie (Teens of Denial) e pop (Lemonade). Sentiu falta de algum álbum? Use os comentários para montar a sua lista com os melhores lançamentos de 2016 (até agora).

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Anderson .Paak
Malibu (2016, EMPIRE / OBE / Steel Wool / Art Club)

A colorida capa de Malibu (2016) indica o caminho assumido por Anderson .Paak no segundo álbum de estúdio. Em um passeio atento pelo Hip-Hop, Soul, Jazz e R&B de diferentes épocas e tendências, o cantor/rapper norte-americano finaliza uma obra tão íntima do trabalho assinado por veteranos como D’Angelo (Brown Sugar), Outkast (Aquemini) e Dr. Dre (The Chronic), quanto de novos representantes da música negra estadunidense, principalmente Kendrick Lamar (To Pimp a Butterfly) e Chance The Rapper (Surf). Ambientado no mesmo universo temático do antecessor Venice, de 2014, o presente álbum utiliza de um rico acervo de histórias pessoais, personagens e conflitos extraídos de diferentes pontos da cidade de Los Angeles como um instrumento de construção dos versos. Canções que amarram cenários e sentimentos (Parking Lot), reflexões sobre o passado e presente (The Bird) ou mesmo pequenas realizações de Paak (The Dreamer), sempre preservando o colorido (e imenso) cenário que cresce ao fundo da obra. Musicalmente detalhista, Malibu parece montado para seduzir o ouvinte logo nos minutos iniciais. São orquestrações delicadas, metais, sintetizadores resgatados da década de 1970 e todo um arsenal de colagens que reforçam a sonoridade versátil do disco. Uma obra atual, capaz de dialogar com a mesma produção de To Pimp a Butterfly e toda a curta discografia de Thundercat. Flertes e pequenas adaptações, mas que em nenhum momento distorcem a base autoral explorada por Paak desde os tempos como Breezy Lovejoy. [Leia o texto completo]

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ANOHNI
HOPELESSNESS (2016, Secretly Canadian / Rough Trade)

Antony Hegarty sempre manteve um forte interesse pela música eletrônica. Ainda que a cantora e compositora norte-americana tenha passado a última década mergulhada em elementos do folk e chamber pop, sobrevive na sequência de faixas assinadas de forma colaborativa o real fascínio da musicista pelo gênero. Experimentos como o som dançante de Blind, clássico em parceria com o grupo nova-iorquino Hercules and Love Affair, e até canções “menores”, como Tears for Animals, ao lado da dupla Cocorosie, além da série de faixas divididas com a islandesa Björk – vide Dull Flame Of Desire e Atom Dance. Em Hopelessness (2016, Secretly Canadian / Rough Trade), primeiro trabalho de Hegarty sob o título de ANOHNI, é onde essa relação com os temas eletrônicos se intensifica e cresce. Primeiro registro de inéditas desde o delicado Swanlights, de 2010, o novo álbum altera não apenas a paisagem sonora que cerca a musicista, mas a própria figura de Hegarty, violenta e fortemente influenciada por temas políticos a cada novo movimento do trabalho. Uma versão angustiada da mesma personagem que subiu ao palco para gravar o disco ao vivo Cut the World, em 2012. [Leia o texto completo]

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Beyoncé
Lemonade (2016, Parkwood / Columbia)

Coreografias transformadas em atos de enfrentamento à violência policial, símbolos e fotografias reforçando a luta da comunidade negra, o cabelo crespo em oposição ao alisamento, New Orleans embaixo d’água. Em fevereiro deste ano, quando apresentou ao público o clipe de Formation, Beyoncé parecia revelar apenas a ponta do imenso iceberg de referências do novo registro de inéditas. Em Lemonade (2016, Parkwood / Columbia), sexto álbum de estúdio da cantora e compositora norte-americana, um mundo de detalhes, citações, personagens e histórias que dialogam diretamente com o passado e a cultura negra dos Estados Unidos. Do título inspirado em uma fala da avó de Jay-Z – “eles me serviram limões, mas eu fiz uma limonada” –, passando pelo clássico discurso de Malcolm X – “quem te ensinou a se odiar?” – e versos assinados pela poetisa queniana Warsan Shire, Lemonade se projeta como uma obra a ser desvendada de forma atenta. Seja na estrutura musical que orienta o disco – repleta de bases extraídas de clássicos do soul, blues Hip-Hop e R&B –, até alcançar o registro visual que sustenta o trabalho – uma parceria entre a cantora e diretores como Jonas Åkerlund, Mark Romanek e Melina Matsoukas -, uma rica tapeçaria conceitual se desenrola da abertura do disco, com Pray You Catch Me, ao fechamento em Formation. [Leia o texto completo]

