Os 50 Melhores Discos Brasileiros de 2018 [50-41]


De Pabllo Vittar a Baco Exu do Blues, de Luiza Lian a Djonga, é hora de relembrar alguns dos principais trabalhos lançados nos últimos meses. São registros independentes ou mesmo obras apresentadas por grandes gravadoras que sintetizam parte da produção nacional em diferentes gêneros – pop, indie rock, hip-hop, R&B, jazz e eletrônica. Nos comentários, conte pra gente: qual é o seu disco favorito de 2018?


#50. Glue Trip
Sea at Night (Independente)

Em um universo de artistas preguiçosos, cada vez mais embriagados pela psicodelia do grupo australiano Tame Impala, os integrantes da banda paraibana Glue Trip parecem seguir um conjunto de regras próprias. Sem necessariamente fixar residência em gênero ou conceito específico, o quarteto de João Pessoa passou os últimos anos brincando com as possibilidades dentro de estúdio, versatilidade que se reflete em cada uma das nove faixas pensadas para o lisérgico Sea at Night (2018, Independente). Primeiro registro autoral desde o homônimo álbum de 2015, o trabalho concebido ao longo dos últimos meses, sem pressa, faz de cada composição um objeto curioso, como se cada integrante da banda — hoje formada por Lucas Moura (guitarra e voz), Felipe Lins (guitarra), Gabriel Araújo (baixo e voz), CH Malves (bateria e pad) e Rodolfo Salgueiro (teclado, sample e voz) —, fosse responsável por acrescentar uma fina pincelada instrumental e poética ao projeto. Composições que atravessam a música brasileira dos anos 1960 e 1970 para dialogar com a psicodelia eletrônica dos anos 2000, lembrando um improvável encontro entre Gilberto Gil e Washed Out. Leia o texto completo.

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#49. Alice Caymmi
Alice (2018, Flecha de Prata)

Tudo que eu quero te falar / É muito simples, muito simples mesmo / Tudo que eu quero te falar / Não é tão difícil, não é tão difícil“. A letra cíclica que abre a crescente Spiritual, canção escolhida para inaugurar o novo álbum de Alice Caymmi, Alice (2018, Flecha de Prata), funciona como um poderoso resumo da poesia descomplicada que orienta o ouvinte durante toda a execução da obra. A busca declarada da cantora e compositora carioca por um som ainda mais acessível, pop, como uma clara continuação do universo conceitualmente desbravado há quatro anos, durante a produção do antecessor Rainha dos Raios (2014). Obra de possibilidades, produto do incessante esforço em provar de novas referências instrumentais, o álbum de nove faixas faz de cada fragmento o princípio de um novo ambiente a ser desvendado pelo ouvinte. Como indicado durante o lançamento de Louca, música originalmente gravada pela mexicana Thalia, Caymmi e a parceira de produção, a conterrânea Bárbara Ohana, buscam não apenas dialogar com uma parcela ainda maior do público, como transportar para dentro de estúdio a mesma energia das apresentações ao vivo da artista — vide o registro da última turnê de Caymmi. Leia o texto completo.

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#48. Potyguara Bardo
Simulacre (2018, DoSol)

Simulacre (2018, DoSol) é uma obra estranha. Fuga declarada do som plástico que parece orientar o trabalho de outros tantos representantes do pop nacional, a estreia da drag queen norte-riograndense Potyguara Bardo dança pelo campo do incerto de forma a estimular a fragmentação das ideias. Retalhos poéticos, instrumentais e estéticos que se entrelaçam sem ordem aparente, ponto de partida para cada uma das nove faixas que brincam com interpretação do ouvinte durante toda a execução do álbum. Produto da colaboração entre os músicos Walter Nazário (Mahmed), Dante Augusto, Mateus Tinôco e José Aquilino, esse último, compositor e grande responsável pela personagem holística que dá título à obra, Simulacre encontra na perversão de velhos conceitos o principal componente criativo para o fortalecimento das faixas. São variações rítmicas que atravessam o pop radiofônico de Pabllo Vittar para dialogar com elementos do reggae, brega e música eletrônica de forma propositadamente incerta, torta. Leia o texto completo.

