Os 50 Melhores Discos Brasileiros de 2018 [40-31]


De Mahmundi a Marcelo D2, de Gal Costa à Elza Soares, é hora de relembrar alguns dos principais trabalhos lançados nos últimos meses. São registros independentes ou mesmo obras apresentadas por grandes gravadoras que sintetizam parte da produção nacional em diferentes gêneros – pop, indie rock, hip-hop, R&B, jazz e eletrônica. Nos comentários, conte pra gente: qual é o seu disco favorito de 2018?


#40. Mestre Anderson Miguel
Sonorosa (2018, EAEO Records)

Da batida, nasce o canto e tem início a comoção. Ouvir Sonorosa (2018, EAEO Records), terceiro e mais recente álbum de estúdio de Mestre Anderson Miguel, é como se transportar para o ambiente dominado pelas cores, ritmos e sorrisos que marcam os cortejos de Maracatu. Vindo de uma longa tradição de mestres cirandeiros, o artista, hoje com 22 anos, resgata décadas de referências em meio a ensaios e encontros de Maracatu de Baque Solto na Zona da Mata de Pernambuco. Um misto de tradição e busca pela própria identidade que garante vida ao rico repertório montado para o álbum. “A primeira vez que eu canto aqui / O povo tá aí, pra me ver cantar / Vamos cirandar Vamos cirandar / Joguei a primeira ciranda no ar“, canta logo nos primeiros minutos do disco, em No Ar, um convite a se perder pelo universo conceitual que cresce em uma estrutura festiva ao longo da obra. Da voz limpa, brotam histórias, pensamentos e sensações, sempre acompanhadas pela percussão firme e metais que cercam o artista durante toda a execução do registro. Leia o texto completo.

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#39. Illy
Voo Longe (2018, Universal)

Produto da colorida sobreposição de ritmos — samba, ijexá, bossa nova, jazz, rock, pop e música cubana —, Voo Longe, estreia da baiana Illy, encontra no passado uma série de elementos para dialogar com o presente. São melodias empoeiradas, versos marcados pelo completo romantismo e um timbre de voz doce que lembra a jovem Gal Costa. Um reciclar de velhas experiências, mas que em nenhum momento soa como uma obra desgastada, pelo contrário, difícil não se deixar conduzir pela leveza e evidente frescor que orienta a construção do disco. Enquanto a produção do disco conta com a assinatura cuidadosa de Moreno Veloso e Kassin, nos versos, Illy passeia por entre versões para o trabalho de Djavan (Que Foi My Love?), além de músicas assinadas por nomes como Arnaldo Antunes (Afrouxa, Devagarinho), Alberto Continentino e Jonas Sá (Baleia) e Chico César (Só eu e você). Um som precioso que se revela tão logo o disco tem início, em Sombra da Lua, parceria com Gerônimo Santana, e segue até a derradeira ElaLeia meu texto na Folha.

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#38. Guizado
O Multiverso em Colapso (2018, YB Music)

Em 2010, quando deu vida ao segundo álbum de estúdio da carreira, o experimental Calavera, Guilherme Mendonça encontrou no uso voz um importante componente de transformação para o próprio trabalho. Longe das ambientações climáticas sutilmente detalhadas no antecessor Punx (2008), primeiro registro sob o título de Guizado, o trompetista paulistano passou a costurar fragmentos poéticos de forma propositadamente inexata, torta, combustível para a construção do ambiente caótico que se levanta por entre as brechas de faixas como Girando e Amplidão. Um esboço cru e naturalmente curioso do material que se revela por completo nas canções de O Multiverso em Colapso (2018, YB Music). Sequência ao atmosférico Guizadorbital (2016), obra em que decidiu viajar pelo cosmos em busca de faixas deliciosamente psicodélicas, O Multiverso em Colapso amplia de forma expressiva a relação de Guizado com a canção. Distante da poesia abstrata que vem sendo incorporada desde Calavera, Mendonça entrega ao público uma obra feita para ser cantada a plenos pulmões. Da letra delirante que inaugura o disco no encontro entre Negro Leo e Sandra Coutinho (As Mercenárias), passando pela essência contemplativa de Sonho Delírio, colaboração com Rômulo Fróes, cada fragmento do disco serve de complemento à estranha narrativa detalhada pelo músico paulistano. Uma interpretação retro-futurista do universo cultural, exageros e elementos típicos da década de 1980. Leia o texto completo.