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Bilhão
Bilhão (2016, Balaclava Records)

Versos que detalham a passagem do tempo, guitarras essencialmente sutis e a constante sensação de acolhimento. Em Bilhão (2016, Balaclava Records), delicado registro de estreia do projeto comandado pelos músicos Felipe Vellozo (Séculos Apaixonados, Mahmundi) e Gabriel Luz (Crombie), todos os elementos que abastecem a obra são apresentados ao público com leveza, como a passagem para um ambiente que se faz convidativo, um verdadeiro recanto instrumental e lírico. Tendo como base Atlântico Lunar e Horizontalidade, composições que apresentaram o trabalho da dupla carioca há poucos meses, vozes e arranjos flutuam em um aconchegante colchão de melodias tímidas e litorâneas. Sem pressa, ainda que efêmero – são apenas sete faixas e pouco mais de 20 minutos de duração -, o álbum segue à risca o verso central que salta da canção de abertura: “…que o tempo passa / Gordo e devagar”. Em uma nuvem de sons e versos oníricos, típicos da recente safra do Dream Pop norte-americano, cada uma das sete composições que abastecem o disco seguem dentro uma medida própria de tempo. Nada de exageros, quebras bruscas ou possíveis alterações na ordem inicialmente apontada pela canção de abertura. Do jangle pop de Três da Tarde, passando pelo som acústico de Tô pra ver o tempo, até alcançar as derradeiras Mar de Vapor e The Effect, tudo flui com tranquilidade. [Leia o texto completo]

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Cabana Café
Moio (2016, Balaclava Records)

Existe uma diferença enorme entre o som produzido para as composições de Panari (2013), primeiro álbum de estúdio da Cabana Café, e o recém-lançado Moio (2016). Longe do pop óbvio explorado há três anos pelo coletivo paulistano, são vozes e arranjos complexos, por vezes experimentais, que aproximam o ouvinte de um novo jogo de possibilidades. Retalhos instrumentais, ruídos e temas essencialmente efêmeros, como se um delicioso suspiro criativo orientasse cada ato da banda. Como a ascendente Vândalo, faixa de abertura do disco indica, Moio carrega um precioso toque de disco ao vivo. Guitarras e batidas exploradas de maneira fluida; o sintetizador atmosférico, como uma manta, cobrindo as pequenas lacunas da obra; a voz sempre presente e instável da vocalista Rita Oliva – tão provocante quanto no trabalho produzido há poucos meses com Superfície (2015), delicada estreia do P A R A T I. Blocos que se encaixam lentamente, como uma curiosa jam session. [Leia o texto completo]

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Car Seat Headrest
Teens of Denial (2016, Matador)

Guitarras sujas que atravessam a discografia do Guided By Voices e tropeçam na obra do Yo La Tengo. Versos irônicos, tão íntimos de Stephen Malkmus quanto das canções do Belle and Sebastian. O canto melódico The New Pornographers em contraste ao grito seco de Ted Leo and the Pharmacists. Delírios de um registro assinado por diferentes nomes da cena independente norte-americana? Longe disso. Em Teens of Denial (2016, Matador), novo álbum Car Seat Headrest, fragmentos criativos vindos de diferentes décadas e cenários servem como estímulo para a construção de uma obra tão intensa e versátil quanto trabalhos produzidos na década de 1990 e começo dos anos 2000. Entregue ao público poucos meses após o lançamento de Teens of Style (2015), obra que apresentou oficialmente o trabalho do grupo comandado por Will Toledo, o registro de 12 composições extensas mostra a capacidade da banda em brincar com as referências sem necessariamente perder a própria essência musical. Canções que poderiam se encontradas em obras de artistas como Beck (Drunk Drivers / Killer Whales) e Pixies (Just What I Needed / Not Just What I Needed), mas que acabam encantando pela poesia descompromissada e guitarras sempre vivas de Toledo. [Leia o texto completo]

