Os 50 Melhores Discos Brasileiros de 2018 [10-01]


De Tuyo a Teto Preto, de Anelis Assumpção à Potyguara Bardo, é hora de relembrar alguns dos principais trabalhos lançados nos últimos meses. São registros independentes ou mesmo obras apresentadas por grandes gravadoras que sintetizam parte da produção nacional em diferentes gêneros – pop, indie rock, hip-hop, R&B, jazz e eletrônica. Nos comentários, conte pra gente: qual é o seu disco favorito de 2018?


#10. Pabllo Vittar
Não Para Não (2018, Sony Music)

O aviso de Pabllo Vittar é claro: “apertem os cintos e tenham todos uma boa viagem“. Segundo e mais recente álbum de estúdio da drag queen maranhense, Não Para Não (2018, Sony Music) cresce como um bem-resolvido passeio pelo que há de mais colorido e quente na música pop atual. Uma divertida colagem de ritmos, ideias e sentimentos que se projetam de forma a grudar na cabeça do ouvinte logo em uma primeira audição, como uma extensão segura de tudo aquilo que vem sendo testado desde lançamento do antecessor Vai Passar Mal (2017). Inaugurado pelo turbilhão criativo de Buzina, um misto de tecnomelody, forró, k-pop e trap, Não Para Não mantém o ritmo frenético até o último instante do trabalho, em Miragem. São batidas e versos que se despem de qualquer traço de complexidade, arrastando o ouvinte para as pistas em poucos segundos. Um verdadeiro cardápio de hits, reflexo da bem-sucedida colaboração entre a cantora os produtores Rodrigo Gorky, Maffalda, Noize Men e Filip Nikolic, parte expressiva deles, parceiros desde o último álbum. Leia o texto completo.

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#9. Rubel
Casas (2018, Dorileo / Natura Musical)

Você já teve a vontade de morar dentro de um disco? Se cobrir de palavras em uma cama de melodias quentes, sentimentos trabalhados como alicerces e versos sussurrados que se entrelaçam em meio a móveis, cores e cômodos do mais rígido concreto? Propositado ou não, é exatamente isso que o cantor e compositor carioca Rubel Brisolla busca desenvolver no fino acolhimento de Casas (2018, Dorileo / Natura Musical), segundo álbum em carreira solo e um complemento direto ao material originalmente testado no artesanal Pearl (2013). Da voz embriagada, lenta e arrastada, o estímulo para um mundo de histórias tão particulares e nostálgicas, quanto íntimas de qualquer ouvinte. Um contínuo olhar para o passado, conceito evidente logo na inaugural Colégio (“Toca / O sinal barulhento da escola / Onde dois sinos dobram“), mas que a todo instante dialoga com o presente (“Ó meu pai, se tu existes / Manda a tua força, a gente aqui precisa“) e, ao mesmo tempo, aponta para o futuro, experiência reforçada em Passagem, composição que usa de trechos do curta-documentário de mesmo nome dirigido pelo próprio cantor em 2015 (“Se eu morresse amanhã, talvez eu morresse tranquilo“). Leia o texto completo.

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#8. Elza Soares
Deus É Mulher (2018, Deck Disc)

Deus é mulher. O título forte, talvez provocativo para os mais conservadores, funciona como um poderoso indicativo da poesia política, crua e necessária que invade o novo álbum de estúdio de Elza Soares. Sequência ao material entregue no elogiado A Mulher No Fim do Mundo (2015) – primeiro registro de inéditas da cantora carioca –, o trabalho de 11 faixas amplia significativamente parte do universo detalhado pela artista há três anos. Um desvendar da alma feminina, debates sobre religião, o florescer da sexualidade e violência urbana. Fuga declarada do samba torto incorporado ao álbum anterior, Deus é mulher se entrega ao rock não apenas na estrutura musical montada por Guilherme Kastrup, produtor do disco, em parceria com Romulo Fróes, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Rodrigo Campos, mas, principalmente, no discurso. Do momento em que tem início, em O que se cala, faixa composta por Douglas Germano, também responsável por Maria da Vila Matilde, até alcançar a derradeira Deus há de ser, Elza se projeta com ferocidade, revelando uma postura quase punk, anárquica. Leia o texto completo.

