Os 50 Melhores Discos Brasileiros de 2019 [20-11]


Qual é o seu disco favorito de 2019? De Rincon Sapiência a Boogarins, de Karina Buhr a Jards Macalé, é hora de relembrar alguns dos principais trabalhos que abasteceram o cenário brasileiro nos últimos meses. São registro que transitam por diferentes sonoridades, gêneros e propostas essencialmente distintas, indicativo da completa pluralidade que define a nossa música.


#20. Rincon Sapiência
Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps (2019, MGoma)

Em tempos de forte conservadorismo, repressão policial e perseguição a grupos marginalizados, experiências simples do cotidiano, como sorrir e dançar, se transformam em um poderoso ato de resistência. E é exatamente isso que Rincon Sapiência discute no segundo e mais recente álbum de estúdio da carreira, Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps (2019, MGoma). Menos hermético em relação ao antecessor Galanga Livre (2017), o registro que conta com produção assinada pelo próprio artista preserva o forte discurso político testado no disco anterior, porém, parte de um novo direcionamento estético, fazendo da utilização de ritmos periféricos um estímulo natural para a composição dos versos. E isso se reflete logo nos primeiros minutos do disco, na introdutória faixa-título do trabalho. Do uso das guitarras, claramente inspiradas em elementos da cultura africana, passando pela criativa sobreposição das batidas, ruídos sintéticos e temas eletrônicos, Sapiência e o parceiro de produção, o experiente MazBeats, costuram quatro ou mais décadas de referências de forma deliciosamente frenética, arrastando o ouvinte para as pistas. Um misto de passado e presente, como um avanço claro em relação ao material entregue em Galanga Livre. Leia o texto completo.

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#19. Alessandra Leão
Macumbas e Catimbós (2019, YB Music)

O canto cíclico lançado por Alessandra Leão logo nos primeiros minutos de Macumbas e Catimbós (2019, YB Music), quarto álbum de estúdio da cantora e compositora pernambucana, funciona como um delicado rito de passagem para o ambiente contemplativo, particular e místico que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. Um exercício de profunda entrega emocional, como um avanço claro em relação ao material apresentado pela artista nos últimos anos, caso de Brinquedo de Tambor (2006), Folia de Santo (2008), Dois Cordões (2009), a trilha sonora da peça Guerreiras (2010) e a trilogia formada por Pedra de Sal (2014), Aço (2015) e Língua (2016). Despido de possíveis excessos e centrado unicamente no uso da voz como instrumento, Macumbas e Catimbós se espalha em meio a batidas e entalhes percussivos divididos entre a cantora e a dupla formada por Abuhl Jr. e Maurício Badé. O resultado desse forte comprometimento estético resulta na formação de uma obra de essência hipnótica, minuciosa, como se pensada para induzir o transe. Instantes em que a artista pernambucana faz do próprio canto uma oferenda, dialogando com orixás e entidades que lhe foram sopradas ao pé do ouvido. Leia o texto completo.

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#18. Boogarins
Sombrou Dúvida (2019, OAR)

As chances de eu fugir daqui / São nulas“. Os versos lançados por Dinho Almeida (guitarra e voz) logo nos primeiros minutos de As Chances, faixa de abertura de Sombrou Dúvida (2019, OAR), traduzem com naturalidade o delirante desejo do público em se perder pelo interior do quarto álbum de estúdio do grupo goiano Boogarins. Enigmático e torto, como uma extensão natural de tudo aquilo que o quarteto – completo por Benke Ferraz (guitarra e sintetizadores), Raphael Vaz (baixo) e Ynaiã Benthroldo (bateria) –, vem produzindo desde o antecessor Lá Vem a Morte (2017), o trabalho que conta com co-produção de Gordon Zacharias mostra a capacidade da banda em capturar a atenção do ouvinte sem necessariamente fazer disso o principio para uma obra rasa. Concebido em meio a camadas instrumentais, vozes sobrepostas, ruídos e captações abstratas, o registro marcado pela colorida colisão de ideias parte de uma estrutura conceitualmente restrita para mergulhar em pequenas reinterpretações de uma mesma base poética e instrumental. São versos que se repetem, arranjos reciclados e a desconfortável sensação de familiaridade, como se o ouvinte tateasse as paredes de um extenso labirinto criativo, proposta que vem sendo aprimorada pela banda desde a estreia com As Plantas Que Curam (2013). Leia o texto completo.