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Céu
Tropix (2016, SLAP)

Batidas e vozes minimalistas, sintetizadores carregados de efeitos, o baixo volumoso e guitarras sempre precisas, levemente dançantes, como uma delicada ponte para diferentes épocas e tendências da música eletrônica. Quatro anos após o lançamento do psicodélico Caravana Sereia Bloom (2012), Céu se despede do som enevoado de composições como Retrovisor e Amor de Antigos para investir em pequenos experimentos e temas sintéticos, marca do quarto registro de inéditas da cantora, Tropix (2016, SLAP). Precioso em cada sussurro, batida ou entalhe eletrônico, o álbum, uma parceria entre a cantora paulistana, Pupillo, baterista do Nação Zumbi, e o músico francês Hervé Salters, traz de volta a mesma atmosfera letárgica incorporada no clássico Vagarosa, de 2009. Uma obra de limites bem definidos, estratégica, conceito explícito na confessional e crescente Perfume do Invisível, música de abertura do disco, e uma espécie de trampolim criativo para o ondulado de beats que vai do Trip-Hop de Bristol ao som atmosférico dos anos 1970. [Leia o texto completo]

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Chance The Rapper
Coloring Book (2016, Independente)

A grande beleza no trabalho de Chance The Rapper sempre esteve na proximidade entre o artista e o coletivo de vozes, produtores e instrumentistas convidados a atuar dentro de cada registro de estúdio. Da bem-sucedida apresentação em Acid Rap, de 2013, passando pelo colaborativo Surf, álbum lançado em parceria com o grupo Donnie Trumpet & The Social Experiment, em 2015, cada projeto assumido pelo rapper de Chicago, Illinois parte da criativa interferência de ideias e nomes vindos de diferentes campos da música negra. Em Coloring Book (2016, Independente), terceira e mais recente mixtape de Chance, uma detalhada continuação desse mesmo conceito colaborativo explorado nos últimos trabalhos do rapper. Mais do que um registro assinado individualmente, um espaço que se abre para a completa interferência, canto e colagem de rimas assinadas por diferentes artistas. São 14 composições que autorizam a passagem de nomes como Kanye West, Lil Wayne, Future, Justin Bieber, Young Thug e Ty Dolla $ign. [Leia o texto completo]

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David Bowie
★ (2016, RCA / Columbia)

I’m not a popstar / I’m not a film star / I’m not a wandering star / I’m a blackstar, I’m a blackstar”. A negativa sequência de versos espalhada nos instantes iniciais de Blackstar apontam a direção do 25º álbum de estúdio de David Bowie. Em ★ (2016, RCA / Columbia), segundo registro de inéditas do cantor e compositor britânico desde o regresso com The Next Day, de 2013, um catálogo de temas sombrios, pessimistas e essencialmente cotidianos se agrupam de forma a sufocar o ouvinte. Um misto de reverência e reinvento que passeia por elementos da discografia do cantor, mas que em nenhum momento ecoa como uma gasta reciclagem de ideias. Imerso em uma solução de temas “jazzísticos” e experimentos anteriormente testados em obras como Station to Station (1976) e Heathen (2002), ★ mostra um artista que conseguiu alcançar a maturidade, porém, continua em busca de novas ferramentas, ritmos e possibilidades a serem exploradas em estúdio. Da sonoridade flexível e detalhista de ‘Tis a Pity She Was a Whore aos entalhes eletrônicos de I Can’t Give Everything Away, poucas vezes o título de “camaleão do rock” de Bowie pareceu tão coeso. [Leia o texto completo]

