Os 25 Melhores Discos Internacionais de 2019 (Até Agora)


Entre obras que apontam para o pop de câmara dos anos 1970, como Titanic Rising, de Weyes Blood, e Quiet Signs, de Jessica Pratt; grandes exemplares da música pop, como Thank U, Next, de Ariana Grande e a volta de Carly Rae Jepsen, com Dedicated; obras importantes para a música negra, caso de Legacy! Legacy!, da cantora Jamila Woods, e When I Get Home, de Solange, o primeiro semestre de 2019 foi marcado pelo rico acervo de obras produzidas por mulheres vindas de diferentes campos da música. Surgem ainda trabalhos como U.F.O.F., do Big Thief, Young Enough, da banda nova-iorquina Charly Bliss e o divertido PUNK, novo registro de inéditas do quarteto japonês CHAI. Um vasto catálogo de lançamentos agora organizados em nossa lista com os 25 Melhores Discos Internacionais do primeiro semestre. Nos comentários, conta pra gente: qual é o seu álbum favorito até agora?


Ariana Grande
Thank U, Next (2019, Republic)

Mesmo repleto de composições acessíveis, caso de God is a WomanBreathin e No Tears Left To Cry, uma das principais queixas em relação ao trabalho de Ariana Grande em Sweetener (2017) está na parcial ausência de músicas comercialmente, íntimas do grande público. Dona de sucessos como Into YouSide to Side e Break Free, a cantora e compositora norte-americana parecia investir na produção de um registro menos emergencial, talvez sóbrio, estreitando a relação com o R&B dos anos 1980 e 1990, porém, distante das pistas, como uma fuga declarada do som que vinha desenvolvendo desde o início da carreira. Sem necessariamente perder a força criativa alcançada no último disco, interessante perceber nas canções de Thank U, Next (2019, Republic), quinto e mais recente álbum de inéditas na carreira de Grande, um parcial regresso ao mesmo pop autoral aprimorado em obras como My Everything (2014) e Dangerous Woman (2016). Entregue ao público pouco menos de um ano após o lançamento Sweetener, o trabalho encontra na honestidade dos versos, conflitos amorosos e pequenas celebrações da artista norte-americana o estímulo para uma seleção de faixas tão radiofônicas, quanto íntimas do material entregue pela cantora há poucos meses. Leia o texto completo.

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Big Thief
U.F.O.F. (2019, 4AD)

U.F.O.F. (2019, 4AD) é o princípio de um lento processo de desconstrução criativa e redescoberta da própria identidade musical de Adrianne Lenker. Terceiro álbum de estúdio da cantora e compositora norte-americana em colaboração com os demais integrantes do Big Thief, Buck Meek, Max Oleartchik e James Krivchenia, o trabalho consumido pela força dos sentimentos, memórias e experiências particulares da artista preserva e, ao mesmo tempo, corrompe tudo aquilo que o grupo vem produzindo desde o atmosférico Masterpiece (2016). Um minucioso exercício autoral que passa pelo trabalho da cantora em carreira solo e tinge com novidade cada novo movimento orquestrado pelo quarteto nova-iorquino. Não por acaso, Lenker decidiu resgatar diferentes composições originalmente testadas durante o lançamento do delicado Abyskiss (2018), último registro de inéditas em carreira solo. Músicas como From e Terminal Paradise em que a artista preserva a essência confessional dos versos, porém, se permitindo provar de novas possibilidades e temas instrumentais, estrutura que amplia de maneira expressiva a força da obra com o Big Thief. Do uso destacado das guitarras e captações ruidosas, passando pela formação de temas bucólicos e diálogos improváveis com a produção dos anos 1970, cada elemento do disco conduz o ouvinte para além dos limites inicialmente impostos durante a execução do antecessor Capacity (2017). Leia o texto completo.

