Os 25 Melhores Discos de 2017 (Até agora)

 

Quem acompanha a cena nacional sabe que os grandes trabalhos normalmente são apresentados ao público no segundo semestre de cada ano. Curioso perceber na primeira metade de 2017 um rico catálogo de obras que exploram diferentes aspectos da música brasileira. Da passagem de Criolo pelo samba, em Espiral de Ilusão, aos experimentos de artistas como Kiko Dinucci, Boogarins e In Venus, sobram registros que provam de diferentes sonoridades e conceitos, fazendo da tradicional lista dos melhores discos do meio do ano um rico cardápio de lançamentos. Uma vasta seleção de obras que vai da música psicodélica (My Magical Glowing Lens) ao experimentalismo eletrônico (Sentidor).

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Arthur Melo
Agosto (La Femme Qui Roule)

O dedilhado tímido do violão e os versos lentamente assentam no interior do ouvido, preguiçosos: “Eu sigo devagar”. Espécie de complemento ao colorido melódico que inaugura o trabalho do cantor e compositor mineiro Arthur Melo, Café, canção que sucede a homônima faixa de abertura do EP Agosto (2017, La Femme Qui Roule), deliciosamente se espalha como um fio condutor para o registro de temas acústicos e versos confessionais assinados pelo músico de Belo Horizonte. De essência matutina, vagaroso, o trabalho de apenas seis faixas parece desenvolvido para cercar e confortar o ouvinte. Um registro precioso, sorridente e entristecido na mesma medida. “Entra / Mas entra devagar / Não repara na bagunça / Eu não arrumei da última vez que alguém esteve aqui / No final, ele sempre acaba bagunçado”, canta em Coração, música que utiliza da metáfora de um espaço físico (o quarto) para retratar o sofrimento e sentimentos confusos do eu lírico. [Leia o Texto Completo]

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Ayrton Montarroyos
Ayrton Montarroyos (Independente)

Mais conhecido pela participação na quarta edição do programa The Voice Brasil, em 2015, Ayrton Montarroyos tinha tudo para seguir a trilha de outros participantes da competição. Uma boa voz, carisma e a possibilidade de abraçar uma boa parcela do público, efeito da visibilidade óbvia de qualquer apresentação em um palco sob os holofotes da Rede Globo. Vice-campeão, o pernambucano decidiu esperar e resgatar fragmentos de um projeto autoral que vem sendo desenvolvido desde 2013, quando foi convidado a participar do disco em tributo ao centenário de nascimento do músico Luiz Gonzaga (1912 – 1989). Com direção musical do guitarrista Rovilson Pascoal e produção de Thiago Marques Luiz, o autointitulado registro de 11 faixas, estreia solo de Montarroyos, entrega ao público o que há de melhor no trabalho do cantor e compositor pernambucano. Entre versos doces, por vezes sussurrados, o jovem músico amarra quase cinco décadas de referências, indo da sutil interpretação de Diariamente, música composta em 1972 pela dupla Paulo César Gyrão e Gerson, até a presente safra da música popular brasileira. [Leia o Texto Completo]

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BEL
Quando Brinca (Sagitta Records)

A versatilidade talvez seja o principal traço do som produzido pela cantora e compositora carioca Bel Baroni. Mais conhecida pelo trabalho como integrante do coletivo Mohandas – com quem lançou os experimentais Etnopop (2012) e Um Segundo (2015) –, a artista, também integrante do coletivo feminista Xanaxou, sustenta no primeiro álbum em carreira solo, Quando Brinca (2017, Sagitta Records), um espaço para provar de novas sonoridades e pequenas possibilidades dentro de estúdio. Musicalmente colorido, proposta que conversa diretamente com a imagem de capa do disco, trabalho produzido pelo ilustrador Gabrilândia, o álbum de oito faixas passeia por entre diferentes gêneros, colidindo fórmulas e referências pontuais. Fragmentos minimalistas que vão da MPB ao Jazz sem necessariamente fixar residência em um tema específico. Retalhos instrumentais que se comunicam pela forma como os arranjos sutilmente ocupam todas as brechas do disco. [Leia o Texto Completo]

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Bike
Em Busca da Viagem Eterna (Independente)

