Os 50 Melhores Discos Brasileiros de 2018 [20-11]


De Carne Doce a Rubel, de Negra Li à Maria Beraldo, é hora de relembrar alguns dos principais trabalhos lançados nos últimos meses. São registros independentes ou mesmo obras apresentadas por grandes gravadoras que sintetizam parte da produção nacional em diferentes gêneros – pop, indie rock, hip-hop, R&B, jazz e eletrônica. Nos comentários, conte pra gente: qual é o seu disco favorito de 2018?


#20. E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante
Fundação (2018, Balaclava Records)

Em 2014, quando os integrantes da banda paulistana E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante deram vida aos dois primeiros EP de inéditas da carreira, Vazio e um registro homônimo de quatro faixas, havia um claro interesse do grupo em mergulhar na formação de bases atmosféricas e ambientações extensas, naturalmente íntimas de clássicos do pós-rock concebido no final da década de 1990. Composições montadas em uma medida própria de tempo, sem pressa, como paisagens instrumentais deliciosamente trabalhadas de forma a hipnotizar o ouvinte. Sem necessariamente perverter essa mesma estrutura detalhista que vem sendo explorada pelos músicos Lucas Theodoro, Luccas Vilella, Luden Viana e Rafael Jonke, curioso perceber no recente Fundação (2018, Balaclava Records), álbum de estreia do quarteto paulistano, um novo direcionamento estético. Como indicado durante o lançamento do Daiane, composição escolhida para anunciar o registro, o som pacato de outrora abre passagem para a formação de um material enérgico, por vezes urgente, como uma parcial fuga do conceito que vinha sendo explorado até o compacto Medo de Morrer / Medo de Tentar (2016). Leia o texto completo.

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#19. Tuyo
Pra Curar (2018, Independente)

Dor que machuca e ao mesmo tempo liberta. Em Pra Curar (2018, Independente), primeiro álbum de estúdio do trio paranaense Tuyo, cada fragmento do registro encontra na força dos sentimentos, romances fracassados e profunda honestidade dos versos a base para um trabalho que acolhe na mesma medida em que parece provocar. Memórias de um passado ainda recente, fresco, conceito que se reflete tão logo a obra tem início, em Terminal (“O buraco que você abriu / Ainda está aqui / Te esperando / Feito cachorro“) e segue até a derradeira Sem Querer (“Eu te deixei escapar / Entre os meus dedos, então / Você caiu nos meus pés / E eu pisei em você“). Guiado pelo caos urbano e pequenas crises de identidade, o trabalho de dez faixas segue exatamente de onde o trio formado pelas irmãs Lio e Lay Soares e o parceiro Jean Machado estacionaram no último ano, durante o lançamento do também melancólico Pra Doer (2017). Versos guiados pela completa incerteza da vida adulta, tema que orienta grande parte das canções produzidas em conjunto com a dupla Gianlucca Azevedo (Jan) e Pedro Soares (Jack). “A vida anda tão louca, tô encurralada / Com dilemas insolúveis / Porque agora eu sou grande, eu to bem adulta / Tenho que pagar de normal / Um adjetivo bom pra vida é: Louca / Porque pra viver não pode bater bem“, cresce a voz cristalina em Vidaloca, uma síntese preciosa da poesia desconcertante que serve de alicerce para o disco, proposta que vem sendo aprimorada desde os primeiros registros autorais do grupo, vide a contemplativa Solamento. Leia o texto completo.

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#18. Cora
El Rapto (2018, PWR Records)

“Pela primeira vez. Eu desejei ter menos do que dez dedos nas mãos para roer. E mais espaço de memória para não esquecer. Que eu sempre posso encontrar o amor verdadeiro refletido no espelho. E quando chacoalham os galhos do pensamento. A ordem do silêncio virá de dentro. Quem eu desejo ser nessa constelação? É a metástase da vida em geração”. O trecho breve destacado no interior de Kόρη, segunda música de El Rapto (2018, PWR Records), diz muito sobre a poesia intimista, doce e libertadora que invade o primeiro álbum de estúdio da dupla paranaense Cora. Composições movidas pela forte sensibilidade dos arranjos e versos, como um convite a se perder em um universo de emanações inebriantes, reflexões sobre a descoberta da feminilidade e, principalmente, o amadurecimento sentimental do eu lírico. Inspirado no mito grego de Perséfone — divindade raptada por Hades e obrigada a viver no mundo inferior —, El Rapto discute o sufocamento do feminino frente ao controle de uma figura masculina. “Eu preciso respirar“, clama a voz de Kaíla Pelisser (sintetizador e voz) nos instantes finais de Massagem Cardíaca, faixa em que a poesia angustiada do álbum se revela com maior naturalidade, valorizando a inserção dos instrumentos detalhados pela parceira Katherine Zander (guitarra e voz), e os músicos Lorenzo Molossi (bateria), Lui Bueno (guitarra e voz) e Leonardo Gumiero (baixo, sintetizador, programação), esse último, produtor do disco. Leia o texto completo.