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Billie Eilish
When We All Fall Asleep, Where Do We Go? (2019, Darkroom / Interscope)

Quando todos adormecemos, para onde vamos? A pergunta levantada por Billie Eilish no título do primeiro álbum de estúdio da carreira diz muito sobre o caminho incerto percorrido pela cantora durante toda a execução da obra. Entre versos existencialistas, instantes de profunda contemplação e relacionamentos fracassados, cada composição do disco reflete a sensibilidade da artista norte-americana de apenas 17 anos. Inspirado pela temática dos terrores noturnos, sonhos lúcidos e toda a atmosfera soturna estimulada pela paralisia do sono, o trabalho que conta com produção do próprio irmão, o músico Finneas O’Connell, se espalha em meio a batidas minimalistas, ruídos e captações caseiras, estrutura que naturalmente contribui para o conceito perturbador da obra. O resultado desse forte comprometimento estético e profunda entrega sentimental está na entrega de músicas como You Should See Me in a Crown, When the Party’s Over, Bury a Friend e, principalmente, Bad Guy, composição responsável por transportar o trabalho de Eilish para o topo das principais paradas de sucesso.

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Cate Le Bon
Reward (2019, Mexican Summer)

No último ano, Cate Le Bon recebeu o convite para produzir o oitavo álbum de estúdio do Deerhunter, Why Hasn’t Everything Already Disappeared? (2019). O resultado dessa parceria, entregue ao público há poucos meses, está na produção de um material puramente nostálgico e marcado pelos detalhes. Canções ancoradas de maneira explícita no pop de câmara dos anos 1960 e 1970, versos marcados por acontecimentos históricos e a minuciosa inserção de arranjos de cordas, cravos e outros instrumentos que contribuíram para a atmosfera orquestrada em parceria com o experiente Ben H. Allen III e demais integrantes da banda norte-americana. Interessante perceber em Reward (2019, Mexican Summer), quinto e mais recente álbum de estúdio da multi-instrumentista britânica, um misto de continuação e delicada desconstrução do mesmo universo criativo detalhado em parceria com o Deerhunter. Do momento em que tem início, em Miami, até alcançar a faixa de encerramento do disco, Meet The Man, inserções minuciosas, melodias e versos dominados pelos sentimentos garantem ao público uma obra marcada pela incerteza dos elementos e permanente desejo de Le Bon em brincar com a própria identidade artística.

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Carly Rae Jepsen
Dedicated (201, 604 / School Boy / Interscope)

Mesmo imersa em um universo de obras marcadas pelos excessos, tentativas frustradas da gravadora em emplacar um novo registro de sucesso, artistas, produtores e fórmulas que se repetem de forma tediosa, Carly Rae Jepsen decidiu seguir em uma medida própria de tempo, sem pressa. O resultado desse propositado isolamento criativo e busca declarada por novos parceiros e sonoridades fez com que a cantora e compositora canadense, antes sufocada pelo peso de sua composição mais conhecida, a pegajosa Call Me Maybe, mergulhasse na produção de um dos trabalhos mais influentese cultuados da presente década, Emotion (2015). Quarto anos após o lançamento do registro que trouxe preciosidades como Run Away with MeWarm Blood e All That, Jepsen se divide entre o evidente desejo de preservar a própria essência criativa e a propositada ruptura estética, estímulo para o material entregue nas canções de Dedicated (201, 604 / School Boy / Interscope). Claramente inspirado pelo pop da década de 1970, o trabalho que utiliza de elementos da música disco, funk e synthpop parte de uma estrutura conceitualmente nostálgica para tingir com novidade cada fragmento poético da artista. Composições que apontam para a obra de veteranos como Donna Summer, ABBA e Bee Gees, porém, dentro de uma linguagem moderna, guiada pelo frescor dos elementos. Leia o texto completo.

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CHAI
Punk (2019, Otemoyan / Burger / Heavenly)

Você não precisa ter tido qualquer tipo de contato prévio ou informação complementar para se deixar guiar pelas canções de Punk (2019, Otemoyan / Burger / Heavenly). Segundo e mais recente álbum de estúdio do quarteto japonês CHAI — grupo formado por Mana, Kana, Yuki e Yuna —, o registro de essência caótica encontra na criativa colagem de referências, arranjos e melodias tortas a base para a composição de um trabalho que parece maior a cada audição. Um misto de delírio e evidente refinamento estético quando voltamos os ouvidos para o primeiro disco da banda, o também enérgico Pink (2017). Influenciado de maneira confessa pela obra de grupos como Gorillaz, CHVRCHES e até mesmo pelas brasileiras do Cansei de Ser Sexy, Punk, assim como o registro que o antecede, parece dosar entre a estranheza das formas instrumentais e o uso de faixas minimamente acessíveis. Desse primeiro grupo, surgem músicas como Great Job, um punk empoeirado que parece apontar para a obra de veteranos como X-Ray Spex e demais representantes do pós-punk inglês dos anos 1980. Leia o texto completo.