A viagem continua. Dois anos após o lançamento do primeiro álbum de estúdio, 1943 (2015), os integrantes da banda paulista BIKE estão de volta com um novo registro de inéditas. Intitulado Em Busca da Viagem Eterna (2017, Independente), o lisérgico trabalho de nove faixas mostra o esforço de Julito Cavalcante (guitarra e voz), Diego Xavier (guitarra e voz), Rafa Bulleto (baixo e voz) e Daniel Fumega (bateria) em se reinventar dentro de estúdio. Melodias etéreas, distorções e vozes ecoadas que fazem a mente do ouvinte flutuar. Inaugurado pela leveza de Enigma dos Doze Sapos, o novo álbum se revela sem pressa. Reflexo dos principais conflitos que a banda enfrentou durante a turnê do último disco, a canção de quase quatro minutos acaba se conectando de forma natural ao primeiro registro do grupo, efeito da sutil referência ao título de Enigma do Dente Falso. Um som reflexivo, quase espiritual, proposta que cresce durante a construção da psicodélica Do Caos ao Cosmos, segunda faixa do disco e um indicativo da poesia delirante que invade o trabalho. [Leia o Texto Completo]

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Boogarins
Lá Vem a Morte (OAR)

Não existem regras para a banda goiana Boogarins. Se por um lado o embrionário As Plantas Que Curam (2013) parecia se apropriar da obra de veteranos e novatos da música psicodélica, com a chegada de Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos (2015), finalizado dois anos mais tarde, experimentos contidos e ambientações etéreas serviram de estímulo para a construção de uma fina identidade musical. Um som debochado, enérgico e torto na mesma proporção, como se o permanente exercício de descoberta fosse a base para o trabalho produzido pelo grupo. Prova disso está nas composições do experimental Lá Vem a Morte (2017, OAR). Terceiro e mais recente álbum de inéditas do grupo formado por Fernando “Dinho” Almeida Filho (voz, guitarra), Benke Ferraz (guitarra e sintetizadores), Raphael Vaz Costa (baixo) e Ynaiã Benthroldo (bateria), o trabalho de apenas oito faixas e pouco menos de 30 minutos de duração mostra o esforço do quarteto em se reinventar mesmo em um resumido espaço de tempo. Um “longo EP / curto LP”, como a própria banda apontou no Facebook. [Leia o Texto Completo]

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Criolo
Espiral de Ilusão (Oloko Records)

O samba sempre fez parte da obra de Criolo. Da confessa educação musical​ ancorada em clássicos da música popular brasileira, passando pelo flerte em Linha de Frente, parte do elogiado Nó Na Orelha (2011), até alcançar a poesia metafórica e política de Fermento Pra Massa, fragmento de Convoque Seu Buda (2014), não é de hoje que o artista paulistano se distancia das rimas e batidas do Hip-Hop para subir o morro e abraçar o gênero que tanto o seduz. Uma busca declarada por novas possibilidades, melodias e personagens, mas que alcança melhor refinamento em Espiral de Ilusão (2017, Oloko Records), obra inteiramente dedicada ao samba. Da imagem de capa do disco, trabalho que conta com a assinatura do designer gráfico e ilustrador paranaense Elifas Andreato, artista que já trabalhou com nomes como Chico Buarque (Ópera do Malandro), Martinho da Vila (A Rosa do Povo) e Paulinho da Viola (Nervos de Aço), passando pelo cuidado na composição dos arranjos, resultado da parceria entre os colaboradores Marcelo Cabral e Daniel Ganjaman, Criolo vai além de uma simples “homenagem”. Trata-se de uma obra que incorpora com originalidade e reverência diferentes aspectos do gênero. [Leia o Texto Completo]

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Curumin
Boca (Natura Musical)

Caos urbano, preconceito, a dualidade partidária que divide as redes sociais, política, sexualidade, relações pessoais e descoberta. Em um intervalo de apenas 35 minutos de duração, Luciano Nakata Albuquerque, o Curumin, encontra na pluralidade de temas e referências instrumentais o principal componente para a produção do quarto álbum em carreira solo, Boca (2017, Natura Musical). Versos que inspiram uma forte reflexão sobre diferentes aspectos da nossa sociedade e das interações pessoais que diariamente estimulam os indivíduos. Primeiro registro de inéditas do cantor, compositor e produtor paulistano desde o quente Arrocha, lançado em 2012, o novo álbum sustenta na percussão o principal componente para a construção das faixas. Da abertura do disco, na climática Bora Passear, passando pelo uso de temas eletrônicos em Boca Pequena Nº1, até alcançar o tribal-tech de Cabeça ou mesmo a ambientação contida de Descendo, Curumin, baterista da própria banda, faz de cada batida um estímulo para a inserção dos versos. [Leia o Texto Completo]

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Djonga
Heresia (Ceia Ent.)