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DIIV
Is the Is Are (2016, Captured Tracks)

Ouvir Is the Is Are (2016, Captured Tracks) é como ser arrastado para dentro de um imenso turbilhão de emoções, ruídos e sentimentos confessos. Guitarras crescem e encolhem a todo o instante, sempre replicando diferentes conceitos instrumentais explorados nas décadas de 1980 e 1990. Uma colisão de fórmulas, referências e pontes atmosféricas que sustentam na voz abafada do líder Zachary Cole Smith a base para o nascimento de letras marcados por temas pessoais (Out of Mind), delírios (Take Your Time) e conflitos amorosos (Dopamine). Musicalmente amplo, livre do pós-punk hermético produzido durante o lançamento de Oshin(2012), álbum de estreia do DIIV, Is the Is Are é uma obra que lentamente brinca com as possibilidades. Ruídos ásperos que abraçam o shoegaze em Incarnate Devil, solos de guitarra essencialmente melódicos em Mire (Grant’s Song), a voz doce, por vezes pegajosa, de Smith emDopamine e Under the Sun. Pouco mais de 60 minutos de duração em que o grupo nova-iorquino arremessa o ouvinte para todas as direções. [Leia o texto completo]

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James Blake
The Colour in Anything (2016, 1-800 Dinosaur / Polydor)

Livre dos experimentos e da eletrônica torta explorada no primeiro registro de estúdio, em 2013, com o lançamento de Overgrown, James Blake abraçou de vez a relação com o soul/R&B. Do canto melancólico que cresce em músicas como Retrograde e Life Round Here ao uso delicado das batidas e vozes, cada faixa do segundo álbum de inéditas do cantor e produtor britânico confirma a busca por um som descomplicado, acessível aos mais variados públicos, preferência que se reforça com o terceiro e mais recente trabalho do produtor, o extenso The Colour in Anything (2016, 1-800 Dinosaur / Polydor). Produzido em um intervalo de dois anos, entre 2014 e 2016, o registro de 17 faixas e quase 80 minutos de duração chega até o público como o trabalho mais sensível, maduro e intimista de Blake. A cada curva do trabalho, um novo lamento solitário. Versos que mergulham em conflitos sentimentais (Love Me in Whatever Way), declarações de amor (Always) e tormentos (My Willing Heart) que confirmam a versatilidade do jovem artista -– possivelmente o maior soulman britânico da presente década. [Leia o texto completo]

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Jonathan Tadeu
Queda Livre (2016, Independente)

Eu juro por Deus / Que eu me esforço / Mas não posso deixar você / Esperando a saudade nascer em mim”. A angústia toma conta de grande parte dos versos de Queda Livre (2016, Independente). Segundo e mais recente álbum de inéditas do cantor e compositor mineiro Jonathan Tadeu, o sucessor do entristecido Casa Vazia (2015) mostra a evolução do artista em relação ao trabalho apresentado há poucos meses. Versos que traduzem a amargura do próprio compositor, mas que acabam criando uma espécie de relação e intimidade com o ouvinte. “Talvez seja melhor / Aprender a lidar/  Com a própria solidão / Antes de viver a dos outros”, canta em Ninguém se Importa, um sadcore econômico, típico dos trabalhos de Elliott Smith, e que parece servir de base para toda a sequência de apenas 10 composições que recheiam o disco. Um som angustiado, intimista, proposta que acompanha o ouvinte até os últimos instantes do trabalho, vide a derradeira O mundo é um lugar bonito e eu não tenho mais medo de morrer – “Quanto mais me impediam de ser, mais eu ia sendo tudo aquilo que eu não podia ser”. [Leia o texto completo]

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Kanye West
The Life of Pablo (2016, Def Jam / G.O.O.D. Music