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Charly Bliss
Young Enough (2019, Barsuk)

Relacionamentos abusivos, o medo de encarar a vida adulta e a constante sensação de fracasso gerada a partir de um amadurecimento forçado dos indivíduos. Em Young Enough (2019, Barsuk), segundo álbum de estúdio do grupo nova-iorquino Charly Bliss, cada fragmento do trabalho reflete a alma e poesia sensível de Eva Hendricks (voz e guitarra). Um olhar melancólico e sempre confessional sobre a vida adulta, mas que em nenhum momento distorce a capacidade da banda, completa pelos músicos Sam Hendricks (bateria), Spencer Fox (guitarra e voz) e Dan Shure (baixo e voz), em produzir um registro de essência melódica, pop, estrutura que vem sendo aprimorada desde a bem-sucedida estreia do quarteto com Guppy (2017). Menos urgente em relação ao registro que o antecede, o trabalho que conta com produção do experiente Joe Chiccarelli (U2, The Strokes) encontra no uso complementar dos sintetizadores e melodias descomplicadas a base para uma obra que dialoga de forma imediata com o ouvinte. Parte dessa estrutura vem do evidente desejo do quarteto em revisitar a obra de veteranos da New Wave, como The Cars, além, claro, de incorporar uma série de elementos originalmente testados por Carly Rae Jepsen, em Emotion (2015), uma das principais referências criativas para o presente álbum. Leia o texto completo.

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Conor Oberst / Phoebe Bridgers
Better Oblivion Community Center
(2019, Dead Oceans)

Durante mais de duas décadas, Conor Oberst fez dos próprios sentimentos a base para uma das discografias mais tocantes da recente produção norte-americana. Basta voltar os ouvidos para obras como Letting Off the Happiness (1998) e I’m Wide Awake, It’s Morning (2005) para perceber a força dos versos e experiências particulares compartilhadas com ouvinte. Canções ancoradas em personagens, desilusões amorosas, medos e uma permanente sensação de descrença, estrutura que assume novo e delicado direcionamento no primeiro álbum de inéditas do artista como Better Oblivion Community Center. Mais do que um novo registro autoral, o trabalho que conta com co-produção de Andy LeMaster (Azure Ray, R.E.M.) nasce de um período de forte colaboração entre o cantor e a musicista Phoebe Bridgers. Parceiros antes mesmo da breve interferência de Oberst no primeiro álbum da artista, Stranger in the Alps (2017), a dupla estabelece no presente registro uma criativa troca de influências e experiências pessoais, refinamento evidente durante toda a execução da obra. Leia o texto completo.

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Flying Lotus
Flamagra (2019, Warp)

Entre colaborações esporádicas, como na trilha sonora do curta-metragem Blade Runner Black Out 2022, passagens pelo programa The Eric Andre Show ou mesmo a estreia como diretor de cinema, vide o surrealista Kuso (2017), Steven Ellison passou os últimos cinco anos se revezando na produção de uma série de composições inéditas. Mesmo imerso nesse vasto conjunto de ideias e experiências autorais espalhados por diferentes campos das artes, faltava ao produtor californiano um elemento temático que servisse de base para um registro maior, costurando parte desse vasto repertório de forma a avançar criativamente, como uma extensão natural do bem-sucedido You’re Dead! (2014). Foi somente após uma conversa com o cineasta David Lynch (Twin Peaks, Veludo Azul), que Ellison, já inspirado pela temática do fogo, encontrou o estímulo necessário para o recém-lançado Flamagra (2019, Warp). “Eu passei os últimos cinco anos trabalhando em diversas coisas, mas tudo estava muito espalhado. Eu sempre tive essa ideia temática em mente, um conceito persistente sobre o fogo, uma chama eterna no alto de uma colina”, explicou no texto de apresentação da obra. Não por acaso, o produtor fez de Fire Is Coming, colaboração com o próprio Lynch, a primeira composição do disco a ser apresentada ao público. Uma colorida colisão de ideias que parte do uso das imagens para mergulhar em um som puramente caótico, estímulo para a poesia cíclica da canção: “Há um fogo queimando pelas ruas / Todo mundo move seus pés“. Leia o texto completo.