Respire fundo. Tome fôlego. Você vai precisar. Em avalanche de rimas tortas, batidas secas, ataques que não poupam ninguém e reflexões sóbrias sobre o cotidiano de qualquer grande cidade, o mineiro Djonga faz do novo álbum em carreira solo, Heresia (2017, Ceia Ent.), uma obra necessária. Letras que atravessam a periferia, discutem racismo, drogas, sexo e criminalidade sem necessariamente tropeçar no óbvio. Uma extensão madura de tudo aquilo que o rapper vem produzindo desde a estreia com O Bom Maluco ou mesmo em parceria com o coletivo DV Tribo. Urgente, o trabalho de dez faixas se revela logo nos primeiros minutos. Da hipocrisia e corrupção pessoal escancarada nos versos de Corre nas Notas (“Esses manos são de dar dó / Mais falsos que Fábio Assunção parar de cheirar pó / Mais falsos que broxar pela primeira vez“), passando pela poesia caótica de Entre o Código da Espada e o Perfume da Rosa (“Sigo frio tipo a noite no Saara ó / A vida é um filme de terror / Sem diretor, sem tempo pra ensaiar / Eu tô num filme de terror“), Djonga passeia por diferentes histórias, cenas e personagens sem necessariamente manter o foco em um tema específico. [Leia o Texto Completo]

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Emicida / Rael / Capicua / Valete
Língua Franca (Sony Music / Laboratório Fantasma)

Não é de hoje que Emicida encontrou no trabalho em parceria com diferentes artistas o principal combustível para um novo registro autoral. Da colaboração com Projota e Rashid em 3 Temores in Concert: Ao Vivo no Estúdio Emme (2012), passando pela série de encontros dentro de cada novo álbum de estúdio – caso de Tulipa Ruiz, Criolo, Pitty, Juçara Marçal e Caetano Veloso –, a rima do rapper paulistano assume novos contornos e invade territórios quando completa pelo diálogo criativo com outro nome de peso da música – seja ele representante do Hip-Hop ou não. Em Língua Franca (2017, Sony Music / Laboratório Fantasma), mais recente trabalho apresentado pelo artista, não poderia ser diferente. Trata-se de um bem-sucedido encontro entre o rapper paulistano, o parceiro de longa data, Rael, e os colaboradores portugueses Capicua e Valete. São dez composições que contam com a produção dividida entre Kassin, Fred Ferreira e NAVE Beatz. Rimas, batidas e histórias que fazem da língua portuguesa a ponte e atravessa o Oceano Atlântico e aproxima Brasil e Portugal. [Leia o Texto Completo]

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Figueroas
Swing Veneno (Deck Disc / Läjä Records)

Não poderia existir melhor época para o lançamento de Swing Veneno (2017, Deck Disc / Läjä Records). Segundo registro de inéditas do Figueroas, projeto comandado pela dupla alagoana Givly Simons (vocal) e Dinho Zampier (órgão, sintetizador), o trabalho de dez faixas funciona como um curioso rito de passagem para a chegada do Carnaval. Uma solução de versos, batidas e melodias quentes, sempre provocantes, ponto de partida para cada uma das canções dissolvidas no interior da obra. Tal qual o caloroso registro entregue em 2015, Lambada Quente, o novo álbum se espalha em meio a sintetizadores, versos marcados pela comicidade e batidas que nascem como um convite à dança. Uma mistura de ritmos que joga com o som e a essência do carimbó, se espalhando em meio a flertes com a música eletrônica, pop, cúmbia, brega e todo um universo de referências extraídas de diferentes épocas e tendências da música popular brasileira. [Leia o Texto Completo]

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Giovani Cidreira
Japanese Food (Balaclava Records / Natura Musical)