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#17. Karina Buhr
Desmanche (2019, Independente)

A crueza explícita logo nos primeiros minutos de Sangue Frio, música de abertura de Desmanche (2019, Independente), funciona como um indicativo claro do material produzido para o quarto e mais recente álbum de estúdio de Karina Buhr. Sequência ao também urgente Selvática (2015), obra marcada pelo forte discurso feminista, o novo disco sustenta na crueza das guitarras e percussão destacada o alicerce criativo para o lirismo político que serve de sustente ao disco. Composições marcadas pelo criativo jogo de palavras, conceito que vem sendo aprimorado pela cantora e compositora baiana desde a estreia com Eu Menti pra Você (2010). “O tempo tá matador / Precisando exercitar paz e amor“, canta logo nos primeiros minutos do disco, estímulo para a inserção de guitarras corroídas pela distorção e a ambientação quase tribal dos tambores, como um resgate do mesmo universo criativo detalhado pela cantora no Comadre Fulozinha, com quem lançou três bons álbuns de estúdio. São versos curtos, rápidos, porém, sempre precisos, como se Buhr soubesse exatamente como acertar o ouvinte, conquistando a atenção do púbico tão logo o registro tem início. Leia o texto completo.

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#16. Maquinas
O Cão de Toda Noite (2019, Mercúrio Música)

O som de vidro se partindo logo nos primeiros segundos de Maus Hábitos, faixa de abertura de O Cão de Toda Noite (2019, Mercúrio Música), funciona como um indicativo claro da completa imprevisibilidade que marca o segundo e mais recente álbum de estúdio do grupo cearense Maquinas. Sequência ao atmosférico Lado Turvo, Lugares Inquietos (2016), obra que parecia jogar com o minimalismo dos elementos, o presente disco encontra na pluralidade de ritmos e fórmulas instrumentais a passagem para um registro que encontra no óbvio um componente de necessária perversão. Instantes de puro delírio, como se do território em branco e preto detalhado no disco anterior, o grupo de Fortaleza fosse além. Não por acaso, o quinto formado por Allan Dias (baixo, voz), Roberto Borges (guitarra, sintetizador e voz), Yuri Costa (guitarra, sintetizador e voz), Gabriel de Sousa (saxofone e samples) e Ricardo Lins (bateria e percussão) escolheu justamente a atmosférica O Silêncio É Vermelho para apresentar o trabalho. Verdadeiro exercício de transição entre o material entregue no disco anterior e as canções do presente álbum, a faixa de quase nove minutos se revela ao público em pequenas doses, valorizando cada fragmento de voz, arranjo ou instante breve de improviso, estrutura que encolhe e cresce a todo momento, arrastando o ouvinte cada vez mais para dentro do ambiente torto da obra. Leia o texto completo.

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#15. Tantão e os Fita
Drama (2019, QTV)

O caos reina nas canções de Drama (2019, QTV). Sequência ao experimental Espectro (2017), obra que apresentou ao público o trabalho de Carlos Antônio Mattos, o Tantão, em parceria com a dupla de produtores formada por Abel Duarte e Cainã Bomilcar, os Fita, o registro de apenas sete faixas encontra na crueza das rimas e pequenas corrupções estéticas a base para um dos projetos mais inventivos da presente cena carioca. Frações poéticas que discutem racismo, caos urbano e pequenos delírios pessoais de forma sempre provocativa, insana, como uma extensão natural de tudo aquilo que o artista vinha produzindo em sua antiga banda, a Black Future. Exemplo disso está na autointitulada faixa de abertura do disco. São pouco menos de seis minutos em que colagens eletrônicas, batidas e sintetizadores tortos se abrem para a inserção dos versos lançados por Tantão. “Crise nas infinitas terras / Infinitas são as dores / E a dor não para / E a dor não para / Não para, não para, não para, não“, despeja em um misto de dor e libertação. Ideias que se entrelaçam de forma propositadamente irregular, conceito que ganha ainda mais destaque na faixa seguinte do álbum, Vai Não Volta, um som anárquico que parece dialogar com o rap industrial do Death Grips e demais representantes da cena estrangeira. Leia o texto completo.

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#14. Pélico
Quem Me Viu, Quem Me Vê (2019, Independente)

Ouvir as canções de Quem Me Viu, Quem Me Vê (2019, Independente) é como entrar em um território onde você sabe exatamente o que irá encontrar e, ainda assim, ser surpreendido. Quarto e mais recente álbum de estúdio do cantor e compositor Pélico, o registro que conta com produção assinada por Dudinha e Régis Damasceno, segue exatamente de onde o músico paulistano parou há quatro anos, durante o lançamento do confessional Euforia (2015). São canções embriagadas pela melancolia, relacionamentos fracassados e a constante tentativa do eu lírico em encontrar um novo amor. Um delicado exercício criativo que conduz a experiência do ouvinte até a derradeira Amanheci. “Pra começar, eu vou dizer / Aqui é o nosso acerto de contas / Sem a menor esperança / Do tempo curar a doce ilusão / Das coisas que vão se resolver“, canta em tom raivoso, logo na inaugural Acerto de Contas, canção que indica a trilha sentimental seguida pelo artista durante toda a execução do trabalho. São versos que alternam entre a dor e a libertação, o desejo e angústia, como uma extensão segura do material entregue pelo artista durante o lançamento de sua maior obra, o doloroso Que Isso Fique Entre Nós (2011). Leia o texto completo.