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Fontaines D.C.
Dogrel (2019, Partisan)

De Iceage, com New Brigade (2011), passando por Silence Yourself (2013), das garotas do Savages; da estreia do Idles, com Brutalism (2017), ao surgimento do Shame, em Songs of Praise (2018), não foram poucos os artistas que decidiram resgatar elementos do pós-punk na última década de forma essencialmente provocativa e autoral. Uma criativa colisão de ideias e conceitos que aponta para diferentes fases e peças importantes do estilo, estrutura que alcança novo e bem-sucedido resultado nas canções do primeiro álbum de estúdio do grupo irlandês Fontaines D.C., Dogrel (2019, Partisan). Claramente inspirado pela obra de veteranos como The Fall, Wire e demais coletivos que surgiram entre o final da década de 1970 e início dos anos 1980, o registro que conta com produção de Dan Carey (Franz Ferdinand, Bat For Lashes), sustenta no peso das guitarras e batidas secas a base para cada uma das composições entregues pela banda. São pouco menos de 40 minutos em que os músicos Grian Chatten (voz), Conor Deegan III (baixo), Carlos O’Connell (guitarra), Conor Curley (guitarra) e Tom Coll (bateria) não apenas replicam a mesma atmosfera de clássicos do gênero, como revelam ao público uma seleção de versos consumidos pela crueza e provocativo sarcasmo dos temas. Leia o texto completo.

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Girlpool
What Caos Is Imaginary (2019, Anti-)

Com o lançamento de Powerplant (2017), Cleo Tucker e Harmony Tividad alcançaram um novo estágio na curta discografia do Girlpool. Composições como 123, Your Heart e It Gets More Blue que serviram para aproximar o som produzido pela dupla norte-americana de uma estrutura ainda mais acessível, melódica, como uma clara evolução do material entregue no primeiro registro de inéditas, Before The World Was Big (2015). Um permanente exercício de transformação e ruptura conceitual que assume novo direcionamento nas canções do terceiro e mais recente álbum de estúdio da banda, What Caos Is Imaginary (2019, Anti-). Marcado pelo reforço das guitarras e declarada busca da dupla de Los Angeles por um som menos plástico, o registro de 14 faixas sintetiza nesse renovado posicionamento estético parte da transformação pessoal que vem sendo vivenciada por Tucker desde o último ano. Em processo de transição de gênero, o músico transfere para dentro de estúdio parte dessa nova identidade, mudança evidente no uso da voz, lirismo e novos temas que servem de sustento ao trabalho. Leia o texto completo.

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Helado Negro
This Is How You Smile (2019, RVNG Intl.)

Quem há tempos acompanha o trabalho de Roberto Carlos Lange como Helado Negro sabe que o músico norte-americano encontrou na fragmentação da própria identidade a base para um rica seleção de obras. Do experimentalismo que embala as canções do inaugural Awe Owe (2009), passando pelo uso de referências eletrônicas, em Invisible Life (2013), ao refinamento melódico de Private Energy (2016), cada novo registro entregue pelo artista de Miami, Flórida encanta pela completa imprevisibilidade dos elementos e fórmulas instrumentais. Interessante perceber nas canções de This Is How You Smile (2019, RVNG Intl.), sexto e mais recente álbum de estúdio de Helado Negro, um propositado distanciamento desse mesmo universo criativo. Trabalho mais acessível já produzido pelo músico norte-americano, o registro encontra na leveza dos arranjos, melodias e vozes a passagem para um ambiente de emanações acolhedoras, como se Lange dosasse o próprio delírio, confortando o ouvinte a cada nova composição. Leia o texto completo.