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#37. Manoel Magalhães
Consertos Em Geral (2018, 8-Bics)

Na imersão dos fones de ouvido, o tempo se comporta de forma diferente quando passeamos pelas canções de Consertos em Geral (2018, 8-Bics). É como espreitar por entre as brechas de um passado distante, reviver de forma nostálgica a experiências de uma época que não volta mais. Da minuciosa composição dos versos ao som harmonioso e limpo que escorre por entre as faixas, Manoel Magalhães faz de cada fragmento do primeiro álbum em carreira solo um objeto de merecido destaque, revelando ao público uma obra mágica. Tamanho cuidado não vem por acaso. Dono de uma extensa seleção de obras partilhadas entre diferentes projetos da cena carioca, como Polar, Harmada e a extinta Columbia, na qual atuou como guitarrista e compositor, o músico fluminense transporta para dentro do presente disco parte da mesma atmosfera melódica e fina interpretação da música pop. São arranjos claramente ancoradas no folk-rock dos anos 1970 e 1980, como um resgate criativo de clássicos da música nacional e estrangeira. Leia o texto completo.

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#36. Huey
Ma (2018, Sinewave / Black Hole Productions)

Um instante de breve silenciamento que precede o esporro. Em Ma (2018, Sinewave / Black Hole Productions), segundo álbum de estúdio do quinteto paulistano Huey, todos os elementos do disco se revelam ao público em pequenas doses. São camada de fina distorção, paisagens instrumentais e ruídos ensurdecedores que se dobram de forma a completar toda e qualquer lacuna do registro. Um exercício minucioso, complexo, efeito da completa interferência e combinação de cada integrante da banda – hoje completa pelos músicos Rato (bateria), Dane El (guitarra), Vina (guitarra), Minoru (guitarra) e Vellozo (baixo). Menos urgente em relação ao material apresentado há quatro anos em ACE (2014), álbum de estreia do grupo, Ma é um trabalho que encanta justamente pela forma como os membros da Huey parecem seguir em uma medida própria de tempo, sem pressa. Do momento em que tem início, em Inverno Inverso, até alcançar a derradeira O+, com quase nove minutos de duração, perceba como cada composição do disco parece recortada de forma cirúrgica pela banda, alternando entre instantes de fúria e parcial recolhimento. Leia o texto completo.

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#35. Kassin
Relax (2018, LAB 344)

Do universo de emanações oníricas detalhadas na canções de Sonhando Acordado (2011) para a nostalgia delirante de Relax. Sete anos após o último trabalho de estúdio em carreira solo, Kassin decidiu se aprofundar ainda mais no diálogo com a música brasileira dos anos 1970 e 1980. O resultado dessa curiosa visita passado está na formação de um registro guiado pela fina colagem de ritmos – pop, soul, funk, jazz, rock –, e versos que se apegam ao cotidiano do prório artista de forma torta. Da crise política detalhada na inaugural O Anestesista(“A vida desse pobre moribundo / Lendo o que as pessoas acham / Sobre o golpe de Brasília / Que desilusão“), passando desaceleração na faixa-título (“Depois de um dia difícil / Quando as horas não passam / Relaxar com os amigos / Sem pensar em mais nada“), e romantismo doce de Coisinha Estúpida – releitura em parceria com Clarice Falcão para um dos clássicos da dupla Leno e Lilian na Jovem Guarda –, cada elemento do álbum se projeta como um reflexo da força criativa de seu realizador. Leia meu texto na Folha.