The Life of Pablo (2016, Def Jam / G.O.O.D. Music) é uma obra imperfeita. A melodia suja que escapa dos sintetizadores de Feedback, um descompassado toque de celular ao fundo de 30 Hours, o falso canto gospel que “amarra” as canções, ou mesmo a indecisão de Kanye West na escolha do título e faixas que seriam apresentadas na edição final do disco. Elementos que sintetizam a permanente sensação de descontrole que acompanha o ouvinte durante os mais de 50 minutos do trabalho. Um cenário essencialmente instável, passagem torta para um dos registros mais confuso e ao mesmo tempo brilhantes de toda a curta discografia do rapper norte-americano. Imerso em uma egotrip que ultrapassa a autoafirmação expressa no antecessor YEEZUS (2013) – obra em que o próprio rapper se compara a Deus -, West discute a própria divindade (Ultralight Beam), exalta novas conquistas (Highlights) e até brinca com o egocentrismo do álbum na cômica (ou profundamente realista) I Love Kanye – “E se Kanye fizesse um som sobre Kanye?”. Nada que se compare ao lirismo excessivamente egocêntrico de Famous. Entre samples de BAM BAM, da cantora Sister Nancy, e versos divididos entre Rihanna e Swizz Beatz, o rapper provoca o mundo das celebridades e dispara contra Tayler Swift: “Sinto como se eu e Taylor ainda pudéssemos fazer sexo / Por quê? Por que eu fiz ela famosa”. [Leia o texto completo]

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^L_
The Outsider (2016, ANTIME)

Há dois anos, quando lançou o primeiro álbum da carreira, Love is Hell (2014), o brasiliense Luis Fernando, ou simplesmente ^L_, parecia caminhar em um terreno de pequenas incertezas. O canto torto de Justin Timberlake em My heart is a quasi-stellar radio source, a eletrônica suja, ancorada em diferentes regras e referências nostálgicas, ruídos e temas dançantes que pareciam transportar o ouvinte para diferentes cenários em um curto espaço de tempo. Um permanente ziguezaguear de possibilidades que assume um caminho ao mesmo tempo instável e coeso dentro do segundo álbum do produtor: The Outsider (2016, ANTIME). Logo na abertura do disco, a versatilidade e o equilíbrio da crescente Phill Spector. Delicado resumo de toda a obra, a canção inicialmente alimentada por sintetizadores e ambientações brandas – um típico fragmento de Brian Eno em clássicos como Ambient 1: Music For Airports(1978) e Apollo: Atmospheres and Soundtracks (1983) -, lentamente se parte em um mundo de colisões e batidas instáveis. Ruídos, efeitos e encaixes certeiros que aproximam a obra da mesma cena eletrônica que abasteceu a cena britânica no começo dos anos 1990.

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Mahmundi
Mahmundi (2016, StereoMono)

Marcela Vale passou os últimos quatro anos colecionando hits. Do som empoeirado de Efeito das Cores, EP lançado em 2012, passando pelo R&B melancólico que cresce em Setembro, bem-sucedido registro de 2013, cada trabalho assinado pela cantora e compositora carioca parece estreitar a relação entre o pop nostálgico da década de 1980 e a som que marca o presente cenário. Uma colisão de ideias, melodias e vozes que acabou resultando em faixas como Calor do Amor e Sentimento – vencedora na categoria Nova Canção no Prêmio Multishow de 2014 –, base para a pequena “coletânea” que marca a homônima estreia da jovem artista. Das dez composições entregues pela cantora, apenas cinco foram produzidas especialmente para o registro – que conta com distribuição pelo selo StereoMono, casa de artistas como JalooBoogarins. Quase sempre, Calor do Amor e Desaguar, resgatadas de Efeito das Cores; Leve inicialmente apresentada no EP Setembro, enquanto Sentimento, faixa de encerramento do disco, foi originalmente lançada em 2014. Canções já conhecidas do público fiel da artista, porém, musicalmente reformuladas, íntimas da mesma ambientação límpida que orienta o restante do trabalho. [Leia o texto completo]

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maquinas
Lado Turvo, Lugares Inquietos (2016, Bichano Records)