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Holly Herndon
PROTO (2019, 4AD)

O uso da voz como instrumento está longe de parecer uma novidade no campo dos artes. Das harmonias incorporadas pelo The Beach Boys ainda na década de 1960, vide o clássico Pet Sounds(1966), passando pelo completo experimentalismo de nomes como Mike Patton, em Adult Themes for Voice (1996), ao refinamento melódico de Björk, em Medúlla (2004), não foram poucos os artistas que estabeleceram nesse direcionamento específico um evidente ponto de ruptura e transformação estética. Entretanto, mesmo dentro desse território há muito explorado, curioso perceber em PROTO (2019, 4AD), novo álbum de Holly Herndon, um fino toque de renovação. De essência experimental, como tudo aquilo que a cantora e compositora norte-americana vem produzindo desde o início da carreira, o trabalho concebido com o auxílio de uma inteligência artificial utiliza da voz como o princípio de um criativo processo de transformação estética. Concebido em parceria com Mat Dryhurst, Spawn, como foi batizada a IA, interpreta e emula de forma particular uma série de exercícios vocais assinados em parceria com integrantes vindos de de diferentes corais e campos da música. Leia o texto completo.

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James Blake
Assume Form (2019, Polydor)

“Você está apaixonado?”, pergunta James Blake em um dos momentos de maior entrega e confissão romântica em Assume Form (2019, Polydor). Ainda que o questionamento pareça dialogar com os sentimentos e experiências do próprio ouvinte, do momento em que tem início, na autointitulada música de abertura (“Quando você me toca, eu me pergunto: ‘o que você quer comigo?’“), até alcançar a derradeira Lullaby For My Insomniac (“Vou ficar acordado também / Eu prefiro ver tudo como um borrão amanhã“), declarada homenagem à namorada Jameela Jamil, atriz em The Good Place, cada elemento do presente álbum se relaciona diretamente com as principais emoções e vivências recentes do produtor britânico. A principal diferença em relação aos últimos trabalhos do cantor, principalmente o extenso The Colour in Anything (2016), está no sutil distanciamento da poesia melancólica que há tempos parecia orientar as canções do músico inglês. “Eu pensei que poderia estar melhor morto, mas eu estava errado / Eu pensei que tudo poderia desaparecer, mas eu estava errado / Eu pensei que nunca encontraria o meu lugar, mas eu estava errado … Vamos para casa falar merda sobre todo mundo / Vamos para casa, finalmente“, canta de forma libertadora em Power On, composição que celebra a força transformadora de um novo relacionamento de forma positiva, quase sorridente. Leia o texto completo.

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Jamila Woods
Legacy! Legacy! (2019, Jagjguwar)

Seja como integrante do coletivo The Social Experiment, com quem lançou o ótimo Surf (2015); em colaborações com Chance The Rapper, vide o encontro em Coloring Book (2016) ou mesmo em registros autorais, caso do excelente Heavn (2016), Jamila Woods sempre soube como condensar algumas de suas principais referências de forma particular, como um complemento direto à composição dos arranjos e versos. Nada que se compare ao material entregue no segundo álbum de estúdio da artista de Chicago, Legacy! Legacy! (2019, Jagjguwar), uma colorida colcha de retalhos conceituais que aponta para diferentes campos das artes e personagens que influenciaram criativamente o trabalho da cantora. A principal diferença em relação a tantos outros registros que parecem dançar pelo tempo, coletando ideias e referências pontuais, está na forma como Woods utiliza de elementos do passado, citações e obras específicas para dialogar com o presente. Exemplo disso está em Zora. Inspirada pela obra da escritora e poetisa afro-americana Zora Neale-Hurston (1891 – 1960), a canção utiliza de elementos da obra How It Feels To Be Colored Me (1928) para discutir o privilégio branco e a repressão sofrida diariamente pela população preta. “Nenhum de nós é livre, mas alguns de nós são corajosos / Eu posso ser pequeno, eu posso falar suave, mas você pode ver a mudança na água / Você nunca saberá tudo, tudo / Eu nunca saberei tudo, tudo“, reflete em um misto de canto e rima, estrutura que naturalmente faz lembrar o trabalho de veteranas como Erykah Badu e Ms. Lauryn Hill. Leia o texto completo.

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Jenny Lewis
On The Line (2019, Warner Bros.)

Da estreia em carreira solo, com Rabbit Fur Coat (2006), colaboração com a dupla The Watson Twins, passando pela busca por novas possibilidades, em Acid Tongue (2008), e a clara tentativa em dialogar com uma parcela maior do público, no acessível The Voyager (2014), Jenny Lewis passou parte expressiva da última década em busca da própria identidade artística. Mesmo conhecida pelo trabalho como integrante do Rilo Kiley, e de contribuir com nomes como The Postal Service, faltava à cantora e compositora norte-americana um grande exercício autoral. Satisfatório perceber nas canções de On The Line (2019, Warner Bros.), quarto álbum de estúdio em carreira solo, um evidente senso de aprimoramento estético e lírico. Concebido em um intervalo de cinco anos, o trabalho que conta com produção dividida entre Lewis, Beck, Shawn Everett (Albama Shakes, The War On Drugs) e Ryan Adams não apenas preserva a essência dos antigos trabalhos da artista, como estabelece um evidente ponto de equilíbrio entre algumas das principais referências instrumentais e poéticas da cantora. Leia o texto completo.