É necessário tempo até absorver o primeiro álbum de estúdio do cantor e compositor baiano Giovani Cidreira. Na contramão de outros registros próximos, o músico, ex-integrante do grupo Velotroz, faz de cada instante dentro da estreia em carreira solo um curioso experimento. Ideias que passeiam pela obra do Clube da Esquina, mergulham no pós-punk de artistas como The Fall e The Smiths, passeiam pelo pop rock de grupos como Legião Urbana e ainda crescem de forma a dialogar com o mesmo rock confessional de novatos como Mac DeMarco e outros compositores recentes. De essência curiosa, Japanese Food (2017, Balaclava Records / Natura Musical) flutua entre o passado e o presente de forma a bagunçar a interpretação do ouvinte. Se em instantes as guitarras e distorções de Movimento da Espada aproximam o ouvinte de algum lugar no começo dos anos 1980, bastam os arranjos melódicos e a voz forte de Um Capoeira para mergulhar o público em um universo completamente distinto, por vezes íntimo da mesma psicodelia que alimentou a obra de Milton Nascimento em grande parte dos anos 1970. [Leia o Texto Completo]

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In Venus
Ruína (Howlin’ Records / PWR Records / Efusiva / Hérnia de Discos)

Feminismo, libertação sexual, consumismo, padronização coletiva, meio ambiente e caos. Em um intervalo de apenas 30 minutos, esses são alguns dos principais temas que movimentam as canções de Ruína (2017), primeiro álbum de estúdio do grupo paulistano In Venus. Uma intensa (e amarga) interpretação de tudo aquilo que invade o nosso cotidiano. Estímulo criativo para a poesia urgente do quarteto formado por Cint F. (voz e teclados), Camila Ribeiro (bateria), Rodrigo Lima (guitarras) e Patricia Saltara (baixo). Nascido da propositada colisão de ideias e influências, o trabalho de nove faixas segue exatamente de onde a banda parou há poucos meses, durante o lançamento da enérgica Mother Nature. Ecos do pós-punk inglês (Joy Division, The Fall), passagens pelo movimento Riot Grrrl no começo dos anos 1990 (Bikini Kill, Sleater-Kinney), ruídos e captações caseiras que perturbam a audição do ouvinte durante toda a construção da obra. Uma rica base melódica que serve de estimulo para a formação dos versos. [Leia o texto completo]

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Jonathan Tadeu
Filho do Meio (Geração Perdida)

Em meio ao ambiente denso e melancólico de Queda Livre (2016), segundo registro em carreira solo do mineiro Jonathan Tadeu, o minimalismo eletrônico de Sorriso Besta parecia surgir como uma fuga conceitual do som produzido pelo artista desde o debut Casa Vazia (2015). Uma lenta sobreposição de batidas e melodias sintéticas, delicado pano de fundo para a poesia sensível, sempre intimista e particular assinada pelo artista de Belo Horizonte. Isolada, uma curva instrumental que cresce de forma a ocupar o terceiro e mais recente álbum do músico, Filho do Meio (2017, Geração Perdida). Precioso exercício criativo, o trabalho finalizado em poucos meses reforça a comunicação e forte relação de proximidade entre Tadeu e o parceiro de produção do disco, o músico João Carvalho (El Toro Fuerte, Sentidor, Rio Sem Nome). Em um intervalo de apenas 26 minutos, tempo de duração da obra, lembranças recentes e reflexões sobre o cotidiano do próprio artista delicadamente dançam na cabeça do ouvinte. Um som doce, leve, como um breve respiro dentro da presente fase na carreira do cantor mineiro. [Leia o Texto Completo]

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Jude
Ainda Que de Ouro e Metais (Crooked Tree Records)

Não faltam registros inspirados na boa safra do rock psicodélico produzido entre o final dos anos 1960 e começo da década de 1970. Trabalhos ancorados de forma explícita na obra de veteranos da música nacional – como Os Mutantes e Clube da Esquina –, ou mesmo gigantes da cena estrangeira – principalmente The Beatles e Pink Floyd. Todavia, poucos são os registros capazes de ir além da mera reciclagem de conceitos, sufocando pela completa ausência de identidade. Prazeroso encontrar em Ainda Que de Ouro e Metais (2016, Crooked Tree Records), álbum de estreia do grupo alagoano Jude, uma seleção de músicas que vão além do empoeirado resgate de velhas ideias e melodias. Dividido com naturalidade entre a nostalgia e o frescor dos arranjos, o trabalho entregue ao público em dezembro do último ano confirma o esmero e verdadeira entrega do trio Reuel Albuquerque (guitarras, violão, baixo, teclados, programações, bateria e vocais) Fernando Brasileiro (vocais e violão) Alex Moreira (baixo e violão) em estúdio. [Leia o Texto Completo]