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#7. Catavento
Ansiedade na Cidade (2018,Honey Bomb Records)

Sente-se, respire fundo, busque conforto na imersão dos fones de ouvido e deixe que a viagem musical proposta pela banda gaúcha Catavento tenha início. De essência escapista, ainda que consciente, centrado em conflitos urbanos, crises existencialistas e tormentos pessoais, Ansiedade na Cidade (2018, Honey Bomb Records) convida o ouvinte a se perder em uma cama de sons enevoados, como um doce refúgio criativo. Melodias e versos que transitam entre o delírio e a realidade crua, como uma extensão natural de tudo aquilo que o grupo original de Caxias do Sul vem produzindo desde o primeiro álbum de estúdio, Lost Youth Against The Rush (2014). “Meu coração abriu, ninguém viu / Desconhecidos vêm comentar … Tu vai procurar / No mesmo lugar / Não vai encontrar / Tu vai procurar a vida inteira / Nunca vai achar“, provoca a letra de Deus Online. Versos angustiados que refletem a busca desesperada do eu lírico por respostas, além, claro, do desejo imediato por atenção, sentimento reforçado pela euforia das redes socais. Um reflexo da alma inquieta de qualquer indivíduo, conceito que vem sendo explorado pela banda desde o álbum anterior, o maduro CHA (2016), mas que alcança melhor resultado nas canções do presente disco. Leia o texto completo.

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#6. Maria Beraldo
Cavala (2018, Risco)

Em Cavala (2018, Risco), álbum de estreia da cantora, compositora e clarinetista Maria Beraldo, a alma feminina transborda. Concebido em meio a camadas de ruídos eletrônicos, diálogos com o jazz e versos orientados pela profunda sensibilidade dos temas, cada fragmento do disco se projeta de forma intimista, doce e, ao mesmo tempo, furiosa. Um verdadeiro turbilhão sentimental que busca conforto em passagens autobiográficas e memórias ainda recentes da artista, porém, capazes de dialogar com todo e qualquer ouvinte. “Tenso / Tão desavisado meu / Tesão / Vive um momento / Tenso / Livre leve solto de coração / É gostoso é / Tenso”, canta logo na abertura do disco, na explosiva Tenso, um indicativo da completa entrega de Beraldo durante toda a execução da obra. Versos em que discute a própria sexualidade (Amor Verdade), a herança feminina (Maria), personagens próximos (Helena) e a força do sexo como um importante componente criativo para a formação dos versos (Cavala). Leia o texto completo.

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#5. Carne Doce
Tônus (2018, Independente)

A vulnerabilidade talvez seja a principal marca do terceiro e mais recente álbum de estúdio do Carne Doce, Tônus (2018, Independente). Do momento em que tem início, em Comida Amarga (“Eu cato as sobras / Dos teus sinais / Eu sou a sobra / Junto com as sobras“), passando pela construção de faixas como Nova Nova (“Te deixando apaixonado / Te deixando só a dor / E aí você vai entender / E aí, enfim, se vê em mim“), cada fragmento do registro reflete com naturalidade a entrega e melancólica exposição do eu lírico, conceito que vem sendo aprimorado pelo grupo goiano desde a estreia com o homônimo disco de 2014. A diferença em relação aos demais trabalhos da banda, principalmente o último, o provocativo Princesa (2016), está na forma como o grupo parece lidar com menos. Da bateria econômica de Ricardo Machado, passando pelo baixo pontual de Aderson Maia, às guitarras de Macloys Aquino e João Victor Santana, também responsável pelos sintetizadores cósmicos que recheiam o disco, tudo se projeta de forma contida. Movimentos sempre calculados revelam a delicada veste instrumental que protege e cerca os poemas assinados pela vocalista Salma Jô. Leia o texto completo.

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#4. Djonga
O Menino Que Queria Ser Deus (2018, Independente)

Djonga é um reflexo daquilo que sustenta nos próprios versos: “Eu sou daqueles que dá o papo reto e vive torto“. Um personagem errático em um cenário consumido pelo caos urbano, racismo, conflitos diários, preconceito e a busca declarada pela sobrevivência. O Menino que Queria Ser Deus (2018, Independente), como escancara de maneira explícita no título do segundo álbum de inéditas. Versos angustiados e pequenas reflexões que nascem como complemento direto ao material testado pelo rapper mineiro durante a produção do debute Heresia (2017). Misto de ruptura e complemento, OMQQSD mostra o esforço do artista em ampliar os próprios domínios em relação ao material entregue há poucos meses. Prova disso, está na estrutura melódica que rege grande parte das canções, como na acústica De Lá, nona faixa do registro e uma fuga inteligente da rima seca, reta, anteriormente testada pelo rapper. Um provar de novas experiências, ritmos e possibilidades que se veste de renovação mesmo nos instantes de maior reciclagem conceitual. Leia o texto completo.