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Jessica Pratt
Quiet Signs (2019, Mexican Summer / City Slang)

Em uma primeira audição, Quiet Signs (2019, Mexican Summer / City Slang) talvez seja apenas mais um em meio a tantos outros registros embriagados pelo cancioneiro norte-americano dos anos 1970. Da composição dos arranjos ao uso delicado da voz, sempre econômica, cada elemento do terceiro e mais recente álbum de estúdio de Jessica Pratt parece seguir a trilha de veteranas do gênero, como Joni Mitchell, Karen Dalton ou mesmo a britânica Vashti Bunyan. Um emular de velhas possibilidades e melodias que vem sendo aprimorado sem pressa, desde o homônimo debute da cantora e compositora californiana. A principal diferença em relação ao presente disco e toda a sequência de obras entregues por Pratt nos últimos anos, principalmente o antecessor On Your Own Love Again (2015), está na forma como a artista de São Francisco parece brincar com os espaços dentro de cada canção. De fato, o silêncio é parte substancial do som produzido em Quiet Sings. Do momento em que tem início, na instrumental Opening Night, perceba como a musicista estabelece pequenas brechas e respiros pontuais, arrastando o ouvinte para dentro de um trabalho marcado pela minúcia, esmero que força uma audição atenta até o último instante do álbum, em Aeroplane. Leia o texto completo.

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Nilüfer Yanya
Miss Universe (2019, ATO)

Ansiedade, depressão, medo e abandono. Esses são alguns dos principais temas que vem sendo explorados pela cantora e compositora Nilüfer Yanya desde o início da carreira. São reflexões melancólicas sobre a vida adulta que sutilmente apontam para diferentes campos da música, estrutura evidente no refinamento instrumental e poético de algumas das principais criações da artista inglesa, como Baby Luv e, principalmente, Thanks 4 Nothing. Um doloroso exercício de libertação, detalhamento lírico e exposição sentimental, estrutura que serve de base para o primeiro álbum de estúdio da cantora, Miss Universe (2019, ATO). Concebido em um intervalo de poucos meses, o trabalho que conta com co-produção de Will Archer (Jessie Ware, Vondelpark) utiliza de uma estrutura conceitual para explorar algumas das principais inquietações e conflitos particulares de Yanya. Como indicado logo na abertura do disco, parte expressiva da obra se passa em uma central de atendimento da WWAY HEALTH TM, clínica fictícia para o tratamento de transtornos mentais. “Estamos aqui por você. Nos importamos com você. Você não precisa se preocupar: a gente se preocupa por você“, reforça a voz da atendente que parece confortar o ouvinte. Leia o texto completo.

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SASAMI
SASAMI (2019, Domino)

Em um universo historicamente dominado pela presença masculina, Sasami Ashworth não apenas conquistou o próprio espaço, como vem se envolvendo na produção de algumas das obras mais significativas da presente cena alternativa dos Estados Unidos. São nomes como Wild Nothing, Cherry Glazers, Hand Habits e tantos outros projetos orquestrados pela força das guitarras, vozes e emoções da musicista californiana. Um permanente exercício de aprimoramento artístico que se reflete com naturalidade no recém-lançado primeiro álbum de estúdio da cantora. Guiado pela força dos sentimentos e experiências compartilhadas pela guitarrista, o autointitulado registro rapidamente estreita a relação com o ouvinte, efeito direto da profunda entrega emocional de Ashworth. “Há uma sombra sobre algo que costumava ser luz / Eu era uma janela para algo que você não gostou / Então você me culpou / E você pensou que isso fez você livre / Mas não é assim que funciona, meu amor“, canta em I Was A Window, um precioso e melancólico ato de libertação feminina, temática que se reflete durante toda a execução da obra, cercando e confortando o ouvinte. Leia o texto completo.