Lado Turvo, Lugares Inquietos. Não é difícil se perder no interior das canções produzidas pelo grupo cearense maquinas. Dos versos descritivos, lamúrias e histórias que movimentam a obra, passando pela densa base atmosférica que se espalha do primeiro ao último ato de cada composição, todos os elementos que abastecem o obscuro registro parecem pensados de forma cercar e sufocar o ouvinte. Um cenário melancólico, essencialmente caótico e sujo como o próprio título do álbum parece indicar. “A TV sempre ligada / Minha cama desfeita / E eu me sinto bem / No mundo que eu criei“, confessa a voz arrastada da inaugural Quarto Mudo enquanto uma rica tapeçaria instrumental cresce lenta e delicadamente. São pouco mais de 10 minutos de ruídos, sobreposições etéreas e distorções que preparam o terreno para o restante da obra. Um acervo econômico, propositadamente restrito, porém, atrativo pela forma como cada composição revela ao público um mundo de detalhes e fórmulas instáveis. [Leia o texto completo]

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Metá Metá
MM3 (2016, Independente)

Duas composições inéditas – Atotô, Sozinho – e uma curiosa interpretação do clássico Me Perco Nesse Tempo – canção originalmente apresentada em 1986 pela banda de pós-punk paulistana As Mercenárias, e, posteriormente, regravada pelo Ira! como parte do álbum 7, dez anos depois. Entregue ao público em maio do último ano e passando quase despercebido pelo público da banda, Metá Metá EP (2015) hoje parece anunciar a mudança de direção que marca o terceiro e mais recente álbum de inéditas do Metá Metá, MM3 (2016, Independente). Do ritmo intenso e voz forte de Juçara Marçal em Angoulême, passando pelo toque semi-carnavalesco que invade Corpo Vão, até alcançar a extensa Oba Koso, faixa de encerramento do disco, todos os elementos do presente disco se articulam de forma a revelar um material tão intenso e urgente quanto o bem-sucedido acervo apresentado no álbum MetaL MetaL, de 2012. Uma colisão de ideias e referências que incorporam elementos da cultura africana, jogam com emanações jazzísticas dos anos 1970 e acabam encontrando no punk um novo direcionamento para o trabalho da banda. [Leia o texto completo]

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Nvblado
Água Rosa (2016, Bichano Records)

Eu fiz de tudo pra você ficar em paz / Agora é minha vez de encontrar a paz / Não vou ficar pra trás“. A letra cantada aos berros em Pedra Do Velho, faixa de abertura do melancólico Água Rosa (2016, Bichano Records), indica a mudança de direção dentro do novo trabalho de estúdio da banda catarinense Nvblado. Longe do desespero que parecia orquestrar grande parte das composições apresentadas no antecessor Afogado, de 2013, são versos marcados pela ruptura e libertação que orientam a “nova fase” da grupo. Entre atos instrumentais extensos, refúgios melódicos e faixas que ultrapassam os 10 minutos de duração, gritos e versos desesperados do vocalista Renan Pamplona clamam pela mudança. “Quero fugir daqui, quero sair de mim / Quero que o vento me leve pra longe da onde o tempo me persegue”, confessa o músico na derradeira Asma, composição que resume com naturalidade todo o curto acervo lírico que movimenta as cinco canções da presente obra. [Leia o texto completo]

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Parquet Courts
Human Performance (2016, Rough Trade)

Evoluir sem necessariamente perverter a própria essência musical. Dois anos após o lançamento da dobradinha Sunbathing Animal (2014) e Content Nausea (2014) – este último, apresentado ao público sob título de Parkay Quarts – Andrew Savage (voz, guitarras), Austin Brown (voz, guitarras), Sean Yeaton (baixo) e Max Savage (bateria) estão de volta um novo registro de inéditas do Parquet Courts: Human Performance (2016, Rough Trade). Obra mais “ousada” de toda a discografia dos nova-iorquinos, musicalmente o presente álbum dá um salto em relação ao material produzido anteriormente pela banda. Ainda que o diálogo com elementos do pós-punk e rock alternativo dos anos 1990 seja mantido durante toda a execução do trabalho, pouco do som pensado para os iniciais American Specialties (2011) e Light Up Gold(2012) parece ter sobrevivido, revelando um claro exercício de reposicionamento por parte do quarteto. Mesmo que a inaugural Dust sirva para exemplificar toda a transformação da banda, detalhando uma coleção de sintetizadores cósmicos e guitarras crescentes, típicas de gigantes como The Velvet Underground, está na própria faixa-título do disco a busca por um conjunto de novas possibilidades. Um material inicialmente tímido, mas que logo transporta o quarteto para um novo cenário, como se o grupo exagerasse de forma propositada na utilização de efeitos e distorções. [Leia o texto completo]