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Kiko Dinucci
Cortes Curtos (Independente)

“Ele é mais filme do que disco, ouça numa tacada só, ouça em volume alto se for possível”, escreveu Kiko Dinucci no texto de lançamento de Cortes Curtos (2017, Independente). Produzido em um intervalo de apenas quatro dias, em setembro do último ano, o primeiro registro em carreira solo do cantor e compositor paulistano cresce como um imenso bloco de ruídos, gritos, histórias e personagens. Uma versão caótica, naturalmente punk, do mesmo universo conceitual que Dinucci vem desbravando em projetos como Metá Metá e demais registros colaborativos na última década. Pensado sob a ótica de uma película cinematográfica, Cortes Curtos se revela como uma verdadeira coleção de imagens sonoras. Fragmentos visuais, narrativos e acústicos que observam diferentes aspectos da cidade de São Paulo, seus habitantes e toda uma sequência de acontecimentos mundanos. Personagens como a musa romantizada em A Morena do Facebook (“Ela é mais bonita que a foto do perfil / Enquanto se aproxima / Com seu andar macio”), ou mesmo o conflito preconceituoso que explode na descritiva Uma Hora da Manhã (“O que você tá falando de nordestino? / Sou nordestina sim, com muito orgulho”). [Leia o Texto Completo]

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Lucas Santtana
Modo Avião (Natura Musical)

Existem duas formas de ouvir o novo álbum do cantor e compositor baiano Lucas Santtana, Modo Avião (2017, Natura Musical). A primeira delas, segue a fragmentada separação e reprodução isolada de cada faixa. São dez composições inéditas, pouco mais de trinta minutos em que a ambientação eletrônica e orquestral originalmente testada no antecessor Sobre Noites e Dias (2014) ganha novos contornos. Arranjos e movimentos contidos, como uma fina tapeçaria instrumental que envolve e acolhe a poesia intimista do músico. Entretanto, a real beleza e melhor forma de apreciar o trabalho está no misto de prosa e poesia que caracteriza a formatação original da obra: a de um áudio filme. São pouco mais de 40 minutos em que Santtana tece uma delicada narrativa que aproxima e conecta cada uma das faixas do disco. Uma história contada a partir da captação em 360º dos instrumentos e vozes, transportando o ouvinte para dentro da história de amor, delírio e pequenas reflexões sobre diferentes aspectos da nossa sociedade. [Leia o texto completo]

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Lutre
Apego (Independente)

Sem pressa, as guitarras e melodias instáveis da inaugural Céu detalham uma curiosa paisagem instrumental, estabelecendo possíveis limites e regras sentimentais que orientam o primeiro álbum de estúdio do power trio goiano Lutre, Apego (2017, Independente). Ruídos, batidas, a linha de baixo pulsante e guitarras versáteis que servem de base para a poesia dolorosa que se espalha pelo interior da composição — “Não precisa chorar / Foi você quem escolheu / ‘Rancar’ pétala por pétala / E no fim fingir que esqueceu“. Longe de buscar conforto em um gênero ou sonoridade específica, o trabalho de nove faixas assinado por Marcello Victor (guitarra e vocal), Jefferson Radi (bateria) e Chrisley Hernan (baixo) flutua por entre gêneros, incorporando mais de cinco décadas de referências de forma propositadamente torta. Uma colisão de ideias que atravessa o rock alternativo dos anos 1990 e 2000 até alcançar o presente cenário nacional, esbarrando na obra de artistas como Lupe de Lupe e, principalmente, Ventre. [Leia o Texto Completo]

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Mallu Magalhães
Vem (Sony Music)

Os últimos seis anos foram bastante produtivos e corridos para Mallu Magalhães. Passado o lançamento do maduro Pitanga, trabalho entregue ao público em setembro de 2011, a cantora e compositora paulistana acabou mudando-se para a capital Lisboa, em Portugal. Nesse processo, casou-se com o parceiro de longa data, o músico Marcelo Camelo (Los Hermanos), com quem produziu o primeiro álbum como parte do trio Banda do Mar, projeto completo pelo baterista Fred Ferreira, e ainda viu florescer a própria maternidade com o nascimento da primeira filha, a pequena Luísa, de um ano e maio. Com a chegada de Vem (2017, Sony Music), primeiro registro autoral em seis anos, Magalhães atravessa o Atlântico e parece redescobrir com naturalidade a música brasileira. São 12 composições que passeiam por elementos do samba (Você Não Presta), bossa nova (Casa Pronta) e referências à Jovem Guarda, vide o soul-rock que cresce em Será Que Um Dia, música que poderia facilmente ter sido gravada por Roberto Carlos no final dos anos 1960. Um colorido nacional que se reflete na quase totalidade dos versos em português e pequenos refúgios poéticos que apontam para a construção de paisagens reais (Guanabara, São Paulo). [Leia o texto completo]