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Sharon Van Etten
Remind Me Tomorrow (2019, Jagjaguwar)

Sharon Van Etten sempre encarou o próprio público como confidente. Da estreia, com Because I Was in Love (2009), ao amadurecer sentimental e poético que embala as canções de Are We There (2014), cada fragmento sussurrado ou dolorosamente exposto pela cantora e compositora norte-americana fez da profunda honestidade detalhada nos versos um elemento de forte conexão com o ouvinte. Composições marcadas por decepções amorosas, tormentos pessoais e desilusões, componentes fundamentais para a consolidação de um dos repertórios mais sensíveis da música recente. Primeiro álbum de estúdio da cantora em cinco anos, Remind Me Tomorrow (2019, Jagjaguwar) é um registro inteiramente montado a partir dessas pequenas confissões e retalhos sentimentais. Do momento em que tem início, em I Told You Everything (“Sentada no bar, eu te contei tudo / Você disse: ‘Puta merda, você quase morreu’ / Compartilhando uma bebida, você segurou minha mão“), até alcançar a derradeira Stay (“Não quero te machucar / Não quero fugir de mim mesma / Quer que a sua estrela brilhe“), delicada homenagem à própria filha, são memórias de um passado ainda recente que embalam a poesia contemplativa, sempre precisa, de Etten, como um delicado resgate das experiências e recordações vividas pela artista. Leia o texto completo.

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Solange
When I Get Home (2019, Columbia)

Não espere obter uma resposta de When I Get Home (2019, Columbia) logo em uma primeira audição. Sequência ao elogiado A Seat at The Table (2016), obra em discute empoderamento feminino e o peso do preconceito racial que sufoca as mulheres negras, o novo álbum traz de volta parte expressiva desse mesmo universo conceitual e temático, porém, dentro de uma estrutura completamente irregular. Fragmentos de vozes, melodias abstratas e composições que tão logo são apresentadas ao público, rapidamente desaparecem, flutuando em uma nuvem de sons e ideias aleatórias que tingem com incerteza a experiência do ouvinte. Parte expressiva desse resultado vem da forma como o próprio álbum foi concebido. Gravado em diferentes estúdios espalhados por Nova Orleães, Houston e Jamaica, o trabalho nasce como uma criativa colcha de retalhos gerados a partir do encontro entre a cantora e diferentes representantes do soul, R&B, jazz e hip-hop. São nomes como Dev Hynes (Blood Orange), Pharrell Williams, Steve Lacy (The Internet), Panda Bear, Tyler the Creator e Sampha que tiveram suas interferências moldadas de acordo com as necessidades de Solange. Um minucioso processo de montagem, ou edição, como a própria musicista explicou ao escritor e curador de arte Antwaun Sargent durante o evento de lançamento do álbum. “A edição é uma parte muito importante do meu processo. É assim que eu posso estender isso a uma expressão do que eu quero alcançar“, respondeu. Leia o texto completo.

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The National
I Am Easy to Find (2019, 4AD)

Entre versos contemplativos e obras que discutem a situação política dos Estados Unidos, de tempos em tempos, os integrantes do The National se reúnem para a produção de um trabalho marcado pela força dos sentimentos, confissões românticas e poemas embriagados de Matt Berninger. Da melancolia explícita em Alligator (2005), álbum que reflete o princípio do amadurecimento criativo da banda, passando pela completa entrega emocional de Trouble Will Find Me (2013), preciosos são os momentos em que o quinteto de Cincinnati, Ohio, convida o ouvinte a mergulhar em um universo de pequenos tormentos e desilusões pessoais. Oitavo e mais recente álbum de estúdio do grupo norte-americano, I Am Easy to Find (2019, 4AD) é claramente um desses trabalhos. Sequência ao bem-sucedido Sleep Well Beast (2017) — obra que aproximou a banda do uso de temas eletrônicos e trouxe severas críticas ao governo de Donald Trump —, o novo disco não apenas desacelera em relação a seu antecessor, como resgata a melancolia que há tempos orienta o som produzido pelo The National. Canções ancoradas em relacionamentos fracassados, versos consumidos pela dor e o lento distanciamento entre os indivíduos. Leia o texto completo.