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Raça 
Saboroso (2016, Freak)

De vozes e arranjos minimalistas, propositadamente restritos, Saboroso (2016, Freak), segundo álbum de estúdio da banda paulistana Raça, sustenta nos detalhes a real beleza de cada composição. Músicas ancoradas em conflitos pessoais, medos e temas cotidianos que se destacam dentro do ambiente urbano, por vezes claustrofóbico, musicalmente incorporado pelo grupo – Popoto Martins Ferreira (voz e guitarra), Thiago Barros (bateria), Novato Calmon (voz e baixo) e Lucas Tamashiro (guitarra). Como a lancheira escolar que estampa a capa do disco logo indica, Saboroso, diferente do antecessor Deu Branco, de 2014, encontra em versos nostálgicos e histórias de um passado ainda recente um curioso ponto de partida para grande parte das composições. Não se trata de um álbum marcado pela saudade, como reforçou o vocalista Popoto em recente entrevista, mas “memórias de uma fase extremamente instável” de cada integrante da banda. [Leia o texto completo]

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Radiohead
A Moon Shaped Pool (2016, XL)

Apenas não vá embora / Não vá embora / O verdadeiro amor espera / Em sótãos assombrados“ Originalmente apresentada em 1995, durante a turnê de lançamento do álbum The Bends e, posteriormente, registrada como parte da coletânea ao vivo I Might Be Wrong: Live Recordings(2001), a derradeira True Love Waits nasce como o símbolo do novo registro de estúdio do Radiohead. Sucessor do eletrônico The King of Limbs (2011), A Moon Shaped Pool (2016, XL) chega ao público como uma obra segura, essencialmente precisa. Um regresso (in)voluntário ao imenso acervo de composições e temas instrumentais produzidos pelo quinteto inglês nas últimas duas décadas. Das 11 faixas que recheiam o disco, pelo menos seis foram executadas em apresentações ao vivo ou exploradas em diferentes fases e projetos do grupo inglês. Escolhida para a abertura do disco, Burn The Witch, por exemplo, teve fragmentos da própria letra publicados na contracapa do álbum Hail To The Thief, de 2003. A mesma canção ainda foi objeto de discussão entre os integrantes durante as sessões de Kid A (2001) e In Rainbows (2007), sendo finalizada há poucos meses. Mesmo ancorado no passado, A Moon Shaped Pool está longe de parecer uma preguiçosa reciclagem de conceitos antigos. Prova disso está na busca do quinteto por uma som remodelado, orquestral, estímulo para a série de colaborações com os músicos da London Contemporary Orchestra. [Leia o texto completo]

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Rashid 
A Coragem da Luz (2016, Independente)

“Você já teve um sonho?”, pergunta Rashid logo nos minutos iniciais de A Coragem da Luz (2016, Independente). Obra de realizações, o primeiro álbum em estúdio do rapper paulistano indica uma completa transformação do artista em relação ao material produzido para as últimas três mixtapes – Dádiva e Dívida (2011), Que Assim Seja (2012) e Confundindo Sábios (2013). Rimas que discutem preconceito, cobiça, os excessos dentro das redes sociais e a convivência em uma sociedade cada vez mais caótica, raivosa, porém, alimentada por instantes breves de esperança. “O que fizemos aos senhores / Além de nascer com essa cor? / E de sorrir lindamente, diante / De nossa amiga dor?”. Tendo como ponto de partida a provocativa A Cena, composição entregue ao público em novembro do último ano, o trabalho de 15 faixas amarra passado e presente em uma estrutura que vai da escravidão (DNA) à horda de zumbis digitais (Laranja Mecânica). Conceitos anteriormente explorados por Criolo em Convoque Seu Buda (2014) e Emicida em O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013), mas que encontram novo enquadramento nas rimas e referências lançadas por Rashid. [Leia o texto completo]