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#17. Anelis Assumpção
Taurina (2018, Pomm_elo / Scubidu)

Da estreia com Sou Suspeita, Estou Sujeita, não Sou Santa (2011), ao colaborativo encontro com os Amigos Imaginários, em 2014, Anelis Assumpção sempre encarou a si mesma como a protagonista da própria obra. Um cuidado que se reflete na completa particularidade dos versos — sejam versões para o trabalho de outros compositores ou mesmo peças autorais —, ao minucioso catálogo de ritmos que embalam o trabalho da artista, principalmente variações do reggae/dub. Elementos que parecem dialogar com o cotidiano, romances, medos e conquistas da paulistana. Nada que se compare à fina exposição poética e sentimental detalhada no terceiro e mais recente álbum da cantora, Taurina(2018, Direto / Scubidu Music). Inspirado pelas vivências, reflexões e histórias acumuladas por Assumpção nos três últimos anos, Taurina nasce como um curioso exercício da cantora em traduzir musicalmente a própria alma. Para além do campo astrológico detalhado no título e imagem de capa do trabalho — projeto assinada pela artista visual Camile Sproesse —, canções que refletem o poder do feminino, a sexualidade e vulnerabilidade da mulher, estímulo para cada uma das 13 composições que movimentam o disco. Leia o texto completo.

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#16. ruído/mm
A é Côncavo, B é Convexo (2018, Independente)

Dez anos se passaram desde que os integrantes da ruído/mm deram vida ao primeiro álbum de estúdio da carreira, o precioso A Praia (2008). De lá para cá, cada novo registro autoral produzido pelo grupo curitibano parece transportar o ouvinte para dentro de um território completamente novo, mágico. Seja nas abstrações atmosféricas que invadem Introdução à Cortina do Sótão (2011) ou afundado no oceano melancólico de Rasura (2014), colorida e sempre detalhista é a extensa tapeçaria instrumental que vem sendo tecida por cada integrante da banda — hoje formada pelos músicos Alexandre Liblik (piano e teclados), André Ramiro (guitarra), Felipe Ayres (guitarra e efeitos eletrônicos), Giovani Farina (bateria), Rafael Panke (baixo) e Ricardo Pill (guitarra). Síntese desse permanente refinamento estético ecoa com naturalidade tão logo a climática Niilismo tem início. Composição escolhida para apresentar o novo álbum de inéditas do grupo paranaense, A é Côncavo, B é Convexo (2018, Independente), a faixa de essência atmosférica ganha forma aos poucos, sem pressa, sussurrando pianos, guitarras etéreas e ruídos pontuais de forma hipnótica. São paisagens instrumentais marcadas pela completa leveza das melodias, como uma interpretação particular do som produzido por estrangeiros como Sigur Rós e Mogwai. Leia o texto completo.

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#15. Gal Costa
A Pele do Futuro (2018, Biscoito Fino)

O amor é o componente central de A Pele do Futuro (2018, Biscoito Fino). Do momento em que tem início, na nostálgica Sublime (“Insistir em nós seria um crime / O amor que a gente sente / O amor na vida da gente / Não pode ser menos do que sublime“), passando pela composição de faixas exageradamente românticas, caso de Palavras no Corpo (“Esquecer, amor / Poucos versos são precisos / Ninguém diz eu te amo“), uma confessa homenagem à Amy Winehouse, cada elemento do disco encontra na força dos sentimentos, desilusões e poemas apaixonados o principal componente criativo para dialogar com o ouvinte. Sequência ao precioso Estratosférica (2015), obra em que decidiu revisitar o som produzido no início da carreira, A Pele do Futuro, trabalho conta com produção assinada pelo experiente Pupillo (Nação Zumbi) e direção artística de Marcus Preto, avança em relação ao tempo, lembrando os registros da cantora no final dos anos 1970 e início da década de 1980. Composições que transitam entre o samba, o jazz, o rock e o pop melancólico, proposta que muito se assemelha ao material entregue em obras como Água Viva (1978), Gal Tropical (1979) e Fantasia (1981). Leia o texto completo.