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Tyler, The Creator
IGOR (2019, Columbia)

Você pode esperar por qualquer coisa de Tyler, The Creator, menos o óbvio. Prova disso está nas canções de IGOR (2019, Columbia), sexto e mais recente álbum de estúdio do rapper californiano. De essência conceitual, como tudo aquilo que vem sendo produzido pelo artista desde a estreia com Bastard (2009), o trabalho centrado em um conjunto específico de personagens parte da descoberta do amor para mergulhar em um relacionamento obsessivo e doentio, narrativa que segue até o último instante da obra, quando o eu lírico precisa se conformar com o fato que deixou de ser amado, restando apenas a amizade e o inevitável distanciamento entre os indivíduos. Não por acaso, o rapper decidiu lançar o trabalho na íntegra, evitando a divulgação de músicas isoladas, direcionamento que naturalmente força uma audição atenta por parte do ouvinte, do primeiro ao último instante da obra. “Não espere por um álbum de rap. Não espere qualquer álbum. Apenas vá, se jogue nele. Eu acredito que a primeira audição funciona melhor de forma ininterrupta, sem pulos. De frente para trás“, explicou em um texto de lançamento sobre o registro, no Twitter. É como se o artista revelasse ao público uma narrativa quase cinematográfica, conceito reforçado logo na imagem de capa do disco, com uma estética típica de clássicos do horror nos anos 1960 e 1970 e a assinatura formal, como a de um diretor – “todas as canções escritas, produzidas e arranjadas por Tyler Okonma“. Leia o texto completo.

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Vampire Weekend
Father of the Bride (2019, Spring Snow / Columbia)

Relacionamentos conturbados, o peso da passagem do tempo, religiosidade e pequenas cenas do cotidiano de Nova York. Em Father of the Bride (2019, Spring Snow / Columbia), primeiro álbum de estúdio do Vampire Weekend desde o maduro Modern Vampires of The City (2013), cada verso lançado pelo vocalista Ezra Koenig sintetiza o desejo da banda, agora desfalcada do multi-instrumentista e produtor Rostam Batmanglij, em avançar criativamente, porém, preservando a própria identidade. Um misto de reposicionamento estético e busca por novas abordagens, temas e conceitos, transformação que dialoga diretamente com a presente fase de seus realizadores, agora casados, constituindo famílias e assistindo ao nascimento dos primeiros filhos. “Eu fiz o meu melhor e todo o resto está escondido pelas nuvens / Eu não posso te carregar para sempre, mas eu posso te abraçar agora“, canta logo nos primeiros minutos do disco, em Hold You Now, uma das diversas colaborações com Danielle Haim e uma descritiva cena de casamento que passeia pela noiva à beira do altar, seu amante e as promessas de amores passageiros que surgem e desaparecem ao longo da vida. Um lento desvendar de ideias que se completa pelo coro de vozes extraído de God Yu Tekem Laef Blong Mi, música originalmente composta por Hans Zimmer para a trilha sonora do filme Além da Linha Vermelha (1998), de Terrence Malick. Leia o texto completo.

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Weyes Blood
Titanic Rising (2019, Sub Pop)

Natalie Mering sempre encontrou no passado, mesmo aquele não vivido por ela, um importante componente criativo para o fortalecimento da própria obra. São arranjos empoeirados que apontam de maneira explícita para os anos 1960 e 1970, versos que dialogam com a essência de veteranas como Joni Mitchell, Carole King e The Carpenters e toda uma atmosfera que tinge com nostalgia cada novo movimento da artista como Weyes Blood. “Eu sou uma futurista, mas também sou uma futurista nostálgica. Esses são dois tipos de coisas incompatíveis, mas eu tento fazer com que funcionem juntos“, respondeu em entrevista. É justamente dentro desse cenário ora futurístico, ora embriagado pelo passado que Mering estabelece as canções de Titanic Rising (2019, Sub Pop). Sequência ao elogiado Front Row Seat to Earth (2016), obra também inspirada pela música produzida há mais de cinco décadas, o trabalho que conta com co-produção de Brian D’Addario (The Lemon Twigs) e Jonathan Rado (Foxygen) passeia pelo tempo de forma curiosa, sempre sensível. Orquestrações acústicas e texturas eletrônicas que se entrelaçam de forma provocativa, brincando com a interpretação do ouvinte durante toda sua execução. Leia o texto completo.