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Momo
Voá (Universal)

Marcelo Frota é um cidadão do mundo. Nascido em Minas Gerais, filho de pai cearense e dono de uma longa trajetória no Rio de Janeiro, o cantor e compositor decidiu aportar em Portugal, fixando residência na região de Alfama, um dos bairros mais tradicionais da capital Lisboa. Dessa mudança vem o recém-lançado Voá (2017, Universal Music), primeiro registro de inéditas do cantor em quatro anos e a busca declarada por um som marcado pelas possibilidades. Em um sentido oposto ao som melancólico e cinza de Cadafalso (2013), Momo traz de volta a mesma essência litorânea, intimista e levemente ensolarada de Serenade of a Sailor (2011). Um cenário montado de frente para o mar, coberto pelo Sol, amores e personagens reais que surgem e desaparecem a todo instante, a cada novo fragmento de voz. Memórias de um passado ainda recente, quente, como se o ouvinte pudesse tocar nas palavras e sentimentos lançados pelo cantor. [Leia o Texto Completo]

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My Magical Glowing Lens
Cosmos (Honey Bomb Records / Subtrópico / PWR Records)

Como um portal, a psicodélica imagem de capa produzida para Cosmos (2017), trabalho assinado pelo designer gráfico Demytrius Meneghetti de Pieri, nasce como uma passagem direta para o ambiente de cores e emanações lisérgicas do grupo capixaba My Magical Glowing Lens. Experimentos controlados que pervertem uma série de conceitos melódicos há muito consolidadas no cenário musical brasileiro. Ruídos, vozes e ambientações etéreas que perturbam qualquer traço de previsão ou mínimo contato com a realidade ao longo do registro. Artesanal, produto da forte interferência e produção de Gabriela Deptulski, responsável pelo projeto, o trabalho de 11 faixas e distribuição pelos selos Honey Bomb Records, Subtrópico e PWR Records muda de direção a cada nova faixa. Fragmentos vindos de diferentes épocas e tendências, como se a base lisérgica de veteranos como Pink Floyd e Os Mutantes se encontrasse com a obra de novatos aos moldes de Tame Impala e Melody’s Echo Chamber. Bases eletrônica e arranjos etéreos que costuram o trabalho do primeiro ao último acorde. [Leia o texto completo]

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Rincon Sapiência
Galanga Livre (2017, Boia Fria Produções)

Estranho pensar em Galanga Livre (2017, Boia Fria Produções) como o primeiro trabalho de estúdio do paulistano Rincon Sapiência. Basta voltar os ouvidos para a última década e perceber nuances da poesia urbana do artista em diferentes projetos. Da participação no brilhante Non Ducor Duco (2008), de Kamau, passando pela colaboração em obras abertas ao grande público, caso de Projeto Paralelo (2010), do grupo paulistano NX Zero, ou mesmo o recente Oceano (2016), de Nego E, não faltam obras que contam com a forte interferência do rapper. Desse universo de experiências acumuladas e pequenas colaborações nasce o primeiro registro oficial do artista. Trata-se de uma obra “ancorada” no conto Ambrósio, trabalho que narra história de Galanga, escravo responsável pelo assassinato de um senhor de engenho. Um criativo ponto de partida para a formação de histórias marcadas pelo empoderamento da comunidade negra, debates sobre racismo, libertação, conquistas e relacionamentos que abastecem o trabalho do primeiro ao último verso. [Leia o texto completo]

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Rodrigo Campos, Juçara Marçal, Gui Amabis
Sambas do Absurdo (YB)