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#34. Erasmo Carlos
Amor é isso (2018, Som Livre)

Dono de uma extensa discografia, parte expressiva dela concentrada entre o final dos anos 1960 e início da década seguinte, de tempos em tempos, Erasmo Carlos reaparece com um ou vários registros de merecido destaque. Foi assim com a sequência formada por Mulher (1981), Amar pra Viver ou Morrer de Amor (1982) e Buraco Negro (1984), no começo dos anos 1980, além da recente dobradinha composta por Rock ‘N’ Roll (2009) e Sexo (2011), obras responsáveis por apresentar o trabalho do cantor a toda uma nova geração de ouvintes. Contido quando próximo do material apresentado há quatro anos, em Gigante Gentil (2014), o recente Amor é isso (2018, Som Livre), 31º álbum de estúdio do cantor carioca, é uma dessas preciosidades na carreira do Tremendão. De essência romântica, o trabalho que conta com produção assinada por Pupillo (Nação Zumbi) e direção artística de Marcus Preto se espalha vagaroso, sussurrando versos guiados pelo romantismo agridoce de seu realizador. Leia o texto completo.

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#33. Diomedes Chinaski
Comunista Rico (2018, Independente)

Do título paradoxal à construção das rimas, da composição das batidas ao seleto time de colaboradores que desfilam pelo interior da obra, cada fragmento de Comunista Rico reflete com naturalidade o amadurecimento criativo e força de Diomedes Chinaski dentro de estúdio. Mais conhecido pelo trabalho como parceiro de Baco Exu do Blues, na provocativa Sulicídio, o rapper pernambucano encontra em cada uma das 12 faixas do presente registro a passagem para um universo de sonhos, conflitos reais, medos e pequenas desilusões. Enquanto divide os versos com nomes como Don L, Djonga, Coruja BC1 e Síntese, batidas maquiadas por efeitos e colagens eletrônicas brincam com a desconstrução do trap em uma linguagem tão acessível quanto experimental, estímulo para a formação de músicas como Camisa 10, Câncer, Alma Perdida e a própria faixa-título do trabalho.

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#32. Torre
Rua I (2018, Independente)

Em Rua I (2018, Independente), o tempo é componente fundamental para entender o som produzido pelo grupo pernambucano Torre. Sem pressa, cada faixa que abastece o registro parece crescer em um ritmo próprio, surrando camadas de texturas instrumentais, ambientações cósmicas e paisagens sonoras pensadas para confortar o ouvinte. Frações melódicas e poéticas que refletem o completo esmero do quarteto formado por Felipe Castro (voz e guitarra), Antônio Novaes (guitarra e sintetizadores), Vito Sormany (bateria) e Danillo Sousa (baixo). Exemplo disso está na sequência de abertura composta pela faixa-título e Docilidade. São vozes sintéticas que se entrelaçam de forma quase instrumental, flutuando em meio a nuvens de sons atmosféricos, colagens eletrônicas e pianos orientados pela poesia cíclica de Castro – “Sem volta / Sem volta / Sem volta“. Uma fagulha para a sequência de batidas e guitarras crescentes, sempre detalhistas, além, claro, de versos densos que correm por entre as brechas da canção – “Espadas penduradas / Que brilham ofuscadas / Elas não estão sós / Tem muitos quadros ao redor / E eu não estou“. Leia o texto completo.

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#31. Negra Li
Raízes (2018, White Monkey Recordings)

Conforto é uma palavra que não se aplica ao trabalho de Negra Li. Em mais de duas décadas de carreira, sobram diálogos da ex-integrante do RZO com diferentes campos da música. Do samba ao soul, passando pela fina relação com o pop e incontáveis encontros com os mais variados representantes da cena brasileira, como Martinho da VilaSabotage e Pitty, nítido é o esforço da artista paulistana em desbravar e pavimentar o próprio caminho, direcionamento que se reflete com naturalidade nas canções do terceiro e mais recente álbum de estúdio em carreira solo, Raízes (2018, White Monkey Recordings). Como indicado logo na inaugural Venha, um criativo exercício de apresentação em que rima sobre pequenas conquistas pessoais (“Eu vim lá das quebradas e tenho aquela marra das minas de favela / Misturo a malícia das ruas com a elegância da passarela“), cada fragmento do registro discute passado e presente de forma autobiográfica, sempre minuciosa. Versos que se projetam como um olhar curioso sobre a carreira, principais conflitos e a essência política da rapper paulistana. Leia o texto completo.

       


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