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#14. Adorável Clichê
O Que Existe Dentro De Mim (2018, Nuzzy Records)

É difícil não se identificar com as canções de O Que Existe Dentro De Mim (2018, Nuzzy Records). Do momento em que tem início, em Traços (“A rotina envelhece mais que todos os cigarros / E a minha vida passa mais rápido que os carros se vão“), até alcançar a derradeira Artificial (“Eu não sei se você já percebeu / A gente já não se importa mais“), cada fragmento do primeiro álbum de estúdio da banda catarinense Adorável Clichê parece pensado para dialogar com os sentimentos mais profundos de todo e qualquer ouvinte. São versos existencialistas, romances fracassados e conflitos pessoais típicos de jovens adulto. Canções que se projetam como um grito de angustiado do eu lírico, conceito reforçado com naturalidade em faixas como a amarga Eu Só Queria Que Tudo Tivesse um Fim. “Eu sempre entendo tanto do seu desespero / Eu sempre tento tanto te abraçar / Eu sempre perco o foco do meu desespero / Faz tempo que eu só me importo em te salvar“, cresce a poesia e voz de Gabrielle Philippi enquanto guitarras carregadas de efeito transportam o ouvinte para o início dos anos 1990. Leia o texto completo.

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#13. Teto Preto
Pedra Preta (2018, Nuzzy Records)

Como transportar para dentro de estúdio a mesma força e atmosfera caótica que embala as apresentações da Teto Preto? Ponto central do imenso turbilhão criativo que vem movimentando a cidade de São Paulo desde o início da presente década – vide diferentes festas de rua e eventos de ocupação do centro, como a Mamba Negra –, a performance do coletivo paulistano assume nova formatação em cada uma das oito faixas que marcam o primeiro álbum de estúdio do grupo, Pedra Preta (2018, Mamba Rec). Uma interpretação polida, mas não menos significativa de tudo aquilo que sintetiza a estranheza e o caráter contestador do projeto comandado por Laura Diaz (CarneOsso). Consumido pela força das batidas, vozes berradas e ruídos eletrônicos que encolhem e crescem a todo instantes, Pedra Preta reflete com naturalidade a atmosfera delirante da capital paulista, porém, sempre apontando para fora, como uma fuga desse mesmo universo. São colagens e ambientações estéticas que acabam valorizando a presença de cada integrante relacionado ao projeto, além de Diaz, completo pela presença de Loic Koutana (performance), Pedro Zopelar (sintetizadores, bateria eletrônica), Savio de Queiroz (sintetizadores, bateria eletrônica) e William Bica (percussão, trombone). Leia o texto completo.

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#12. Mahmed
Sinto Muito (2018, Balaclava Records)

Em Sobre a Vida em Comunidade (2015), primeiro registro em estúdio do grupo potiguar Mahmed, cada fragmento do disco parece pensado de forma calculada. Movimentos precisos, vozes contidas e pinceladas instrumentais que se entrelaçam de forma atmosférica, como se cada composição do disco servisse de base para a faixa seguinte, convidando o ouvinte a se perder em um imenso labirinto sensorial. Instantes de pura minúcia e leveza, proposta que assume novo direcionamento estético nas canções de Sinto Muito (2018, Balaclava Records), segundo e mais recente álbum de inéditas do quarteto de Natal, Rio Grande do Norte. Concebido a partir de pequenos recortes instrumentais, variações rítmicas e vozes assumidas por um time seleto de colaboradores, o trabalho de 11 faixas parece mudar de direção a todo instante, sem ordem aparente, fazendo da incerteza dos elementos a única garantia para o ouvinte. Exemplo disso ecoa com naturalidade na introdutória música de abertura do álbum. Pouco mais de um minuto em que melodias eletrônicas passeiam em meio a fragmentos extraídos de programas de TV e até trechos do filme Clube da Luta — “Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia todos seríamos milionários, e deuses do cinema, e estrelas do rock Mas nós não somos. Devagar vamos aprendendo isso“. Leia o texto completo.

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#11. Ava Rocha
Trança (2018, Circus)

É necessário tempo até que Trança (2018, Circus), terceiro e mais recente álbum de Ava Rocha, seja totalmente absorvido pelo ouvinte. E não poderia ser diferente. São 19 faixas que se espalham em um intervalo de mais de 60 minutos de duração. Canções que vão do mais profundo recolhimento poético e instrumental, caso de Continente e Pangeia, ao completo caos, como em Febre e Delírio. Variações que refletem o desejo da cantora e compositora carioca em brincar com a desconstrução da própria identidade artística. Guiado de maneira explícita pela força das batidas e ambientações percussivas testadas logo na inaugural Maré Erê, o sucessor de Ava Patrya Yndia Yracema (2015) se projeta como uma obra de essência ritualística, por vezes tribal. São vozes em coro, ruídos e variações rítmicas que tornam a experiência do ouvinte sempre incerta, tumultuada. Um som catártico e torto, como se a cada fragmento do disco o ouvinte fosse transportado para um território completamente novo. Leia o texto completo.

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