Mesmo na curta duração de seus atos, difícil não se surpreender pela força das canções e grandiosidade de Sambas do Absurdo (2017, YB). Produto da colaboração entre o cantor e compositor Rodrigo Campos, a cantora Juçara Marçal e o produtor Gui Amabis, o trabalho inspirado no ensaio O Mito de Sísifo (1942), obra do escritor franco-argelino Albert Camus, faz da lenta desconstrução do samba e de pequenos absurdos do cotidiano o principal estímulo para a composição dos versos. Dotado de uma poesia particular, resultado da parceria entre Campos e o colaborador de longa data, o artista plástico e escritor Nuno Ramos, também responsável pela imagem de capa do disco, Sambas do Absurdo se espalha sem pressa, detalhista e provocativo. Versos alimentados pelo uso de temas urbanos, reflexões existencialistas, sexo e conflitos diários. Caos orquestrado com leveza, ponto de partida para cada uma das oito faixas do disco, todas intituladas Absurdo e numeradas de trás para frente. [Leia o Texto Completo]

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Sabine Holler
Mother of Transition (Hérnia de Disco)

Em mais de uma década de carreira, Sabine Holler em nenhum momento pareceu se repetir. Seja como fundadora do grupo paulistano Jennifer Lo-Fi, colaboradora na banda Emma Stoned ou no projeto de música eletrônica Mawn, situado em Berlim, cada trabalho assinado pela cantora, compositora e produtora paulistana passeia por diferentes décadas, cenas e referências instrumentais como um delicado exercício criativo, postura que se repete dentro do primeiro EP em carreira solo, Mother of Transition (2017, Hérnia de Disco). Produzido em parceria com Billy Comodoro (In Venus, Bárbara Eugênia), em janeiro deste ano, o trabalho de apenas sete faixas faz de cada composição um objeto precioso. São músicas orientadas em essência pela voz forte de Holler, madura e por vezes íntima da obra de veteranas da música alternativa – vide a semelhança com os timbres de PJ Harvey e Julia Holter. Um cuidado que se estende da inaugural Filtered My Voice até a derradeira Planetarium (Through Binoculars). [Leia o Texto Completo]

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Sentidor
Am_Par_Sis (Sound and Colours / Geração Perdida)

O ano é 2033. Corroída pelo tempo e coberta pelos escombros de diferentes conflitos e transformações sociais, a cidade do Rio de Janeiro funciona como abrigo para uma população cada vez mais escassa, triste. Sobreviventes em um futuro consumido pelo passado, desprovido de uma identidade cultural e sufocado por recordações de um período glorioso. Um cenário marcado pela desesperança, pós-apocalíptico, porém, atual, ponto de partida para a ficção política que o mineiro João Carvalho desenvolve entre as canções do caótico Am_Par_Sis (2017, Sound and Colours / Geração Perdida). Mais recente álbum de inéditas do Sentidor, o registro de 11 faixas imagina o que aconteceria se Passarim, trabalho lançado em 1987 por Antônio Carlos Jobim, fosse redescoberto em uma versão futurística do Rio de Janeiro. Um cenário em que “as atuais revoltas políticas e sociais que o país vive se transformassem ao nível de guerra, deixando a cidade em ruínas”. Músicas que revelam a desconstrução não apenas da obra de Jobim, principal “instrumento” do disco, mas do som doce testado por Carvalho no último registro de inéditas, Memoro Fantomo_Rio Preto (2016). [Leia o Texto Completo]

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Soledad
Soledad (EAEO)

Um movimento bêbado da guitarra, e o trabalho de Soledad se revela por completo logo nos primeiros versos: “Quero deitar com você / Tocar suas incertezas no escuro”. Formada em teatro, estudante de Ballet e profunda conhecedora de diferentes aspectos da cultura popular, a cantora e compositora nascida em Fortaleza faz do primeiro álbum de estúdio uma obra marcada pela provocação. Sussurros, carícias e pequenos delírios românticos que se entrelaçam de forma a revelar um de som doce, inebriante. Gravado durante o inverno de 2016, em São Paulo, o registro que conta com arranjos de Gui Amabis, Guilherme Mendonça, Bruno Rafael e Vitor Colares parece trabalhado de forma a acolher e exaltar a voz forte da cantora. Do romantismo brega que cresce em Portenosa, faixa de abertura do disco, passando pela leve aceleração de Corpo Solto, o minimalismo de Vermelho Azulzim, até o rock político de Beco da Noite, todos os elementos se projetam como um complemento à poesia densa do álbum. [Leia o Texto Completo]

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