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#13. Jards Macalé
Besta Fera (2019, Pommelo)

Soturna e atmosférica, Vampiro de Copacabana abre passagem para o ambiente de formas abstratas, delírios e poemas urbanos que escorrem da boca de Jards Macalé em Besta Fera (2019, Pommelo). “Ah, corpo no breu / Ah, dama da noite / Ah, caminho torto / Ah, olhos de sangue“, passeia a criatura das trevas pelo centro do Rio de Janeiro, mergulhando em uma paisagem noturna enquanto ruídos metálicos escapam da guitarra que respira e cresce ao fundo da canção. Versos semi-declamados que orientam e experiência do ouvinte durante toda a execução da obra, estímulo para a construção do primeiro álbum de inéditas do cantor e compositor carioca desde o ótimo O Q Faço É Música (1998). Misto de passado e presente, o registro que conta com produção de Kiko Dinucci (Metá Metá) e Thomas Harres não apenas resgata a essência de Macalé, efeito do olhar curioso sobre os três primeiros registros do músico – Jards Macalé (1972), Aprender a Nadar (1974) e Contrastes (1977) –, como se entrega à ruptura e permanente senso de descoberta. “Eu sou aquele que ao passar dos anos / Cantando a minha lira maldizente / Torpezas do Brasil, vícios, enganos / E bem que os de cantar constantemente / Canto segunda vez na mesma lira / O mesmo assunto em pletro diferente“, reflete no samba torto que embala a faixa-título do disco. Versos sóbrios que indicam o desejo de mudança do compositor, resgatam trechos da obra de Gregório de Matos e ainda se abrem para o cavaquinho minucioso de Rodrigo Campos e o saxofone de Thiago França (Metá Metá). Leia o texto completo.

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#12. Constantina
Atrópico (2019, La Petite Chambre)

Ouvir o som produzido pelos mineiros do Constantina é uma experiência sempre gratificante. Seja no direcionamento incerto que embala as canções do autointitulado debute, ou nas experimentações eletrônicas que invadem o temático Haveno (2011), cada registro entregue pelo coletivo belo-horizontino reflete o esmero e profundo comprometimento estético de seus realizadores. Entretanto, o que mais surpreende é pensar que mesmo após tantos lançamentos e mais de uma década de atuação, o grupo composto por André Veloso (baixo), Daniel Nunes (bateria), Bruno Nunes (guitarra), Viquitor Burgos (clarone e eletrônicos) e Lucas Morais (trompete) continua a se reinventar dentro de estúdio, investindo na produção em um material tão rico e provocativo quanto em início de carreira. E isso se reflete com naturalidade a cada movimento do recente Atrópico (2019, La Petite Chambre). Primeiro álbum de estúdio do quinteto mineiro desde o atmosférico Pelicano (2014), o registro de cinco faixas preserva a essência minimalista dos antigos trabalhos da banda, porém, chama a atenção pelos detalhes, ruídos e texturas ocasionais que se escondem por entre as brechas da obra. São delicados paisagens instrumentais, estrutura que naturalmente força uma audição atenta por parte do ouvinte, porém, encanta pela forma como o grupo perverte possíveis traços de morosidade em prol de um registro essencialmente dinâmico. Leia o texto completo.

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#11. Hot e Oreia
Rap de Massagem (2019, Independente)

A divertida fotografia que estampa a imagem de capa de Rap de Massagem (2019, Independente), álbum de estreia da dupla Hot e Oreia, funciona como um indicativo claro do lirismo cômico que embala o som produzido pelo duo mineiro. Sem necessariamente abraçar um gênero ou conceito específico, os dois artistas transitam por entre ritmos e fórmulas pouco usuais de forma a se distanciar de outros nomes recentes da produção brasileira. Frações poéticas que vão de elementos da cultura africana ao pop em uma linguagem deliciosamente acessível, despretensiosa, ainda que consciente, cuidado que se reflete até a faixa de encerramento do disco, Cigarro. Inaugurado pela forte espiritualidade que emana dos versos do convidado Rafael Fantini (“Grandioso olá de lá, axé / Salve ó mãe Iansã / Eparrei“), Rap de Massagem aos poucos ganha forma em meio a rimas rápidas (“Tem quem espera a fruta cair depois que bate o vento … Aqui é só tijolada“), um coro de vozes infantis (“As notas têm cor, já sei de cor / Aprendi a ser bem mais que um dó“) e a criativa colagem de referências que aponta para diferentes campos da música brasileira (“Deus é todo mundo sorrindo ao mesmo tempo / Não é não, Parteum?“). Um colorido catálogo de ideias que faz da crescente Eparrei um indicativo claro da pluralidade de ideias que movimenta o álbum. Leia o texto completo.

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