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Vijay Iyer & Wadada Leo Smith
A Cosmic Rhythm With Each Stroke (2016, ECM)

A tristeza corrompe cada nota apresentada em A Cosmic Rhythm With Each Stroke (2016, ECM). Trabalho desenvolvido em parceria entre o pianista e compositor nova-iorquino Vijay Iyer e o trompetista Wadada Leo Smith, um dos veteranos do avant-garde jazz norte-americano, a obra de ambientação sorumbática se espalha lentamente, revelando uma imensa colcha de retalhos marcada por temas intimistas, profundamente sombrios e emocionais. Em um movimento conjunto que vai da abertura do registro, com Passage, e segue até a execução da extensa Marian Anderson, no encerramento da obra, Iyer e o parceiro de estúdio trocam confissões e sentimentos que sutilmente ocupam o interior do trabalho. Uma espécie de canto silencioso, por vezes perturbador, capaz de ocupar os pequenos respiros deixados pelo trompete de Smith e a imensa base instrumental que o pianista detalha até o último instante do álbum. [Leia o texto completo]

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White Lung
Paradise (2016, Domino)

Apresentado ao público em junho de 2014, Deep Fantasy é um verdadeiro exercício de transformação dentro da curta trajetória do White Lung. Ao mesmo tempo em que mantém firme o conceito agressivo explorado nos dois primeiros discos da banda canadense – It’s the Evil (2010) eSorry (2012) –, está na utilização do canto melódico e versos sempre perturbadores da vocalista Mish Way o principal componente para a nova fase do grupo. Em Paradise (2016, Domino), quarto e mais recente álbum de inéditas da banda de Vancouver, uma extensão aprimorada do material apresentado há dois anos. Um fino exercício do desespero e angústia que orienta de forma sempre confessional as canções assinadas por Way. Da abertura do disco, com Dead Weight, passando por músicas como Kiss Me When I Bleed e Demented, a clara sensação de que o White Lung segue em sua melhor fase. Salve exceções, como a densa Below, Paradise despeja uma sequência de guitarras e batidas rápidas, raivosas. Vozes e ruídos que se chocam a cada curva do disco, mantendo firme a urgência do primeiro ao último acorde. A principal diferença em relação aos antecessores Sorry e Deep Fantasy está na utilização de bases e vozes essencialmente melódicas. Um som cada vez mais limpo, “pop”, como se o quarteto canadense fosse capaz de dialogar com uma nova parcela do público. [Leia o texto completo]

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Whitney
Light Upon The Lake (2016, Secretly Canadian)

Versos tristes, declarações de amor e melodias que chegam até o ouvinte com extrema delicadeza. Em Light Upon The Lake (2016, Secretly Canadian), primeiro álbum de estúdio do coletivo norte-americano Whitney, Max Kakacek (ex-integrante do Smith Westerns) e o parceiro Julien Ehrlich (baterista do Unknown Mortal Orchestra) exploram sentimentos, histórias e confissões de forma sempre sensível, revelando ao público uma coleção de músicas essencialmente simples, mas que encantam pela composição agridoce de cada fragmento de voz. Nascido das experiências e temas instrumentais anteriormente incorporados por cada integrante da banda – hoje completa com Josiah Marshall, Will Miller, Malcolm Brown, Print Chouteau e Charles Glanders – o álbum de apenas 10 faixas e exatos 30 minutos de duração parece flutuar entre diferentes cenários, décadas e referências musicais. Melodias aprazíveis, sempre acolhedoras, tão íntimas de veteranos que marcaram o folk psicodélico dos anos 1960/1970, como de nomes recentes, principalmente Girls, The Shins e Fleet Foxes. [Leia o texto completo]

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