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#47. IZA
Dona de Mim (2018, Warner)

Sem pressa, Iza passou os últimos dois anos preparando o terreno para o lançamento do primeiro álbum de estúdio da carreira, Dona De Mim (2018, Warner Music). Produto das experiências e principais inspirações da cantora e compositora carioca, o trabalho de 14 faixas passeia por diferentes gêneros sem necessariamente parecer uma obra confusa. Canções ancoradas de maneira explícita no pop e R&B, porém, sutilmente perfumadas por variações rítmicas que vão do reggae à eletrônica, do trap ao uso de elementos típicos da música popular brasileira. Claramente dividido em duas metades, Dona De Mim sustenta no primeiro bloco de canções um bem-sucedido diálogo da artista com diferentes nomes da cena nacional. Logo na abertura do disco, a quentura das batidas e rimas de Ginga, música compartilhada com o rapper paulistano Rincon Sapiência e um dos destaques da obra. Em Bateu, uma colagem ensolarada de ritmos que ressalta a participação de Ruxell, junto de Sérgio Santos, o principal produtor do disco. Batidas e versos que se espalham sem pressa, ponto de partida para a já conhecida Pesadão, encontro com Marcelo Falcão, ex-integrante d’O Rappa. Leia o texto completo.

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#46. Gui Amabis
Miopia (2018, Independente)

Mesmo que de forma involuntária, cada novo álbum produzido por Gui Amabis funciona como a passagem para um universo completamente transformado, sempre particular e torto. Canções que se espalham sem pressa, dentro de uma medida própria de tempo, como se o cantor e compositor paulistano ocultasse segredos e temas intimistas em meio a arranjos sempre diminutos, conceito que vem sendo aprimorado desde a estreia em carreira solo, com o curioso Memórias Luso / Africanas(2011). Quarto e mais recente álbum de estúdio da carreira de Amabis, Miopia (2018, Independente) traz de volta a mesma atmosfera dos antigos trabalhos do músico, principalmente o antecessor Ruivo em Sangue (2015), porém, dentro de uma linguagem própria. Composições sempre contemplativas, econômicas, mas não menos detalhistas, proposta que orienta a experiência do ouvinte até o último instante do trabalho, na delicada (e efêmera) canção-título. Leia o texto completo.

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#45. Marrakesh
Cold as a Kitchen Floor (2018, Balaclava Records)

Ouvir Cold as a Kitchen Floor, estreia do grupo curitibano Marrakesh, é como tatear um ambiente escuro. Sem saber exatamente o que encontrar pela frente, faixa após faixa, o grupo brinca com os instantes, colidindo diferentes fórmulas instrumentais, conceitos e, principalmente, sentimentos, cuidado que se reflete desde a música de abertura do disco, Void, e segue até a derradeira Mirage, minucioso ato escolhido para o fechamento do registro. Produto da lenta sobreposição de ideias e preferências compartilhadas por cada membro do projeto — hoje composto por Lucas Cavallin, Bruno Tubino, Thomas Berti, Matheus Castella e Nicholas Novak —, o álbum de 12 faixas ganha forma aos poucos, sem pressa. Entre guitarras carregadas de efeito, sintetizadores, samples e vozes maquiadas pelo uso do auto-tune, cada elemento da obra parece transportar público e banda para um novo território, brincando com a interpretação do ouvinte. Leia o texto completo.

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#44. Quartabê
Lição #2: Dorival (2018, Risco)

Dorival Caymmi (1914 – 2008) talvez seja um dos personagens mais significativos e, consequentemente, regravados da nossa música. De veteranos como Gal Costa, que em 1976 lançou o ótimo Gal Canta Caymmi, apenas com versões para o trabalho do músico de Salvador, passando por obras recentes, caso do primeiro álbum de Alice Caymmi, neta do cantor e compositor baiano, sobram registros, canções e experimentos pontuais que adaptam de forma inteligente o trabalho do artista nascido no início do século passado. Um sem número de obras que encontram no oceano poético de Caymmi uma fonte inesgotável de inspiração. Exemplo disso está na composição atmosférica que rege o delicado Lição #2: Dorival (2018, Risco). Segundo e mais recente álbum de estúdio do grupo paulistano Quartabê, projeto composto por Joana Queiroz (saxofone tenor, clarinete e clarone), Maria Beraldo (clarinete e clarone), Mariá Portugal (bateria) e Rafael Montorfano (piano e teclados), o trabalho de nove faixas busca refúgio na obra do músico baiano, porém, dentro de uma linguagem torta, semi-jazzística e guiada pela doce experimentação. Pinceladas instrumentais e poéticas que transportam o universo de Caymmi para um novo ambiente criativo. Leia o texto completo.