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#3. Duda Beat
Sinto Muito (2018, Independente)

Os sentimentos escorrem por entre as brechas de Sinto Muito (2018, Independente). Do momento em que tem início, na confessional Bédi Beat (“E eu vivia à flor da pele nem percebia / Que das vezes que eu ria era vontade de chorar“), passando pela construção de músicas como Back To Bad (“Eu nunca fui tão humilhada nessa vida por você, meu amor / A vida toda eu quis me dar inteira / Mas você só queria a metade“), cada fragmento do trabalho de 11 faixas reflete não apenas a alma de sua realizadora, a cantora e compositora pernambucana Duda Beat, como, principalmente, os conflitos e desilusões de qualquer indivíduo apaixonado. Doloroso e deliciosamente romântico, o registro que conta com produção do amigo de infância da cantora, o músico Tomás Tróia (ex-R. Sigma), e versos assinados pela própria Beat, parece jogar com os pequenos contrastes, se espalhando em meio a memórias recentes, relacionamentos fracassados e a permanente busca do eu lírico — talvez a própria Eduarda Bittencourt, verdadeiro nome da cantora — em encontrar um novo amor. Um precioso ato de desconstrução e reconstrução sentimental. Leia o texto completo.

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#2. Baco Exu do Blues
Bluesman (2018, Independente)

Você não precisa ir além da autointitulada faixa de abertura de Bluesman (2018, Independente) para entender a força do segundo álbum de estúdio de Baco Exu do Blues. Sequência ao material entregue em Esú (2017), um dos grandes exemplares do rap nacional no último ano, o trabalho inaugurado em meio a samples de Mannish Boy, do norte-americano Muddy Waters, costura passado e presente da música negra de forma essencialmente provocativa. “Eles querem um preto com arma pra cima / Num clipe na favela gritando: ‘cocaína’ / Querem que nossa pele seja a pele do crime / Que Pantera Negra só seja um filme / Eu sou a porra do Mississipi em chamas“, rima com ferocidade, apontando a direção que orienta a experiência do ouvinte durante toda a execução da obra. Dividido entre atos de evidente fúria e temas contemplativos, Baco joga com os instantes, capturando a atenção do ouvinte a cada novo disparo das rimas. Exemplo disso ecoa com naturalidade na melancolia fina de Queima Minha Pele, música que transparece a essência triste do blues sem necessariamente parecer um produto do gênero. Resultado do encontro com o cantor e compositor Tim Bernardes, a canção amplia de forma significativa o teor confessional de músicas já conhecidas como Te Amo Disgraça e Banho de Sol. “Amor, você é como o Sol / Ilumina meu dia, mas queima minha pele“, rima enquanto resgata memórias de um passado ainda recente (“Eu engoli minha vaidade pra dizer: ‘volta pra mim’ / Mesmo sabendo que você me faz tão mal“). Leia o texto completo.

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#1. Luiza Lian
Azul Moderno (2018, Risco)

A inevitável fluidez da passagem do tempo, religiosidade, versos consumidos pela saudade e a imensidão da alma feminina. Em Azul Moderno (2018, Risco), terceiro e mais recente álbum de estúdio de Luiza Lian, cada fragmento do registro oculta e, ao mesmo tempo, revela um sem-número de experiências particulares, memórias e conflitos intimistas da cantora e compositora paulistana. Composições de essência contemplativa, sempre tocantes, como sussurros poéticos que se moldam de forma a dialogar com as vivências de qualquer indivíduo. Último capítulo da sequência de obras que vem sendo produzidas desde o autointitulado debute de 2015, o sucessor do elogiado Oyá Tempo (2017) preserva a essência eletrônica do registro entregue há poucos meses, porém, dentro de um novo revestimento estético. Frações poéticas e instrumentais que se espalham em meio a ambientações sintéticas, ruídos, samples e batidas quebradas. Um som colorido, sempre detalhista, pano de fundo para a poesia meticulosa que orienta a experiência do ouvinte até a homônima faixa de encerramento do disco. Leia o texto completo.

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