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#43. Julia Branco
Soltar os Cavalos (2018, Independente)

“Eu sou mulher / E isso só me amplia / Não cabe numa palavra / Por tudo que acerta / Que erra”. Mesmo longe de parecer a principal música de Soltar os Cavalos (2018, Independente), estreia em carreira solo da cantora e compositora mineira Julia Branco, Eu Sou Mulher, quarta composição do disco, diz muito sobre o material entregue pela artista. São poemas musicados que refletem os diferentes espectros da alma feminina. Instantes guiados pela autodescoberta do eu lírico, versos existencialistas, incertezas e gritos de libertação pessoal que acompanham o ouvinte até a derradeira Cheia de Dobras. Mais conhecida pelo trabalho como integrante da banda mineira Todos Os Caetanos do Mundo — com quem lançou o bom Pega a Melodia e Engole (2015) —, em nova fase, Branco segue uma trilha diferente dos antigos registros autorais. Enquanto os versos detalham as experiências particulares e interpretações sobre ser mulher, musicalmente, o álbum aponta para novas direções. Recortes minimalistas que se aproximam do jazz, sutilmente corrompem a MPB tradicional e fazem da voz o principal componente da obra. Leia o texto completo.

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#42. Viratempo
Cura (2018, Pupila Dilatada)

Não quero nada de novo / Pois nada é novo de fato / Nada é criado / Tudo é transformado“. O verso extraído de Fatos / Fotos, segunda música de Cura (2018, Independente), diz muito sobre a atmosfera nostálgica que orienta a experiência do ouvinte durante toda a execução do primeiro álbum de estúdio do grupo paulistano Viratempo. Composições que flutuam entre passado e presente, conceito que se reflete não apenas na estrutura melódica e sintetizadores que recheiam o interior disco, mas, principalmente, no romantismo empoeirado que ganha forma e cresce no decorrer da obra. Fuga declarada das ambientações acústicas que marcam o primeiro EP de inéditas da banda, lançado há dois anos, Cura se divide entre faixas de essência atmosférica e temas levemente dançantes, eletrônicos, como um diálogo com a música produzida na segunda metade dos anos 1980. Exemplo disso ecoa na sequência formada pela autointitulada faixa de abertura do disco e no pop referencial de Janela. Enquanto a primeira canção, uma parceria com o pernambucano Otto, transporta o ouvinte para o mesmo universo de artistas como Kravinsky e Chromatics, na composição seguinte, uma clara mudança de direção. Sintetizadores e guitarras que soam como um delicioso cruzamento entre o pop brega dos californianos da Toto com a obra de artistas como Os Paralamas do Sucesso e Neon Indian. Leia o texto completo.

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#41. Marcelo D2
Amar É Para Os Fortes (2018, Pupila Dilatada)

Duas décadas após o lançamento do primeiro álbum de estúdio em carreira solo, Eu Tiro É Onda (1998), Marcelo D2 continua a se reinventar criativamente. Em Amar É Para Os Fortes, sequência ao maduro Nada Pode Me Parar (2013), som, rima e imagem se entrelaçam em uma narrativa que passeia pelo Rio de Janeiro de forma sempre provocativa, atual. Trata-se de um projeto transmídia, uma ópera-rap que funciona de trilha sonora para o projeto visual dirigido por D2 e centrado em um personagem interpretado pelo filho do próprio artista, o rapper Sain. Canções que discutem criminalidade, uso de drogas, o poder transformador da arte, repressão policial e as pequenas conquistas do povo preto. Marcado pela fluidez de ritmos – rap, soul, samba, blues e pop –, o trabalho ainda se abre para a colaboração de nomes como Gilberto Gil, Alice Caymmi, Rodrigo Amarante, Marcelo Jeneci, Seu Jorge e Rincon Sapiência.

       



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